Gestão, eficiência e planejamento da atividade serão decisivos para a pecuária em 2026, avalia Embrapa
Apesar da valorização da arroba do boi gordo, fatores como alta no preço da reposição, juros elevados, volatilidade internacional e possível impacto sobre fertilizantes e exportações exigirão planejamento e tomada de decisão baseada em indicadores técnicos e econômicos.
A avaliação é de Guilherme Cunha Malafaia, pesquisador da Embrapa Gado de Corte e coordenador do Centro de Inteligência da Carne Bovina (CiCarne).
Segundo ele, este ano os sistemas mais eficientes e estruturados serão premiados. “Em 2026, não basta produzir bem. Será necessário administrar capital, risco e eficiência produtiva com muito mais rigor”, afirma.
Malafaia ressalta que um dos principais pontos de atenção é o aumento expressivo nos preços do bezerro e do gado magro, reflexo da entrada da pecuária em um novo ciclo de retenção de fêmeas para recomposição do rebanho nacional.
Com isso, na visão do especialista, a relação de troca entre boi gordo e reposição atingiu um dos maiores níveis da série histórica. Ele comenta que atualmente é necessário cerca de nove arrobas de boi gordo para a compra de um bezerro, tornando a aquisição de animais um fator determinante.
O pesquisador destaca que “a decisão de compra da reposição precisa ser estratégica. Comprar mal em 2026 pode comprometer toda a operação, mesmo em um cenário de arroba valorizada”.

O produtor precisará atuar cada vez mais como gestor financeiro da atividade Foto – Juliana Sussai -EMBRAPA-PECUARIA-SUDESTE
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Gestão de risco ganha importância
Diante do ambiente macroeconômico atual, o qual combina juros elevados, crédito mais seletivo e aumento do custo de capital, se amplia a necessidade de gestão financeira nas propriedades.
Entre as estratégias recomendadas estão o uso de instrumentos de proteção de preços, como operações de hedge e contratos a termo, além do planejamento financeiro estruturado e da avaliação criteriosa do retorno sobre o capital investido. Malafaia é enfático: “o produtor precisará atuar cada vez mais como gestor financeiro da atividade”.
Sustentabilidade e rastreabilidade
Outro ponto relevante é o avanço das exigências socioambientais nos mercados internacionais. Sustentabilidade e rastreabilidade deixaram de ser diferenciais e passaram a representar condições de acesso a mercados e linhas de financiamento.
O pesquisador cita como exemplos as exigências relacionadas à regulamentação ambiental europeia e o interesse de mercados estratégicos, como Japão e Coreia do Sul, em sistemas com rastreabilidade individual, monitoramento de fornecedores e mensuração de pegada de carbono. “Nesse contexto, a pecuária tropical brasileira com sistemas baseados em pastagens e tecnologias de baixo carbono, desenvolvidas pela Embrapa, se sobressai”, salienta Malafaia.
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Eficiência produtiva e resiliência climática
A intensificação sustentável da produção também foi apontada como estratégia central para reduzir custos e aumentar a resiliência dos sistemas pecuários frente às mudanças climáticas.
Entre as práticas destacadas estão recuperação de pastagens degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), confinamento estratégico, melhoramento genético e redução da idade de abate.
O especialista em cadeias produtivas avalia que “o sistema que combina pastagem recuperada, integração, suplementação estratégica e gestão eficiente terá mais condições de permanecer competitivo”.

Sustentabilidade e rastreabilidade deixaram de ser diferenciais e passaram a representar condições de acesso a mercados e linhas de financiamento Foto Gabriel Rezende Faria/Embrapa Agrosilvipastoril/Divulgação
Dependência do mercado chinês
Malafaia comenta os riscos associados à elevada dependência das exportações brasileiras de carne bovina em relação à China, destino de mais da metade do volume exportado pelo Brasil.
De acordo com ele, eventuais restrições comerciais reforçam a importância da diversificação de mercados e da abertura de novos destinos para a carne bovina.
Entre os mercados considerados estratégicos estão Japão, Coreia do Sul e União Europeia, especialmente para produtos com maior valor agregado e atributos ligados à sustentabilidade. “O ambiente atual premia gestão baseada em evidências, disciplina financeira, rastreabilidade e intensificação sustentável. Quem operar apenas no improviso poderá enfrentar dificuldades”, pontua o pesquisador da estatal.
Fonte: Embrapa Gado de Corte
Foto abertura: Cenário de valorização da arroba convive com alta da reposição, juros elevados e incertezas geopolíticas Foto Juliana Sussai/ Embrapa Pecuária Sudeste/Divulgação








