Empresa de pesquisa leva um pacote que mistura ferramentas digitais, cultivares com função no manejo de pragas e soluções que já nascem conectadas à agenda climática (Imagem: Embrapa/Divulgação)
Quem passar pelo estande da Embrapa na Agrishow 2026 vai encontrar um retrato bastante claro de para onde o agro brasileiro está caminhando para uma atividade cada vez mais baseada em dados, menos insumos químicos e uma crescente demanda por produtividade com menor pegada ambiental.
Na 31ª edição da feira, entre 27 de abril e 1º de maio, a empresa de pesquisa leva um pacote que mistura ferramentas digitais, cultivares com função estratégica no manejo de pragas e soluções que já nascem conectadas à agenda climática e de mercado.
Um dos exemplos mais diretos dessa virada é a Plataforma Trigo no Brasil. Desenvolvida pela Embrapa Territorial e lançada pelo Ministério da Agricultura em março, a ferramenta organiza dados da cadeia do cereal em 12 painéis interativos.
Na prática, funciona como um “radar” para o produtor e para o mercado, permitindo enxergar onde o trigo pode avançar, especialmente no Brasil Central, e como reduzir gargalos de produtividade.
O diferencial está na combinação de mapas, análises integradas e projeções. A plataforma traz, por exemplo, uma estimativa inédita sobre a proporção de áreas irrigadas e de sequeiro — informação crítica para decisões de investimento —, além de cenários de expansão baseados tanto na abertura de novas áreas quanto no ganho de eficiência nas já cultivadas.
Agricultura que sequestra carbono
Se o dado virou insumo, o carbono começa a ganhar status de ativo.
Dois estudos apresentados na feira ajudam a dimensionar esse movimento.
O projeto CarbCafé Rondônia mostra que a produção de café nas Matas de Rondônia não só compensa suas emissões como gera saldo positivo.
Segundo a pesquisa, o sequestro é 2,3 vezes superior às emissões, com um saldo médio de cerca de quatro toneladas por hectare ao ano. Isso abre espaço para monetização via créditos de carbono e reforça o papel da lavoura como parte da solução climática.
Na citricultura, o diagnóstico também chama atenção pela escala.
O CarbCitrus analisou mais de 600 mil hectares em São Paulo e no Triângulo/Sudoeste de Minas Gerais e concluiu que cada hectare remove, em média, duas toneladas de carbono por ano.
No total, são cerca de 36 milhões de toneladas estocadas. De quebra, o estudo identificou mais de 300 espécies de fauna nas áreas avaliadas — um indicador de que produtividade e biodiversidade podem coexistir quando o manejo é bem conduzido.
A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) também aparece como uma espécie de “infraestrutura biológica” da nova agricultura. Ao combinar diferentes atividades na mesma área, o sistema recupera pastagens, aumenta a produtividade e amplia o sequestro de carbono — um tripé que resume boa parte das demandas atuais do setor.
Nova cultivar e biotecnologia
Na lavoura de feijão, poucos problemas são tão persistentes quanto os nematoides. A resposta apresentada pela Embrapa vem em forma de de uma nova clultivar, o feijão Guandu BRS Guatã.
A leguminosa atua no controle natural de cinco espécies desses parasitas, responsáveis por prejuízos estimados em R$ 35 bilhões por ano.
Ao reduzir a dependência de defensivos químicos, o Guatã entra como peça importante em sistemas mais sustentáveis. A planta também fixa nitrogênio no solo, ajudando na recuperação de áreas degradadas, e ainda serve como forragem.
Para a pecuária, especialmente em regiões sujeitas à seca, isso pode ser decisivo. O material chega a produzir até três toneladas de massa seca por hectare em condições de sequeiro — desempenho comparável ao irrigado — oferecendo uma alternativa de baixo custo para suplementação de bovinos.
Na biotecnologia, o destaque é o evento transgênico BTMAX, desenvolvido com a Helix. A tecnologia utiliza um gene da bactéria Bacillus thuringiensis identificado na biodiversidade brasileira e é eficaz no controle da lagarta-do-cartucho e da broca-da-cana.
Ela é capaz de reduzir de forma significativa o uso de inseticidas químicos.
Já na interface entre biotecnologia e adaptação climática, o bioativo Auras aparece como uma resposta direta aos extremos de temperatura e à escassez hídrica.
Desenvolvido a partir de compostos da Caatinga, o produto atua na redução dos efeitos de estresses hídrico e térmico nas plantas, melhorando o uso da água e preservando o potencial produtivo das lavouras.
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Inteligência artificial ajuda a potencializar lucros na agricultura
Digitalização no campo
Enquanto isso, a digitalização do campo avança em paralelo. O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), já conhecido do produtor, ganha musculatura ao ser integrado ao aplicativo Plantio Certo.
A lógica é simples. Com base em município, tipo de solo e cultura, o sistema entrega recomendações personalizadas de plantio com diferentes níveis de risco.
Em um cenário de clima mais imprevisível, esse tipo de ferramenta deixa de ser acessório e passa a ser central na gestão da safra.
Já para quem desenvolve tecnologia, a aposta é na abertura de dados.
A plataforma AgroAPI disponibiliza modelos e informações da Embrapa via APIs, permitindo que empresas e startups criem soluções próprias sem começar do zero.
O impacto está no custo e na velocidade. Ao integrar sistemas fica mais simples, o que tende a acelerar a oferta de ferramentas digitais no campo.
A unidade Embrapii ITECH-Agro, ligada à Embrapa Instrumentação, também aposta na integração de nanotecnologia, fotônica, Internet das Coisas e inteligência artificial.
O objetivo é levar a agricultura de precisão a um novo patamar, conectando demandas do produtor a soluções cada vez mais customizadas.








