Conheça a fazenda onde o palmito virou experiência, sustentabilidade e desenvolvimento no Vale das Ribeira, sul do Estado de São Paulo
No coração da Mata Atlântica paulista uma palmeira que caminhava para a extinção encontrou no turismo rural o seu maior aliado. A história começou em um empreendimento familiar, nos anos de 1990, quando o casal Ana Maria e José Osmar decidiu trazer uma tonelada de sementes do palmito pupunha juçara (uma espécie amazônica), do Pará, para uma fazenda com área de 180 hectares localizada em Iporanga (SP).
A intenção era testar uma teoria defendida por agrônomos da época: substituir a extração predatória do palmito juçara por uma alternativa cultivável e sustentável. O experimento deu certo e se transformou em um modelo inovador de negócio que hoje é referência nacional.

O casal Ana Maria e José Osmar quando iniciaram com palmito pupunha como alternativa cultivável e sustentável Foto Palmitolândia/Divulgação
Mudança com turismo rural
Anna Gabriella Rodrigues, conhecida por Gabi Robrigues, filha do casal e hoje à frente do negócio, conta que a ideia inicial era simples: ao cultivar a pupunha, os extratores ilegais deixariam a Juçara em pé na floresta. Mas foi a chegada do turismo que consolidou a mudança. “Hoje eu falo que o turismo me salvou”, reforça a empreendedora.

A fazenda de Iporanga substituiu a extração predatória do palmito pupunha por um negócio sustentável e premiado Foto Daniele Otto Embrapa/Divulgação
Ela completa que a fazenda se abriu para visitantes, trocando o combate direto pela educação ambiental. “Com a presença constante de turistas, a pressão sobre a Juçara diminuiu, e a palmeira, antes ameaçada, começou a se multiplicar”, comemora a produtora rural.
LEIA TAMBÉM
Reconhecimento nacional
A empreendedora ressalta que é possível gerar renda, desenvolver o turismo, manter a floresta em pé e, ainda, alcançar reconhecimento nacional. O trabalho desenvolvido por Gabi Rodrigues na Palmitolândia já conquistou inúmeros prêmios, em diferentes áreas, como agricultura, empreendedorismo e turismo sustentável.
O mais recente deles foi a classificação Ouro pela categoria Educação Ambiental e Conscientização, no 3° Prêmio do Congresso Nacional de ESG. “O prêmio reforça a certeza de que estamos construindo um caminho diferente, mostrando que é possível produzir, empreender e preservar ao mesmo tempo”, afirma a agricultora.
Nascida em São Paulo, mas criada em contato direto com a natureza, Anna Gabriella cresceu entre hortas, animais e áreas verdes. O vínculo com a região de Iporanga começou ainda na infância, durante as viagens em família para explorar as cavernas e cachoeiras do Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (PETAR).
Formada em Comunicação Social e com mais de quinze anos de atuação na área, ela encontrou no palmito pupunha uma oportunidade para unir propósito, empreendedorismo e conservação ambiental.

Na fazenda Palmitolândia o visitante tem contato com sistemas agroflorestais que combinam cultivo agrícola e recuperação da vegetação nativa – Divulgação
Muito além da produção agrícola
Ao longo dos anos, a produtora percebeu que o mercado tradicional do palmito enfrentava desafios estruturais. Embora seja um produto valorizado pelo consumidor, a remuneração ao agricultor permanece baixa, pressionando toda a cadeia produtiva.
Foi a partir dessa constatação que nasceu a proposta da Palmitolândia: agregar valor ao produto por meio da gastronomia criativa e do turismo de experiência.
O visitante não encontra apenas uma plantação. A experiência inclui vivências gastronômicas, oficinas, contato com sistemas agroflorestais e a oportunidade de conhecer de perto a cultura do palmito pupunha, recentemente reconhecida com o selo de Indicação Geográfica (IG) do Vale do Ribeira.
“Queremos mostrar que o palmito é muito mais do que um ingrediente de salada. É um superalimento versátil, nutritivo e que pode ocupar um lugar de destaque na gastronomia brasileira”, afirma Gabi Rodrigues.

Gabi Robrigues: “O palmito é muito mais do que um ingrediente de salada. É um superalimento versátil, nutritivo e que pode ocupar um lugar de destaque na gastronomia brasileira Foto Palmitolândia/Divulgação
LEIA TAMBÉM
Palmitolândia
Com a palmeira Juçara preservada, a criatividade floresceu na cozinha da fazenda, apelidada carinhosamente de “Palmitolândia”. O palmito, antes visto de forma tradicional, ganhou versões surpreendentes para atender a todos os públicos, especialmente veganos e celíacos.
“Os visitantes que chegam hoje se encantam com um brigadeiro que não leva chocolate, mas sim a semente da Juçara, patês 100% vegetais que substituem o queijo e até um refrescante suco de palmito com gengibre”, conta a empresária rural.
Segundo ela, essas inovações são parte da experiência lúdica oferecida, que inclui até uma “palmitoterapia”, onde os visitantes podem criar arte com os alimentos.
- A Palmitolândia agrega valor ao produto por meio da gastronomia criativa e do turismo de experiência Foto Palmitolândia/Divulgação
Sustentabilidade como modelo de negócio
A preservação ambiental não é um complemento da atividade, mas o próprio fundamento do empreendimento. A produção está baseada em sistemas agroflorestais que combinam cultivo agrícola e recuperação da vegetação nativa.
Além disso, a Palmitolândia investe em conceitos de economia criativa, colaborativa e circular, desenvolvendo projetos em parceria com artistas, produtores e profissionais de diferentes áreas.
Entre os próximos investimentos estão a construção da Casa do Palmito, espaço cultural voltado à realização de oficinas gastronômicas e artísticas, a ampliação da estrutura de produção e melhorias na hospedagem para receber um número maior de visitantes.
Para Gabi Rodrigues, a aproximação entre iniciativa privada e poder público é fundamental para ampliar o alcance dessas iniciativas.
“Existem muitos projetos que nasceram aqui e que podem ganhar o mundo. Precisamos fortalecer a conexão entre o setor público e o privado para transformar boas ideias em oportunidades de desenvolvimento”, destaca a empresária.
LEIA TAMBÉM
Novo catálogo de turismo rural tem informações de 266 empreendimentos
- Brigadeiro que não leva chocolate, mas sim a semente da Juçara e o pãomito, são iguarias que encantam os visitantes Foto Palmitolândia/Divulgação
Um novo olhar sobre o campo
A experiência oferecida pela Palmitolândia também tem impacto na percepção dos visitantes sobre a produção rural e a conservação ambiental. Ao conhecer de perto a realidade da floresta e da agricultura sustentável, turistas passam a enxergar novas possibilidades para a relação entre consumo e a natureza.
Para a produtora rural, o verdadeiro sucesso não está nos prêmios ou no crescimento do negócio, mas na transformação gerada em cada pessoa que visita a propriedade.
Entre as frases espalhadas pela propriedade, uma resume a essência da Palmitolândia: “Dinheiro não se come. Palmito sim.” Uma mensagem simples que traduz a filosofia de quem transformou um produto agrícola em símbolo de sustentabilidade, identidade regional e desenvolvimento para o Vale do Ribeira.
Fontes: Secretaria de Turismo e Viagens do Governo do Estado de São Paulo e Ministério do Turismo (MTur)
Foto abertura: Anna Gabriella Rodrigues, fundadora da Palmitolândia Foto Secretaria de Turismo e Viagens/Governo do Estado de São Paulo/Divulgação












