Principal desafio do setor está na articulação entre os diferentes elos da cadeia, fator que impacta diretamente a geração de valor (Foto:Eduardo Seidl/Palácio Piratini)
A vitivinicultura brasileira entrou em uma nova fase, marcada pela diversidade de territórios, modelos produtivos e estratégias de mercado. Essa é uma das principais conclusões do estudo Brasil Vitivinícola: Panorama Estratégico e Mapeamento da Cadeia de Valor da Vitivinicultura Brasileira, apresentado na última edição da Wine South America, em Bento Gonçalves.
O levantamento aponta que a competitividade do setor depende cada vez menos de uma lógica linear de produção e mais da capacidade de integrar produção, indústria, território, mercado e consumo.
Segundo os pesquisadores, o principal desafio atual está justamente na articulação entre os diferentes elos da cadeia, fator que impacta diretamente a geração de valor.
“O futuro do setor dependerá menos de escala isolada e mais da capacidade de integrar território, mercado e diferenciação”, resume o Coordenador do estudo, o professor e consultor em marketing estratégico Paulo Henrique Leme.
A pesquisa foi desenvolvida ao longo de cerca de 15 meses, entre 2024 e 2026, pela Planorural, no âmbito de um convênio firmado entre o Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul e o Sebrae Nacional.
O trabalho reuniu mais de 40 fontes institucionais e setoriais, 14 relatórios regionais e temáticos, além de mais de 150 horas de campo, entrevistas, visitas técnicas e análises territoriais em mais de dez regiões vitivinícolas brasileiras.
Leme afirma que a principal mudança está na forma de interpretar o setor.
“A vitivinicultura brasileira entrou em uma nova fase. O país já não pode ser entendido apenas a partir de uma cadeia única ou de uma região produtora dominante”.
“O estudo mostra um setor diverso, com territórios, produtos e modelos de negócio muito distintos. Essa diversidade é uma vantagem competitiva, mas precisa ser organizada. O desafio agora é coordenar melhor produção, indústria, mercado e território para transformar essa riqueza em valor, renda e desenvolvimento regional”, acrescenta.
O estudo mostra que a produção de uvas, vinhos e derivados está distribuída em diferentes regiões do país, cada uma operando com estruturas e estratégias próprias.
Para os pesquisadores, essa diversidade amplia o potencial competitivo da vitivinicultura brasileira, mas também exige maior coordenação entre produtores, indústria, distribuição e comercialização.
Entre os principais gargalos identificados estão as dificuldades de integração entre os diferentes elos da cadeia, a assimetria de informações e os diferentes níveis de maturidade institucional entre os territórios produtores.


Estudo ilustra a diversidade do setor no Brasil. Imagem: Reprodução
Valor agregado e diferenciação
Outro ponto destacado pelo levantamento é a concentração de valor nos segmentos mais próximos da transformação industrial, da construção de marca e da relação direta com o consumidor.
Segundo o estudo, produtores que atuam apenas na etapa agrícola tendem a capturar menor valor econômico, enquanto regiões e empresas que investem em transformação local, marcas próprias, indicações geográficas, enoturismo e venda direta conseguem ampliar significativamente sua geração de receita.
Os dados consolidados ajudam a dimensionar o tamanho da cadeia vitivinícola brasileira.
De acordo com o estudo, com base em informações da Embrapa e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a produção nacional de uvas destinadas ao consumo in natura e à industrialização ocupa cerca de 84,4 mil hectares, alcança aproximadamente 1,82 milhão de toneladas por ano e movimenta cerca de R$ 8,3 bilhões em valor da produção agrícola, distribuídos em 1.215 municípios.
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O levantamento também evidencia diferenças estruturais entre as regiões produtoras.
O Nordeste responde por 47,73% da produção nacional de uvas, com predominância da produção voltada ao consumo in natura, mas concentra apenas 8,66% dos registros formais de estabelecimentos no sistema SIPEAGRO – Vinhos e Bebidas.
Já a região Sul reúne 42,05% da produção nacional, com predominância da uva destinada ao processamento de vinhos, sucos e derivados, além de concentrar 47,56% desses registros formais.
Para os pesquisadores, o contraste mostra que altos volumes de produção não significam, necessariamente, maior estruturação da cadeia ou maior capacidade de captura de valor.
O estudo também identifica diferentes modelos produtivos coexistindo no país, entre eles o modelo tradicional do Sul, o modelo tropical irrigado do Nordeste e o modelo de inverno em expansão no Sudeste e no Centro-Oeste.
Nesse cenário, o Rio Grande do Sul aparece como o território com maior nível de maturidade da cadeia vitivinícola nacional, reunindo tradição histórica, forte articulação institucional e presença consolidada de indicações geográficas reconhecidas.
Presidente do Consevitis-RS, Luciano Rebellatto afirma que o estudo contribui para orientar decisões estratégicas do setor.
“O estudo ajuda o setor a entender onde estão seus principais desafios e também onde estão suas maiores oportunidades de geração de valor. Para o Consevitis-RS, esse tipo de inteligência é essencial para apoiar o desenvolvimento sustentável e competitivo da vitivinicultura brasileira”, destaca Rebellatto.
Já o diretor técnico do Sebrae Nacional, Bruno Quick avalia que o levantamento vai além de um diagnóstico e cria bases para políticas de desenvolvimento territorial e fortalecimento dos pequenos negócios.
“Mais do que um diagnóstico, o estudo inaugura uma agenda estruturada de atuação para ampliar a competitividade do setor”, afirma Quick.

Brasil Vitivinícola: Panorama Estratégico e Mapeamento da Cadeia de Valor da Vitivinicultura Brasileira, apresentado na última edição da Wine South America, em Bento Gonçalves. Foto: Divulgação
COMO O SETOR SE ORGANIZA
– O Brasil vitivinícola é formado por um mosaico de territórios, produtos e modelos produtivos
– Regiões operam com diferentes escalas, estruturas e estratégias de mercado
– A diversidade amplia o potencial do setor, mas exige maior coordenação
PRINCIPAIS GARGALOS
– Desafio de integração entre os diferentes elos da cadeia
– Assimetria de informações e falta de integração de dados
– Diferenças de maturidade institucional entre territórios
– Dificuldade de transformar diversidade em posicionamento de mercado
– Infraestrutura desigual de transformação e agregação de valor
GERAÇÃO DE VALOR
– O valor está concentrado nos elos mais próximos da transformação, da marca e do consumidor
– Produtores focados apenas na uva capturam menos valor
– Diferenciação, enoturismo, marca própria e venda direta ampliam a geração de receita
– A mensagem central é clara: o valor não está apenas no produto, mas na forma como ele se conecta ao mercado e ao território.
MODELOS PRODUTIVOS
– Modelo tradicional (Sul): base histórica, cooperativas e organização territorial
– Modelo tropical irrigado (Nordeste): alta produtividade e inserção em mercados
– Modelo de inverno (Sudeste/Centro-Oeste): foco em qualidade e diferenciação
– Esses modelos não competem necessariamente entre si. Eles mostram que o Brasil tem várias vitiviniculturas convivendo no mesmo país.
DESTAQUE REGIONAL – RIO GRANDE DO SUL
– Maior maturidade institucional da cadeia no país
– Base histórica consolidada e identidade produtiva
– Presença de indicações geográficas reconhecidas
– Enoturismo estruturado e articulado ao território
– Sua principal vantagem não está apenas no volume produzido, mas na capacidade de articular produção, transformação, identidade territorial, governança e mercado.
Fonte: Consevitis-RS








