Sylvia Wachsner, dir. da SNA, em palestra no Blockchain.Rio 2026 – Foto: Eduardo Torres
O avanço do blockchain e de outras tecnologias digitais abre novas possibilidades para o agronegócio, desde a rastreabilidade da produção até o acesso a financiamento e a criação de novos ativos. O tema esteve no centro da participação do SNASH (SNA Startup Hub) no Blockchain.RIO 2026, realizado nos dias 12 e 13 de agosto, no Rio de Janeiro. O evento reuniu especialistas, empresas, investidores e instituições para discutir aplicações do blockchain, da Web3 e dos ativos digitais em diferentes setores da economia.
Representando o SNASH, a diretora da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA) e coordenadora do Centro de Inteligência em Orgânicos (CI Orgânicos), Sylvia Wachsner, apresentou no dia 13 de agosto a palestra “Blockchain no Agro: Da Confiança Digital à Economia Tokenizada”. A participação marcou o terceiro ano consecutivo do SNASH no evento e reforçou a presença do agronegócio em um ambiente predominantemente tecnológico. Segundo Sylvia, a iniciativa também tem contribuído para aproximar o público de tecnologia das demandas e oportunidades do setor agropecuário.
Ativos econômicos
Em sua apresentação, Sylvia destacou uma mudança na forma de compreender o agronegócio que, além de produzir alimentos, fibras e energia, o setor pode ser visto como uma plataforma geradora de múltiplos ativos econômicos. Nesse contexto, entram também ativos digitais relacionados a carbono, biodiversidade, conservação ambiental, regeneração do solo e dados.

Potencial de aplicação do blockchain
A dimensão do próprio agronegócio amplia o potencial de aplicação do blockchain. O setor envolve bilhões de transações, milhões de produtores, cadeias produtivas fragmentadas, ativos físicos, comércio internacional, certificações e necessidade constante de capital. Para Sylvia, essa complexidade cria espaço para o blockchain atuar como uma infraestrutura de confiança entre agentes que nem sempre mantêm relações diretas ou compartilham os mesmos sistemas.
A tecnologia pode contribuir para registrar e rastrear informações como origem, qualidade, certificações, pegada ambiental, contratos, financiamento, transporte e comprador de uma commodity. Assim, uma tonelada de soja, por exemplo, deixa de ser vista apenas como um produto físico e passa a carregar um conjunto de informações que pode acompanhar sua trajetória pela cadeia.
IA e blockchain
Outro ponto abordado foi a integração entre inteligência artificial (IA) e blockchain. Enquanto a IA pode gerar inteligência a partir de dados, o blockchain acrescenta uma camada de confiança, registro e rastreabilidade às informações. “IA gera inteligência e blockchain garante confiança”, resumiu Sylvia durante sua fala. Para ela, as duas tecnologias representam uma combinação promissora para o agronegócio.
Tokenização amplia possibilidades
A tokenização também ganhou destaque na discussão. O conceito permite transformar ativos reais em representações digitais, criando novas possibilidades de registro, negociação e financiamento.
Durante a palestra, Sylvia lançou uma provocação, ao questionar se títulos financeiros podem ser tokenizados, por que não uma commodity agrícola? Embora a tokenização do agro ainda esteja em estágio inicial, a avaliação apresentada é de que o mercado possui potencial para criar novas formas de financiamento, ampliar o acesso a mercados privados e democratizar oportunidades de investimento.
Acesso a todos os produtores
Um dos exemplos citados foi a tokenização do mercado de mel orgânico produzido por pequenos produtores brasileiros para exportação à Europa. O caso demonstra que a tecnologia não precisa estar restrita a grandes commodities ou empresas e pode alcançar produtores de menor escala.
Startups da Rede SNASH
O SNASH também apresentou iniciativas de startups que já trabalham nessa fronteira tecnológica. Entre os exemplos estão as startups da Rede SNASH Premium JusToken, que utiliza blockchain e inteligência artificial para transformar commodities, energia e recursos naturais em ativos financeiros digitais, e a 4Rest, voltada à remuneração de proprietários de terras pela preservação de florestas e recuperação de áreas desmatadas, com geração de tokens ambientais vinculados a ativos florestais reais.
Ao levar o debate ao Blockchain.RIO, o SNASH reforçou a aproximação entre inovação tecnológica e agronegócio. A discussão mostrou que blockchain não se limita às criptomoedas e pode integrar produção, certificação, rastreabilidade, financiamento e comercialização, criando novas formas de geração de valor no campo.
Ao final da palestra, Sylvia projetou um possível cenário para 2035. “Quando uma saca de café deixar a propriedade rural, poderá viajar não apenas como produto físico, mas também como um ativo digital, carregando sua identidade, pegada de carbono, histórico produtivo e valor financeiro.”








