Pioneiros na Serra Fluminense, Ângela e José Cláudio Aranha apostaram na colheita de inverno e defendem roteiros de enoturismo para fortalecer os produtores da região
(Foto: Divulgação)
Uma tempestade de granizo mudou o destino da propriedade de Ângela e José Cláudio Aranha na Serra Fluminense. Onde antes havia café, hoje crescem as videiras da Vinícola Inconfidência, em Paraíba do Sul, próximo à divisa com Petrópolis.
A mudança nasceu da perda de quase todo o cafezal, passou por anos de experimentação e ganhou uma identidade familiar, em que os primeiros vinhos produzidos na própria vinícola receberam os nomes dos sete netos do casal.
José Cláudio lembra que o estrago no café não apareceu imediatamente depois da tempestade.
Segundo ele, o gelo se acumulou na base das plantas e permaneceu ali por mais de um dia. Cerca de duas semanas depois, aproximadamente 90% do cafezal estava seco e escurecido.
A perda abriu espaço para a ideia, que também acompanhava seus planos de aposentadoria, de produzir vinho na serra do Rio de Janeiro. Engenheiro, José Cláudio queria uma alternativa agrícola para a propriedade. Ao lado de Ângela, psicóloga, procurou orientação para descobrir se as uvas poderiam se adaptar àquele lugar.
“E aí tudo começou como experiência”, conta ela.
Uma aposta que levou anos para amadurecer

José Cláudio Aranha, sócio da Vinícola Inconfidência, que hoje reúne cerca de 24 mil videiras Foto: Cristina Baran
As primeiras conversas com o agrônomo Murillo de Albuquerque Regina ocorreram em 2008 — o agrônomo é responsável por difundir a técnica de dupla poda que viabilizou a produção de vinhos no Sudeste. No ano seguinte, o casal preparou o terreno. Em 2010, plantou as primeiras oito mil videiras, com mudas de origem francesa.
A orientação técnica ajudou a transformar a intenção em um experimento acompanhado de perto. Era preciso preparar o solo, aprender o manejo das plantas e observar como cada variedade responderia às condições locais. A equipe que antes cuidava do café também precisou aprender uma nova atividade.
Pioneiro no cultivo de uvas para vinhos na Serra Fluminense, o casal ainda não tinha, naquele começo, segurança de que a produção sustentaria uma vinícola. Foram necessários quatro anos entre o plantio e a primeira safra com volume suficiente para orientar os próximos investimentos, em 2014.
Até 2018, as uvas eram levadas para vinificação na Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais, a Epamig, em Minas. A viagem, de aproximadamente 720 quilômetros, exigia uma logística cuidadosa. Cada variedade era colhida conforme seu ponto de maturação e seguia de caminhão durante a noite, aproveitando as temperaturas mais baixas.
Os vinhos voltavam engarrafados, prontos para receber os rótulos.
Com a ampliação do vinhedo, o casal decidiu construir sua própria unidade de elaboração. A primeira produção feita na própria Inconfidência veio em 2020.
Hoje, segundo os fundadores, a propriedade reúne cerca de 24 mil videiras, parte delas ainda em desenvolvimento.
O inverno como aliado

Entre as uvas cultivadas estão Syrah, Sauvignon Blanc, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot. Foto: Divulgação
A dupla poda é uma das bases da produção, vez que que permite deslocar a colheita para o inverno. O manejo abre caminho para que a maturação das uvas ocorra em um período de menor incidência de chuvas.
Na propriedade, situada a aproximadamente 600 metros de altitude, essas condições ajudaram a viabilizar a aposta. José Cláudio destaca a importância das noites frias e dos dias ensolarados para as características das uvas e dos vinhos.
Ângela lembra que compreender o manejo exigiu orientação e disposição para aprender. A adaptação das variedades foi sendo observada safra após safra.
Entre as uvas cultivadas estão Syrah, Sauvignon Blanc, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot. Para o casal, Syrah e Sauvignon Blanc se destacam pela adaptação à dupla poda.
A busca por outras possibilidades, entretanto, continua. Os fundadores apostam em experiências com novas variedades, entre elas a italiana Nero d’Avola, além da produção de Malbec.
Uma família nos rótulos

Rótulos da vinícola recebem nomes dos netos e membros da família. Foto: Divulgação
A produção ganhou uma marca afetiva quando os vinhos começaram a ser elaborados na própria Inconfidência. Para celebrar a nova etapa, o casal decidiu homenagear os sete netos nos primeiros rótulos: Luisa, Alice, Manuela, Rafael, João Paulo, Matheus e Gustavo.
“Nós demos o nome dos netos.Queríamos marcar esse momento”, conta Ângela.
A intenção inicial não era necessariamente manter a homenagem nas safras seguintes. Os visitantes, porém, passaram a procurar os vinhos pelos nomes da família.
“Pensamos em mudar os nomes, mas os clientes já chegavam perguntando pelos ‘netos’”, lembra Ângela.
Os nomes ficaram. Com o crescimento do portfólio, o casal precisou buscar outras referências familiares para batizar os novos vinhos, incluindo as Marias e os Antônios.
“Hoje temos mais rótulo do que netos”, brinca José Cláudio.
“As fábricas de neto fecharam”, completa Ângela.
A participação da família também chega às decisões sobre os vinhos. Filhos e demais familiares se reúnem com o enólogo para experimentar diferentes cortes e discutir as opções antes da escolha final.
Os encontros precisam conciliar agendas, viagens e a rotina de uma família com netos de diferentes idades. Ainda assim, a degustação dos novos vinhos permanece como um momento de participação coletiva.
Conhecimento compartilhado

Produção dos vinhos na Vinícola Inconfidência. Foto: Cristina Baran
A experiência acumulada desde os primeiros plantios passou a servir também a outros produtores. Ângela e José Cláudio contam que ajudam quem está começando com indicações de agrônomos, fornecedores de garrafas, rolhas, rótulos e equipamentos.
Para Ângela, acompanhar a evolução dessas iniciativas é uma das recompensas da trajetória. Ela lembra de encontrar, em uma degustação, produtores que pouco tempo antes ainda estavam implantando seus vinhedos.
“Conhecemos eles no início do platio, então, é muito bacana ver essa evolução.”
A colaboração também levou a uma ampliação da capacidade de elaboração da Inconfidência. Além dos próprios vinhos, a estrutura passou a atender parte da produção de vizinhos, oferecendo uma alternativa ao transporte das uvas para outros estados.
José Cláudio ressalta que a capacidade disponível na região ainda não atende a toda a demanda. Mesmo assim, a possibilidade de processar as uvas mais perto dos vinhedos representa um apoio para novos projetos.
Uma rota para descobrir a serra

Ângela Aranha durante a degustação de vinhos com os visitantes da propriedade. Foto: Cristina Baran
Para os fundadores, o crescimento do número de vinícolas precisa ser acompanhado de uma organização do enoturismo.
José Cláudio defende a criação de roteiros que agrupem propriedades próximas e ajudem o visitante a planejar os deslocamentos.
A inspiração vem de regiões produtoras onde é possível sair do hotel com uma programação definida, conhecer diferentes vinícolas e distribuir os passeios ao longo de vários dias.
A proposta é reunir informações que tornem viável combinar visitas sem subestimar as distâncias entre os municípios serranos. Para ele, roteiros bem estruturados permitiriam conhecer diferentes estilos de vinho e estimulariam a circulação de visitantes entre os produtores.
“Temos que ter roteiros que permitam às pessoas saírem de casa sabendo que elas podem visitar ao menos três propriedades”, defende.

A editora da Revista A Lavoura, Cristina Baran, ao lado de José Cláudio, durante visita à Vinícola. Foto: A Lavoura
Na Vinícola Inconfindência, a visita inclui uma passagem pelo vinhedo, com explicações sobre o cultivo e a dupla poda, seguida da degustação de três vinhos. O agendamento é feito pelo site. A editora da Revista A Lavoura, Cristina Baran, foi uma das visitantes da propriedade.
Os fundadores também preparam uma ampliação do espaço de recepção, com uma área onde os visitantes poderão escolher uma garrafa entre os demais rótulos e permanecer por mais tempo, acompanhando o vinho com frios e petiscos.
Redação A Lavoura








