Portal reunirá documentos sobre a trajetória da instituição e a formação do ensino agronômico brasileiro, com lançamento previsto para outubro
(Foto: Raphael Lupo)
A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), em Piracicaba (SP), terá um portal digital com cerca de 30 mil documentos históricos digitalizados sobre sua trajetória e a formação do ensino agronômico brasileiro.
Chamado “Portal Luiz de Queiroz”, o projeto reúne documentos inéditos de cinco acervos da instituição e será lançado em outubro, durante a Semana Luiz de Queiroz.
A iniciativa, que coincide com as comemorações dos 125 anos da Esalq, contempla a pesquisa, a digitalização, a catalogação e a organização de registros produzidos desde a fundação da Escola, em 1901, até sua consolidação como uma das unidades fundadoras da Universidade de São Paulo (USP), em 1934.
O trabalho começou em novembro de 2025. Até o lançamento, a expectativa é disponibilizar ao público metade do material previsto no projeto.
“Até o momento, cerca de 80% dos itens previstos já foram digitalizados. Nossa expectativa é chegar ao lançamento com aproximadamente 15 mil documentos organizados e disponíveis para consulta”, afirma o coordenador do projeto, o engenheiro agrônomo formado pela Esalq e artista visual Paulo José Franco Neto, conhecido como Pazé.
Os documentos pertencem aos acervos do Museu, do Protocolo, da Sala da Congregação e da Biblioteca Central da Esalq, além de outras coleções.
Entre os materiais estão documentos administrativos, relatórios, fotografias, mapas, periódicos, objetos históricos e registros institucionais relacionados ao ensino, à pesquisa e ao desenvolvimento do setor agropecuário brasileiro.
A ideia de criar o portal começou a ser desenvolvida em 2020 por Pazé e pelo também ex-aluno Marcos Fogagnoli, em colaboração com Barbara Daniselli, sócia da Memoriaweb, empresa especializada em memória institucional. Naquele mesmo ano, a proposta foi apresentada ao então diretor da Esalq, Durval Dourado Neto.
Atualmente, uma equipe de 25 pessoas trabalha no desenvolvimento da plataforma. O projeto foi aprovado pelo Ministério da Cultura, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, sob o número 243545 no Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac).
Historiadores conectam documentos e contextos

Arquivista e equipe de bolsistas da pesquisa do projeto conversando sobre a catalogação dos documentos. Foto: Barbara Daniselli
Uma equipe de historiadores é responsável por pesquisar, selecionar, interpretar e contextualizar os milhares de registros. O objetivo é ir além da disponibilização de documentos antigos, estabelecendo conexões entre a trajetória da Escola e as transformações vividas por Piracicaba, pelo estado de São Paulo e pelo Brasil.
O historiador e coordenador da pesquisa histórica, Roney Cytrynowicz, explica que o trabalho envolve a construção de narrativas capazes de atender tanto ao público especializado quanto às pessoas interessadas na memória da instituição.
“Nosso trabalho é articular os diferentes conteúdos históricos, documentais e iconográficos, sempre pensando nos pesquisadores, nos estudantes, na comunidade acadêmica e no público em geral”, afirma.
A equipe reúne profissionais especializados em diferentes campos do conhecimento. Eles participam da produção de uma linha do tempo e de textos sobre a fundação da Esalq, seus primeiros anos de funcionamento e sua inserção no contexto social, econômico e científico brasileiro.
“No projeto do Portal, contamos com um grupo de historiadores e outros profissionais profundamente conhecedores da história de Piracicaba e da região em suas conexões com a história de São Paulo e do país. Além disso, contamos com arquivistas, cujo papel é igualmente fundamental para selecionarmos e darmos sentido aos documentos, antes da sua catalogação propriamente dita”, explica Cytrynowicz.
Participam da produção histórica Carlos Eduardo de Freitas Vian, Eliana Tadeu Terci, Alexandre Macchione Saes, Roney Cytrynowicz, Marly Germano Perecin, Fabiana Junqueira e Pazé.
O portal apresentará a história do fundador da Escola, Luiz Vicente de Souza Queiroz, e de sua esposa, Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz, além de informações sobre personagens que tiveram participação decisiva na criação e na gestão inicial da instituição.
A Escola e a transformação de Piracicaba

Documento digitalizado. Divulgação Portal Luiz de Queiroz
Responsável pela produção de verbetes sobre a relação entre Luiz de Queiroz e o desenvolvimento de Piracicaba, a historiadora e professora Eliana Terci investiga a participação do empresário no processo de modernização da cidade no final do século 19.
“A história da Esalq não pode ser compreendida isoladamente, pois está profundamente ligada à formação de Piracicaba, às transformações econômicas da região e aos projetos de modernização daquele período”, explica.
O trabalho também recupera o diálogo com historiadores e memorialistas piracicabanos que, ao longo das últimas décadas, ajudaram a preservar a memória da cidade. A proposta é mostrar como a criação da Escola se relacionou com mudanças na economia, na infraestrutura, no ensino e no desenvolvimento científico da região.
A historiadora Fabiana Junqueira participou diretamente da identificação e da seleção dos documentos. O processo exigiu a análise dos acervos existentes em diferentes setores da Esalq e a adoção de critérios como relevância histórica, potencial para pesquisas futuras e estado de conservação.
“Não se trata apenas de escolher documentos antigos. É preciso avaliar quais registros ajudam a compreender diferentes aspectos da história da instituição e podem contribuir para pesquisas em várias áreas do conhecimento”, afirma.
A investigação revelou materiais pouco conhecidos sobre trabalhadores, funcionários, obras, infraestrutura, administração e cotidiano institucional. Segundo Fabiana, esses registros poderão subsidiar estudos em áreas como história, sociologia, economia, arquitetura e agronomia.
“Há documentos que permitem compreender a história da Escola, de Piracicaba e até mesmo processos mais amplos da história brasileira. São fontes que podem gerar novas interpretações e novas pesquisas nos próximos anos”, finaliza.
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Acervo para as próximas gerações
Além de ampliar o acesso público à documentação, o projeto busca preservar materiais físicos de valor histórico. A digitalização reduz a necessidade de manuseio dos originais e permite que pesquisadores, estudantes e outros interessados consultem os registros a distância.
“A digitalização ajuda a difundir esse material para as próximas gerações. Também estamos treinando estudantes para dar continuidade ao trabalho após a entrega do portal e vamos doar um scanner de alta resolução para a Esalq”, destaca Pazé.
O portal também reunirá depoimentos sobre a importância da instituição para o ensino superior, a pesquisa e o agronegócio brasileiro. Entre os participantes estão o ex-aluno e ex-ministro da Agricultura e Pecuária Roberto Rodrigues; o professor e ex-reitor da USP Jacques Marcovitch; e a engenheira agrônoma e pesquisadora da Embrapa Soja Mariangela Hungria da Cunha, primeira brasileira a receber o Prêmio Mundial da Alimentação, o World Food Prize, considerado o “Nobel da Agricultura”.
Para Pazé, tornar os registros públicos permitirá compreender melhor a participação da Escola nas mudanças pelas quais passou o campo brasileiro ao longo do século 20.
“A Esalq teve papel importante na transformação da agricultura brasileira e ajudou a formar profissionais que participaram diretamente desse processo. Tornar essa documentação acessível ao público é uma forma de preservar e compartilhar essa história”, afirma.

Processo de digitalização dos documentos. Foto: Barbara Daniselli
Acessibilidade desde a concepção
A plataforma está sendo projetada para permitir a navegação de pessoas com deficiência visual, auditiva, motora ou cognitiva. A equipe trabalha com recursos como contraste adequado, boa legibilidade, compatibilidade com leitores de tela, navegação por teclado, descrição de imagens e acessibilidade em vídeos.
As soluções foram definidas com o auxílio de uma consultoria especializada em acessibilidade digital.
O cuidado ganha relevância diante do cenário brasileiro: pesquisa divulgada pela BigDataCorp em parceria com o Movimento Web para Todos indica que apenas 2,9% dos sites do país são realmente acessíveis.
Para a diretora da Esalq, Thais Maria Ferreira de Souza Vieira, a iniciativa representa o compromisso da Escola com a preservação e a democratização do conhecimento.
“Ao reunir documentos e registros sobre a criação da Escola e sua trajetória até 1934, o projeto amplia o acesso a fontes históricas fundamentais para pesquisadores, estudantes e para toda a sociedade. Sob uma curadoria cuidadosa, resgata documentos, personagens e acontecimentos que, embora relevantes para a construção da identidade da Esalq, ainda haviam recebido pouca visibilidade”.
“Ao tornar esse patrimônio acessível, o projeto fortalece a pesquisa histórica e permite compreender, com maior profundidade, as origens e os valores que continuam orientando a atuação da Esalq”, acrescenta.
O Portal Luiz de Queiroz conta com patrocínio da Usina São Martinho, Caterpillar, John Deere, Rabobank e Itaú BBA, além do apoio da Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq) e da Associação dos Ex-Alunos da Esalq (Adealq). A iniciativa também recebeu patrocínio coletivo de egressos e de repúblicas estudantis que adquiriram réplicas em bronze do Edifício Central da Escola.








