Em dados e mapas, a ferramenta traz informações abrangentes sobre produção, processamento, importação e exportação do cereal (Foto: Divulgação Embrapa)
A plataforma digital Trigo no Brasil, lançada pela Embrapa, retrata a cadeia produtiva do cereal em dados e mapas. Suas informações abrangem desde a produção no campo e a importação até o processamento nas indústrias e a exportação. O site traz ainda uma estimativa inédita da proporção de sistemas de produção irrigados ou de sequeiro na triticultura do Brasil Central, região para onde o cultivo tem se expandido nos últimos anos. Cenários possíveis para aumento da produção no País também estão disponíveis na ferramenta.
A solução tecnológica, com dados para apoiar políticas públicas e investimentos privados no crescimento das safras de trigo no Brasil, atende a uma demanda do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Em 2024, o País importou 7 milhões de toneladas do cereal — o único produto das grandes cadeias de grãos em que não é autossuficiente. Ao mesmo tempo, questões comerciais e logísticas colocaram o Brasil no mercado exportador de trigo. No período 2020-2025, o volume exportado cresceu 11,5 vezes, com destino a mercados da Ásia, África e Oriente Médio. A produção nacional vem apresentando expressivo crescimento nos últimos anos, o que reduz a dependência do mercado externo.
Esses são alguns dos números disponíveis na plataforma Trigo no Brasil, resultado do trabalho conjunto da Embrapa Territorial (SP) e da Embrapa Trigo (RS), com apoio de equipe da sede da Embrapa e da Embrapa Solos (RJ). A plataforma integra um projeto mais amplo, com recursos do Mapa, para incentivo ao cultivo do cereal em ambiente tropical e o alcance da autossuficiência nacional na produção do grão.

Plataforma Trigo no Brasil. Imagem: Embrapa
Além de produção, importação e exportação, a ferramenta apresenta informações sobre processamento, empregos, histórico de custos e preços e infraestrutura do setor. Os dados, alguns com série histórica desde o início dos anos 2000, são detalhados por microrregiões, tanto nas áreas tradicionais do Sul quanto nas regiões de expansão do Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste.
“Durante a construção da plataforma, buscamos identificar a localização dos principais agentes com a intenção de compreender a dinâmica da cadeia, com base em informações sobre a distribuição geográfica, o número desses atores no Brasil e a evolução histórica dos indicadores”, explica o analista da Embrapa Trigo, Álvaro Augusto Dossa.
A ferramenta estruturada nos conceitos de Inteligência Territorial Estratégica (ITE) oferece dados integrados para análises que direcionem ações voltadas à autossuficiência em trigo no Brasil. Dossa lembra que a expansão da triticultura no Cerrado é peça-chave para o País conquistar essa autossuficiência, e conectar dados sobre essa área com os do restante do País é imprescindível quando se pensa na cadeia produtiva e no fornecimento de matéria-prima para a indústria. “Não podemos apenas considerar o Cerrado porque as decisões não são isoladas. Por exemplo, temos que observar também o consumo expressivo no Nordeste do Brasil, Região na qual a população é grande”, avalia.
Oferta de sementes para cada uso
Uma das vantagens da plataforma é reunir dados sobre o trigo antes dispersos em diferentes órgãos. Mais do que isso, a ferramenta traz novas camadas de informação a partir da análise de profissionais da Embrapa com vivência do setor e experiência no tratamento e na disponibilização de dados.
É o caso do painel sobre produção de sementes. A base dos dados está disponível no site do Mapa, em uma planilha na qual se pode conhecer município, área de cultivo, categoria, espécie e cultivar adotada por cada produtor. A partir dessas duas últimas informações, a equipe da Embrapa fez novas classificações para detalhar a oferta de sementes. Estimou a disponibilidade para os diferentes usos de trigo e a predominância entre cultivares novas ou antigas. “Foi preciso um esforço de curadoria e interpretação por quem conhece o setor para chegar a esse e outros painéis de informação”, ressalta o analista, da Embrapa Territorial, Hilton Ferraz da Silveira.
A oferta de sementes é um dos exemplos de que a ferramenta não se limita a organizar dados, mas revela um esforço de prospecção, de análise e de extração de informações que estavam em relatórios e outros documentos de diferentes entidades. Os dados sobre produção, consumo e preços de derivados de trigo foram extraídos manualmente dos anuários da Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados (Abimapi) e organizados para a consolidação de uma série histórica. Assim, quem acessa a plataforma pode visualizar rapidamente a evolução da produção e das vendas de biscoitos, massas alimentícias, pães e bolos industrializados e da farinha para o varejo, de 2017 a 2024.
Elos da cadeia produtiva

Elos da Cadeia Produtiva Trigo no Brasil. Arte: Embrapa
A plataforma apresenta informações que permitem dimensionar e entender como a cadeia produtiva do trigo se organiza no território. O mapa com a distribuição dos elos na cadeia no País mostra que eles se encontram principalmente no Sul, mas também estão presentes na região Central e no Nordeste. O detalhamento dos dados mostra que, nos estados nordestinos, há presença de moinhos e de produtores de sementes. Os produtores estão no Oeste da Bahia, área de cerrado onde há o plantio do grão. Os moinhos, por sua vez, estão no litoral. Silveira explica que eles processam grande parte do trigo importado que entra no País pelos portos da região.
A comparação dos locais de cooperativas e moinhos com as áreas de cultivo, em mapas, revela regiões em que essas estruturas ainda não estão tão presentes nos estados para onde a triticultura se expandiu mais recentemente. A plataforma também mostra em quais regiões há maior ou menor oferta de armazéns do tipo Granel Sólidos, que poderiam estocar trigo. “Contudo, essas estruturas hoje são utilizadas principalmente para estocagem de soja e milho, o que coloca mais uma camada de complexidade à cadeia”, diz Silveira. “Os moinhos e indústrias precisam de matéria-prima o ano todo. Sem possibilidade de estocar a produção nacional, é preciso recorrer à exportação e importação para balancear oferta e demanda”, complementa.
Dados sobre esse comércio internacional do trigo estão na plataforma. Além de volume e valor, mostram as microrregiões brasileiras que recebem ou enviam trigo e derivados para o exterior, assim como os países de origem e destino. Apresentam ainda os portos por onde passa todo esse comércio. Em 2024, o País exportou 2,9 milhões de toneladas de trigo; mais de um terço dessas exportações saiu do Porto de Rio Grande (RS), e o Vietnã foi o principal destino. As vendas ao exterior concentram-se no trigo em grãos, mas também há registro de embarque de farinha, massas e biscoitos. As importações, em contrapartida, somaram 7 milhões de toneladas e chegaram principalmente da Argentina; a maior parte dos desembarques ocorreu no Porto de Santos.
É possível dimensionar a indústria e o comércio de derivados de trigo com dados disponíveis na ferramenta. A plataforma apresenta o número de estabelecimentos, bem como os empregos a eles vinculados, em três categorias: moagem, fabricação (massas, pães, biscoitos, etc) e comércio (varejo e atacado de cereais e farinhas, além de padarias). Mapas mostram o número de estabelecimentos e de empregos por 100 mil habitantes em cada microrregião do País, para análises que considerem as diferenças de densidade populacional.
Na seção dedicada à Economia da Produção há dados sobre o histórico das despesas de custeio, valor e preço pago pela produção das lavouras de trigo de 2002 a 2024. Informações sobre seguros agrícolas também podem ser analisadas. “A plataforma preenche uma lacuna de dados organizados e de estimativas para tanto dimensionar a cadeia do trigo de forma integrada como analisar sua capacidade de expansão e os gargalos a superar”, avalia Silveira. Ele acredita que as informações, algumas das quais apresentadas pela primeira vez, podem abrir caminho para ampliar e melhorar a disponibilidade de dados sobre o setor.
Análise inédita: a irrigação e o trigo no Cerrado

Trigo irrigado no Cerrado. Foto: Joseani Antunes
A plataforma apresenta os resultados de uma análise inédita que estima quanto da área cultivada na região de expansão é irrigada. A equipe da Embrapa desenvolveu um método baseado em dados como rendimento da cultura e presença de áreas irrigadas por pivôs centrais para estimar em quais municípios os produtores adotam exclusiva ou predominantemente o sistema irrigado e em quais adotam o sequeiro. Isso permite estimativas anuais, diferente do Censo Agropecuário, realizado, em média, a cada 10 anos.
O painel sobre o tema disponível na plataforma aponta que, no território estudado, cerca de 314,8 mil toneladas de trigo foram produzidas em sistema de produção irrigado, gerando um valor de produção de R$ 67,1 milhões. Esses números correspondem à média anual para o período de 2019 a 2022. Pelos cálculos, a produção em sistema de sequeiro ainda predomina, com total próximo a 560 mil toneladas anuais no período analisado. “Conhecer pelo menos uma estimativa das áreas de trigo de sequeiro e irrigado pode ajudar nas aferições de uso das tecnologias de produção e melhorar o planejamento para a expansão da cultura”, avalia Álvaro Dossa.
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Como aumentar a produção de trigo no Brasil?
A plataforma tem uma seção dedicada ao tema do aumento da produção de trigo no campo. A primeira estratégia explorada é elevar a produção nas áreas já cultivadas com o cereal. Por isso, a ferramenta apresenta o primeiro painel interativo com a inferência de lacunas de rendimento nos estados do Sul – a área tradicional de cultivo. As lacunas revelam a diferença entre o rendimento obtido e o que poderia ser alcançado com a adoção de tecnologias e manejos otimizados. Esses valores foram estimados microrregião por microrregião. Em cada uma delas, a equipe de pesquisa identificou o maior rendimento de trigo obtido por um dos municípios integrantes. Então, calculou a diferença entre esse valor e o rendimento médio da microrregião.

Colheita de trigo no Rio Grande do Sul. Foto: Luiz Magnante
Na microrregião de Passo Fundo (RS), por exemplo, a avaliação é de que, entre 2020 e 2022, poderiam ter sido produzidos 837 quilos de trigo a mais por ano, em cada hectare cultivado. Considerando a área média colhida nesse período, a produção adicional alcançaria pouco mais de 60 mil toneladas anuais. Quando se faz esse cálculo para todas as microrregiões da Região Sul, chega-se a 1,8 milhão de toneladas adicionais. “As estimativas das lacunas nas diferentes microrregiões produtoras de trigo na Região Sul permitem identificar onde são maiores e onde ações de intercâmbio e transferência para melhorar o rendimento da cultura teriam maior impacto”, explica Dossa.
A plataforma também apresenta possibilidades de expansão das áreas de plantio de trigo, nas microrregiões em que há recomendação de cultivo no Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) da cultura. Na região tradicional, projetaram-se cenários com parte das terras destinadas à produção de soja e milho de primeira safra convertidas em lavouras de trigo. Na região de expansão, considerou-se a área de milho de segunda safra. Três cenários foram projetados e apontam potencial de cultivo adicional de 4 a 5 milhões de hectares, tendo como comparação o triênio 2020-2022 e as áreas de soja e milho.








