Entre montanhas, vinhedos e uma paisagem que convida a desacelerar, Vinícola Arouca surge como um novo conceito na Serra Fluminense (Foto: Erick Schons/@midiaspura)
Muito além do vinho. É com essa expressão que o idealizador e gestor do empreendimento, Mauricio Cardoso Arouca, define a Vinícola Arouca. “O projeto também nasce do desejo de valorizar a natureza, estimular o desenvolvimento regional e recuperar áreas verdes. Um lugar onde produção, paisagem e experiências caminham juntas”, detalha.
Em entrevista exclusiva para a Revista A Lavoura, o enólogo autodidata fala um pouco sobre a sua trajetória profissional e quais foram os caminhos que o levaram a encontrar o rumo para o mundo dos prazeres da produção de vinhos, suas nuances e a importância de unir lavoura, ciência e experiência. Confira abaixo:

O idealizador e gestor da Vinícola Arouca, Mauricio Cardoso Arouca e sua esposa, Silvia Azevedo. Foto: Arquivo pessoal
Revista A Lavoura: Maurício, conte um pouco da sua história, sua relação com o agronegócio e, também, com a Vinícola Arouca?
Mauricio Cardoso Arouca: Sou engenheiro elétrico nuclear, com mestrado em Planejamento Energético pela COPPE/UFRJ e doutorado em Economia Industrial pela Universidade Paris VII – Jussieu. Minha trajetória profissional começou na academia, como professor na COPPE, e passou por agências de inovação como a ABDI e a Finep, onde aprendi a avaliar viabilidade de tecnologias e a transformá-las em negócio. Também atuo como consultor em energia e sou conselheiro da Fine Instrument Technology, empresa que desenvolveu o primeiro equipamento de ressonância magnética do Brasil para o agronegócio.
Na Vinícola Arouca, ocupo a posição de idealizador e gestor do empreendimento, à frente do projeto como um todo — do vinhedo à vinificação, e do vinho à experiência de visitação. Sou um enólogo autodidata; a parte técnica de campo e de adega é conduzida com apoio de profissionais especializados, e eu acumulo a função de definir o rumo do projeto no território, no produto e no modelo de negócio. Vale registrar que trago, também junto com meu irmão, meu sócio neste empreendimento, 34 anos de experiência em hotelaria e gastronomia, com pousadas, bares e restaurantes em Armação dos Búzios.

Também é possível fazer visitação à adega da vinícola. Foto: Erick Schons/@midiaspura
Revista A Lavoura: Você poderia compartilhar com os nossos leitores como surgiu o projeto da vinícola?
Mauricio Cardoso Arouca: O projeto nasceu do encanto pessoal pela variedade de formas de se fazer vinhos. Um costume que desenvolvemos em família foi viajar para locais tradicionais na produção de vinhos e uma curiosidade que sempre rondou: “porque não se produzia vinho fino de qualidade no estado do Rio de Janeiro?”. Em 2017 conheci a técnica de dupla poda desenvolvida pelo pesquisador Murilo Regina da Epamig e na mesma semana fui para Caldas conhecer os detalhes da técnica e como poderia adquirir mudas. Fiz um projeto piloto no mesmo ano em meu quintal em Itaipava com 900 mudas de Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon e Syrah. Passei a me dedicar no estudo de vários artigos científicos e visitei alguns projetos já em execução na região sudeste que me encantaram ainda mais pelo ineditismo e pelo desafio de trabalhar com algo inovador no mundo. Em 2018, adquiri a Fazenda Boavista em Areal e iniciei o empreendimento com o plantio de 23 mil pés de uvas vitiviníferas, com 6 castas diferentes, adotando a técnica de dupla poda. É importante ressaltar que o Brasil é pioneiro no uso dessa técnica que produz uvas para colher no inverno. É o primeiro projeto do tipo na cidade de Areal e o segundo no estado do Rio de Janeiro, focado desde o início no enoturismo, com a maior plantação de uvas do estado, por vários anos.
A vinícola foi construída em 2022 pois era preciso dominar o método de vinificação. A primeira safra, colhida em seguida, foi praticamente toda dedicada a experimentos, testando máquinas e processos. Em 2021 eu ampliei a plantação para 16 variedades diferentes, cuja a vinificação no ano de 2023 já totalizava onze varietais — algo que sublinho com orgulho: no Brasil ninguém vinificava onze variedades do mesmo lugar “terroir”.
Em 2025, engarrafamos 16 mil garrafas, com vinhos de excelência e processos de intervenção mínima. A projeção é chegar a 40 mil garrafas nos próximos anos, à medida que as áreas mais jovens do vinhedo entram em produção plena.

Vista aérea de um dos vinhedos da Vinícola Arouca. Foto: Erick Schons/@midiaspura
Revista A Lavoura: Falando agora sobre as características da região, como o local escolhido influencia no ciclo das videiras e na produção dos vinhos?
Mauricio Cardoso Arouca: Areal fica na regiões Serrana do estado do Rio de Janeiro, a cerca de 90 a 100 quilômetros da capital, e é vizinha de Petrópolis, Paraíba do Sul e Três Rios. O município tem cerca de 12 mil habitantes e foi declarado “Capital da Uva” do estado por lei estadual. Sua localização se mostrou perfeita para um projeto de enoturismo devido à grande adaptação das uvas viníferas ao seu “terroir” e a relativa curta distância entre grandes centros urbanos. O projeto do complexo ocupa uma área de 320 hectares, dos quais 1.000 metros quadrados de área construída na Casa Vinnus, um centro de experiencia voltado para o mundo do vinho, cinco chalés de 100m2 cada um para receber os amantes do vinho, a Vinícola onde vinificamos nossos vinhos e uma área de expansão que terá novas hospedagens, um parque, um museu dentre outras atrações.
Em relação à adaptação das uvas o ponto decisivo está na combinação de altitude e clima com a técnica que adotamos, a dupla poda que consiste em realizar duas podas anuais: a primeira em agosto, na época usual, e a segunda no verão, o que desloca a colheita para o inverno. Na prática, invertemos o ciclo da videira: ela adormece no verão e chega ao ponto de colheita no inverno, quando a serra tem dias secos, boa insolação e grande amplitude térmica entre o dia e a noite. Essas condições favorecem a maturação lenta e completa dos cachos, com um equilíbrio que se traduz em estrutura, acidez e aroma no vinho.
É importante frisar: existem dois ciclos vitícolas no ano, mas uma única colheita. A técnica não busca aumento de produtividade; ela busca reposicionar a safra para uma melhor janela climática que permita a produção de grandes vinhos.

As uvas são cuidadosamente selecionadas para a produção dos vinhos. Foto: Erick Schons/@midiaspura
Revista A Lavoura: Você poderia contar, em detalhes, quais são as técnicas utilizadas no manejo e na produção das uvas?
Mauricio Cardoso Arouca: O manejo começa no planejamento do vinhedo, com definição de variedades por talhão, a experimentação de plantio de uma mesma varietal em diferentes tipos de solos e busca de tratos culturais que minimize o uso de defensivos e herbicidas.
O ciclo operacional se organiza em quatro etapas: a poda de formação, na primavera, quando a videira se organiza para o ciclo seguinte; a poda de produção, no fim do verão, que busca deslocar a safra para época mais fria; a maturação, no outono/inverno, com dias secos e com altos gradientes de variação de temperatura; e a colheita das uvas viníferas ao fim do inverno.
Na condução do vinhedo, trabalhamos com 40 mil pés plantados. Nesta safra, foram colhidas 19 espécies diferentes, sendo 17 vitiviníferas e 2 de uvas de mesa para a fabricação de nosso suco natural. Na elaboração, a orientação é a intervenção mínima: trabalhamos tanto com leveduras comerciais como também leveduras do próprio vinhedo, sem padronizações que ofusquem o caráter do território. O objetivo é expressar a máxima identidade do terroir de Areal e do Rio de Janeiro.
Emprego: nas atividades de cultivo e produção, geram-se cerca de 1,5 empregos diretos por hectare. Hoje temos 13 funcionários ligados diretamente ao campo, dois na vinícola. Além disso temos oito no complexo Casa Vinnus e Hospedagem, sem contar o efeito indireto da cadeia — contratação de serviços de manutenção, fornecedores e equipamentos e construção civil.
Revista A Lavoura: Atualmente, a vinícola produz quais e quantas variedades de vinho?
Mauricio Cardoso Arouca: Trabalhamos hoje com 19 espécies de uvas em cultivo, com 17 variedades vitiviníferas na última safra. A linha de vinhos se organiza em três níveis e uma edição do ano.
Na linha Gran Reserva estão Syrah, Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon e Corte Bordalês. Na linha Reserva, Corte Areales, Corte do Ano e Tempranillo. Na linha Premium, Sauvignon Blanc, Viognier, Syrah, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon. E a linha Experience traz cortes diversos do ano, em pequena quantidade.
A Syrah tem se mostrado a casta de melhor desempenho em termos de produtividade na região, a Sauvignon Blanc foi o ponto de partida da nossa curva de aprendizado em brancos. Produzimos, portanto, tinto, branco e rose. Também produzimos nosso suco natural Vovó Laurinda com um blend das uvas Niágara Rosa e Bordô.

O Cabernet Franc é uma das variedades produzidas na vinícola. Foto: Erick Schons/@midiaspura
Revista A Lavoura: Além dos vinhos, o que mais a Vinícola Arouca tem a oferecer para os visitantes?
Mauricio Cardoso Arouca: A Casa Vinnus é o centro de experiência e degustação, com 1.000 metros quadrados de área construída e arquitetura integrada à natureza, em pedra e madeira, valorizada pela luz natural e pela arte — lustres e peças em ferro criados exclusivamente para a Casa pela artista plástica Carmem Slavinski. O espaço tem áreas independentes de degustação, para que grupos diferentes convivam sem interferência, e um bar de espumantes com vista para o pôr do sol.
Na programação, oferecemos visitação com degustação de cerca de 1h30, o “Enólogo por um dia”, de aproximadamente 3 horas, visitas guiadas aos vinhedos, café da manhã com cardápio à la carte e almoço e petiscos no cardápio. Tudo com agendamento pela Casa Vinnus.
A Villa Arouca completa a experiência com hospedagem: cinco cabanas alugadas por inteiro, cada uma com duas suítes, sala, cozinha compacta e varanda voltada para o vinhedo e para o pôr do sol — o início de um projeto que deve chegar a 100 suítes, em três categorias. E há um princípio que defendo desde o começo: a Casa Vinnus não é um espaço exclusivo dos vinhos da Vinícola Arouca, é um espaço para abraçar todo o ecossistema vitivinífero, recebendo experiencias com vinhos de produtores da região e rótulos de parceiros.
LEIA TAMBÉM:
→ Entre videiras e netos, casal cultiva uma nova história para o vinho no Rio de Janeiro

A degustação de vinhos é uma das atrações na Casa Vinnus. Foto: Erick Schons/@midiaspura
Revista A Lavoura: Para finalizar, o que mais você gostaria de compartilhar com nossos leitores?
Mauricio Cardoso Arouca: Faço questão de situar a Vinícola Arouca dentro de um movimento maior. Areal e municípios vizinhos somam mais de 40 hectares plantados, com dezenas de vinícolas em formação e em produção, mais de 19 variedades de castas e a dupla poda como técnica regional. A AVIVA, associação dos vinicultores locais, reúne produtores como Fazenda Bemposta, Borgo Del Vino, Vale dos Desejos, Tassinari, Casa Rozental, Casa Antunes, Terra Benta, Vinícola Mendez e Vale da Bússola, entre outros — e a Serra Fluminense já tem pelo menos 47 viticultores plantando uva para vinho.
Também é preciso honestidade sobre a escala. As vinícolas da região respondem atualmente por cerca de 60% da produção de vinho do estado, que estimo em torno de 65 mil garrafas por ano. E há uma questão de cadeia que gosto de trazer para o debate: quando se fala em vinho, é preciso separar vinhos finos, vinhos suaves de mesa e suco de uva. No Brasil, cerca de 80% da produção gaúcha é voltada a uvas suaves ou suco, e apenas 20% a vinhos finos — esse é o padrão no mundo. A Serra Fluminense se concentrou no vinho fino, que é o segmento mais nobre e também o mais caro de sustentar. O tinto sozinho não fecha a conta. Só se viabiliza vinho fino quando ele está atrelado a outro negócio — turístico ou imobiliário. No meu caso, minha tradição é o turismo, e a uva se torna rentável porque o visitante está aqui dentro. A produção funciona como catalisador: provoca tudo em volta.
O futuro do projeto contempla um museu, um parque com exposições de arte integradas à natureza, produção de café gourmet e outras cultivares de alto valor agregado. A lógica é sempre a mesma: unir lavoura, ciência e experiência.








