A BRS Áurea combina adaptação às condições climáticas da região sul do Brasil, potencial produtivo, qualidade dos frutos e capacidade de conservação pós-colheita
Combinando características de interesse para produtores e consumidores, uma nova alternativa genética para a produção de peras começa a chegar ao setor produtivo.
A BRS Áurea, Desenvolvida pela Embrapa Uva e Vinho (RS), é adaptada às condições climáticas da região Sul do Brasil e tem potencial produtivo, qualidade dos frutos e capacidade de conservação pós-colheita. É a primeira cultivar de pera desenvolvida pelo programa de melhoramento genético da unidade gaúcha.

Nas condições avaliadas, a BRS Áurea apresenta potencial produtivo estimado entre 25 e 30 toneladas por hectare Foto Fábio Ribeiro Pereira/Embrapa/Divulgação
O engenheiro agrônomo João Caetano Fioravanço, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho e um dos responsáveis pelo desenvolvimento da cultivar, explica que a BRS Áurea a primeira cultivar de pera desenvolvida pelo programa de melhoramento genético da unidade gaúcha.
Ele conta que, nos locais avaliados no Sul do Brasil, a cultivar apresentou elevado potencial produtivo, de 25 a 30 toneladas por hectare, e colheita precoce, concentrada em janeiro. “Ela também se destaca pela resistência à entomosporiose, uma das doenças mais graves e economicamente destrutivas dessa cultura, e pela menor suscetibilidade à mosca-das-frutas quando comparada à pera Rocha, variedade portuguesa comercializada no Brasil”, ressalta o pesquisador.

A Embrapa recomenda cuidados no manuseio, na classificação, na embalagem e no transporte Foto Fábio Ribeiro Pereira/Embrapa/Divulgação
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Características de interesse para o consumidor
Entre as características de interesse para o consumidor estão os frutos médios a grandes e uniformes, com massa entre 145 e 190 gramas. Na maturação, a casca adquire coloração amarelo-alaranjada a dourada, característica que inspirou o nome Áurea. A polpa é branca, crocante, suculenta e de sabor equilibrado.
“Os frutos da BRS Áurea são uniformes e simétricos, apresentam massa entre 145 e 190 gramas e, quando maduros, adquirem coloração amarelo-alaranjada ou dourada”, detalha o agrônomo.
O pesquisador ressalta que a nova cultivar é resultado de um trabalho de longo prazo voltado à obtenção de uma pera adaptada às condições brasileiras. “A BRS Áurea reúne boa adaptação às condições do Sul do Brasil, potencial produtivo e frutos de excelente qualidade. Esses atributos são importantes para estimular a produção brasileira de peras”, avalia.

A combinação entre época de colheita, potencial produtivo e qualidade dos frutos amplia as possibilidades de uso da cultivar em sistemas comerciais Foto Fábio Ribeiro Pereira/Embrapa/Divulgação
Segundo sua informação, a BRS Áurea é resultado do cruzamento entre a pera asiática Hosui e a europeia Abate Fetel, realizado em 2006, em Vacaria (RS). Após cerca de 20 anos de seleção, avaliação agronômica e validação em diferentes condições de cultivo, a cultivar foi registrada no Registro Nacional de Cultivares (RNC) do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), em maio de 2025.
“A cultivar foi testada e validada no Rio Grande do Sul, nos municípios de Vacaria, Bento Gonçalves e Caxias do Sul, e é recomendada para regiões produtoras de pera que apresentem entre 400 e 600 horas de frio abaixo de 7,2 °C durante o inverno”, complementa o especialista.
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Fioravanço destaca ainda que, uma das características da BRS Áurea é a precocidade de maturação. “Nas condições avaliadas, a colheita ocorre predominantemente entre 5 e 20 de janeiro, com ciclo aproximado de 106 dias entre a plena floração e a maturação. A época de colheita permite antecipar a oferta da fruta e pode contribuir para ampliar a janela de comercialização de peras produzidas no Brasil”, informa o pesquisador.
Segundo ele, em sistema de alta densidade, com plantas enxertadas sobre o marmeleiro Adams e espaçamento de quatro metros entre filas e um metro entre plantas, a cultivar apresenta produtividade estimada entre 25 e 30 toneladas por hectare.
“A combinação entre época de colheita, potencial produtivo e qualidade dos frutos amplia as possibilidades de uso da cultivar em sistemas comerciais. Para uma cadeia produtiva que ainda depende de importações para atender parte significativa do consumo nacional, a disponibilidade de materiais adaptados às condições brasileiras é um dos fatores importantes para o desenvolvimento da cultura”, enfatiza o pesquisador da Embrapa.
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Qualidade na pós-colheita
Lucimara Antoniolli, engenheira agrônoma e pesquisadora da área de pós-colheita da Embrapa Uva e Vinho, completa que além do desempenho no pomar, a BRS Áurea mostrou resultados promissores nas avaliações de pós-colheita.
Segundo sua informação, em condições experimentais, as peras permaneceram com boa qualidade para consumo após 90 dias de armazenamento refrigerado a 0,5 °C, seguidos de 7 dias a 20 °C. “Nessas circunstâncias, a firmeza da polpa diminuiu e os frutos adquiriram coloração mais alaranjada, mantendo características consideradas adequadas para consumo”, reforça.
Ela destaca ainda que as características de conservação complementam os atributos sensoriais da cultivar. “A BRS Áurea apresenta propriedades muito interessantes para o mercado de frutas frescas pelo bom potencial de conservação pós-colheita, aspecto importante para ampliar o período de comercialização e facilitar a distribuição da fruta”, enfatiza a pesquisadora.

A polpa da BRS Áurea é branca, crocante, suculenta e de sabor equilibrado Foto João Fioravanço/Embrapa/Divulgação
A agrônoma detalha que ensaios experimentais também indicaram potencial para períodos mais prolongados de armazenamento. “Em atmosfera controlada, frutos mantidos por até 165 dias a 0,5 °C apresentaram maior firmeza após a retirada da câmara. Por outro lado, os frutos são delicados e podem sofrer danos por impacto durante a colheita e o transporte”, afirma a especialista.
Por essa razão, a Embrapa recomenda cuidados no manuseio, na classificação, na embalagem e no transporte.
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Menor suscetibilidade a doenças e a mosca-das-frutas
O pesquisador Embrapa Uva e Vinho e engenheiro agrônomo Marcos Botton, conta que a BRS Áurea também apresentou características favoráveis em relação a importantes problemas fitossanitários da cultura. “Nas condições em que foi avaliada, demonstrou resistência à entomosporiose e à sarna-da-pereira, doença fúngica que afeta folhas e frutos, além de menor suscetibilidade à mosca-das-frutas, em comparação à cultivar Rocha”, revela.
De acordo com informação do pesquisador, em áreas experimentais onde as duas cultivares foram plantadas e submetidas à infestação natural, foram registrados 70% de frutos infestados na pera Rocha e 10% na BRS Áurea.
Em outro experimento, no qual os frutos foram expostos diretamente aos insetos em condições sem chance de escolha, a infestação também foi menor na BRS Áurea: 40%, contra 100% na Rocha. “A menor suscetibilidade é uma característica de interesse para o sistema de produção, sublinha o especialista.
Ele pontua que a menor infestação observada na BRS Áurea é uma característica bastante interessante, principalmente considerando a importância da mosca-das-frutas para a fruticultura do Sul do Brasil. “Isso não significa que o produtor possa deixar de monitorar e manejar a praga, mas indica uma característica favorável da cultivar que pode contribuir para o sistema de produção”, reforça.
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Alternativa para ampliar a produção brasileira
A produção brasileira de peras ainda é insuficiente para atender à demanda interna e a disponibilidade de cultivares adaptadas às diferentes regiões produtoras permanece como um dos desafios da cultura. A irregularidade da produção e a qualidade dos frutos também são apontadas como fatores que limitam a competitividade da produção nacional.
Nesse contexto, a BRS Áurea representa uma nova alternativa genética desenvolvida e validada nas condições brasileiras. A expectativa é que a cultivar contribua para diversificar os pomares e ampliar as possibilidades de produção de pera no Sul do País.
Fernando Soldatelli, produtor que participou da validação da cultivar avalia que “de todas as diferentes cultivares de pera que já plantei, acredito que a BRS Áurea é a que apresenta maior potencial para a produção competitiva”.
Segundo o agricultor, a nova pera reúne características importantes para o mercado. “Além de produzir bem, é bonita, suculenta e gostosa. Tudo o que precisamos”, comemora.

Os frutos da BRS Áurea são uniformes e simétricos e, quando maduros, adquirem coloração amarelo-alaranjada ou dourada Foto João Fioravanço/Embrapa/Divulgação
Disponibilidade de mudas
As mudas da ‘BRS Áurea’ podem ser reservadas no Viveiro São Francisco, licenciado pela Embrapa. Outros viveiristas interessados em obter licenciamento para comercializar a cultivar podem solicitar material propagativo à Embrapa Uva e Vinho pelo e-mail cnpuv.spat@embrapa.br.
A reserva pode ser realizada ao longo do ano, enquanto a entrega ocorre na segunda quinzena de julho do ano subsequente, de acordo com a disponibilidade de material.
Quase 20 anos de pesquisa
O desenvolvimento da BRS Áurea teve início em 2006, com o cruzamento entre as peras Hosui e Abate Fetel, em Vacaria (RS). A partir de 2015, o material selecionado passou por novas etapas de avaliação. No ano seguinte, foi implantado em áreas experimentais da Embrapa Uva e Vinho, em Bento Gonçalves e Vacaria, para análises de fenologia, produção, qualidade dos frutos e conservação pós-colheita.
Em 2021, foram estabelecidas duas unidades de validação em parceria com produtores, em Vacaria e Caxias do Sul. As plantas foram conduzidas sobre o marmeleiro Adams, no espaçamento de 4 m entre filas e 1 m entre plantas.








