Em Lages (SC), uma propriedade rural tem revelado uma surpreendente diversidade de aves, com registro de mais de 120 espécies, como a espécie Martim-pescador-pequeno (Chloroceryle americana), na imagem.
(Foto: Marcelo Yutaro)
O dia ainda nem clareou completamente quando o silêncio do campo é interrompido pelo canto de uma gralha-azul. Poucos minutos depois, outro som chama a atenção de quem segura um binóculo. Para milhares de turistas, essa experiência vale uma viagem inteira.
O birdwatching — ou observação de aves — deixou de ser um hobby de especialistas para se consolidar como um dos segmentos que mais cresce dentro do turismo de natureza, movimentando pousadas, fazendas, parques e comunidades rurais em todo o Brasil.
A Serra Catarinense é um dos lugares que vêm apostando nesse potencial. Em Lages (SC), uma propriedade rural onde funciona o Boqueirão Hotel Fazenda tem revelado uma surpreendente diversidade de aves em meio às araucárias, campos naturais, áreas agrícolas e cursos d’água.
O mosaico de paisagens já permitiu o registro de mais de 120 espécies, número que pode chegar a aproximadamente 150 conforme o levantamento avance ao longo das diferentes estações do ano.
Entre os destaques estão espécies emblemáticas da Mata Atlântica e da Floresta Ombrófila Mista, como a gralha-azul (Cyanocorax caeruleus), o grimpeiro (Leptasthenura setaria), o papagaio-charão (Amazona pretrei), a sanã-vermelha (Laterallus leucopyrrhus), a choca-de-chapéu-vermelho (Thamnophilus ruficapillus) e o quem-te-vestiu (Poospiza nigrorufa).

Na fazenda catarinense, a observação de aves foi incorporada às atividades já oferecidas aos hóspedes, como caminhadas, cavalgadas e trilhas. Foto: Divulgação/Boqueirão Hotel Fazenda
O trabalho de catalogação é conduzido pelo biólogo Marcelo Yutaro, formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pesquisador de mestrado da instituição e guia especializado em observação de aves.
“Alguns hóspedes já praticavam birdwatching espontaneamente na propriedade, mas sem um direcionamento ou conhecimento mais detalhado sobre a diversidade local. O objetivo do projeto é mapear as espécies e avaliar o potencial da área para a observação de aves”, explica Yutaro.
Além de identificar aves residentes, migratórias e endêmicas, o estudo busca compreender como cada espécie utiliza os diferentes ambientes da fazenda. As informações servirão de base para a criação de roteiros específicos de observação e fotografia, reduzindo interferências sobre os animais e valorizando a experiência dos visitantes.
Entre as próximas etapas está a definição de pontos estratégicos para observação, além da instalação planejada de bebedouros e comedouros em locais selecionados a partir do diagnóstico ambiental realizado pelo pesquisador.
Muito além dos binóculos

Saíra-viúva. Foto: Marcelo Yutaro
Ao contrário do que muitos imaginam, o birdwatching não exige experiência prévia. O primeiro contato pode começar simplesmente pela identificação dos cantos, das cores e dos comportamentos das aves.
Com o tempo, muitos visitantes passam a reconhecer espécies, compreender seus hábitos e perceber detalhes da paisagem que normalmente passariam despercebidos.
Essa conexão também fortalece a conservação ambiental.
O monitoramento das espécies fornece informações importantes sobre a qualidade dos habitats e ajuda a compreender a importância da preservação da vegetação nativa, especialmente das áreas de araucárias, fundamentais para diversas aves que dependem de suas sementes, copas e cavidades para alimentação e reprodução.
LEIA TAMBÉM:
Turismo de pesca ganha força no Brasil. Confira alguns destinos
Agroturismo transforma a Serra do Espinhaço em vitrine do campo mineiro
Pesquisa: 74% escolhem o turismo rural pela proximidade com a natureza
Turismo rural amplia a experiência
Na fazenda catarinense, a observação de aves foi incorporada às atividades já oferecidas aos hóspedes, como caminhadas, cavalgadas e trilhas.
Os passeios costumam acontecer nos horários de maior atividade da avifauna — início da manhã e fim da tarde — quando as chances de avistar espécies raras aumentam.
A experiência é complementada pela gastronomia regional. O pinhão colhido na própria propriedade aparece em diversas receitas inspiradas no conceito farm-to-table, enquanto o enoturismo ganha espaço com a Quinta do Boqueirão, projeto de vinhos de altitude que aproxima os visitantes de outra tradição típica da Serra Catarinense.
Brasil reúne alguns dos melhores destinos do mundo

Choca-de-chapéu-vermelho. Foto: Marcelo Yutaro
Com cerca de 1,9 mil espécies de aves registradas, o Brasil figura entre os países mais procurados por observadores nacionais e estrangeiros. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) mantém uma lista oficial de dezenas de Unidades de Conservação preparadas para receber praticantes da atividade, distribuídas por todos os biomas brasileiros.
Entre os destinos mais conhecidos estão:
- Pantanal (MT e MS): considerado um dos principais polos de birdwatching do planeta, reúne centenas de espécies em ambientes de fácil observação, incluindo tuiuiús, araras-azuis, jaburus e colhereiros.
- Parque Nacional do Itatiaia (RJ/MG): frequentemente apontado entre os melhores locais do mundo para observação de aves, abriga grande diversidade de espécies da Mata Atlântica de altitude.
- Alta Floresta (MT): porta de entrada para a Amazônia Meridional, tornou-se referência internacional para observadores interessados em espécies amazônicas.
- Serra do Cipó (MG): combina campos rupestres e Cerrado, oferecendo oportunidades para observar aves endêmicas da região.
- Chapada dos Veadeiros (GO) e Serra da Bodoquena (MS): integram a lista de Unidades de Conservação federais que promovem o turismo de observação de ave








