Além do calor, BRS Belatriz também apresenta resistência moderada à queima foliar bacteriana (Foto: Paula Rodrigues)
Desenvolvida por pesquisadores da Embrapa, a cebola híbrida BRS Belatriz é uma cultivar adaptada às condições de verão nas regiões Centro-Oeste e Sudeste do País, estação considerada de alto risco para a produção da hortaliça. O novo material foi elaborado para suportar temperaturas elevadas, chuvas intensas e doenças típicas dessa época do ano, oferecendo ao produtor maior segurança produtiva e potencial de rentabilidade.

Nova cultivar foi elaborada para suportar temperaturas elevadas, chuvas intensas e doenças típicas do verão. Foto: Paula Rodrigues
A cebola é tradicionalmente cultivada no inverno, em condições de temperaturas mais amenas. No verão, porém, as temperaturas elevadas e os dias mais longos aceleram o processo de formação do bulbo (bulbificação), o que reduz o tamanho comercial das cebolas e compromete a produtividade. Além disso, o ambiente quente e úmido favorece o desenvolvimento de doenças severas.
Além da adaptação ao calor, a nova cultivar apresenta resistência moderada à queima foliar bacteriana, atualmente uma das principais doenças da cultura da cebola em áreas de Cerrado. Em condições favoráveis de cultivo, a BRS Belatriz pode atingir produtividades próximas a 70 toneladas por hectare, com predominância de bulbos das classes 3 e 4, padrão mais valorizado pelos mercados atacadista e varejista.
“O produtor já plantava cebola nesse período, mas utilizava materiais desenvolvidos principalmente para cultivo de inverno, o que aumentava muito os riscos da produção”, explica Valter Oliveira, agrônomo e responsável pelo desenvolvimento da cultivar, que será lançada durante a AgroBrasília 2026, realizada entre 19 e 23 de maio, no Distrito Federal.
Adaptada ao calor e às doenças do verão
O desenvolvimento da BRS Belatriz foi motivado pela necessidade de disponibilizar aos produtores um material mais adaptado às condições climáticas do verão, especialmente para cultivo em regiões do Centro-Oeste e Sudeste.
Em áreas dessas regiões, a cultivar mantém desenvolvimento adequado mesmo em temperaturas superiores a 33 °C, consideradas críticas para a cultura da cebola. A resistência à bulbificação precoce sob altas temperaturas – um dos principais desafios do cultivo de verão, permite à BRS Belatriz formar bulbos com padrão comercial adequado mesmo em condições climáticas adversas.

A cultivar pertence ao grupo das cebolas amarelas de ciclo precoce voltadas ao consumo fresco, segmento que responde pela maior parte do consumo mundial. Foto: Paula Rodrigues
Outro diferencial é a resistência moderada a doenças favorecidas pelo período quente e chuvoso, como queima foliar bacteriana, antracnose e mancha-púrpura, além da tolerância ao nematoide-das-galhas e resistência moderada à raiz rosada. Em situações severas, essas enfermidades podem comprometer o desenvolvimento das plantas e inviabilizar a lavoura.
A cultivar pertence ao grupo das cebolas amarelas de ciclo precoce voltadas ao consumo fresco, segmento que responde pela maior parte do consumo mundial. Os bulbos apresentam formato arredondado e boa uniformidade de maturação, características importantes para a classificação comercial. O material também se destaca pela pungência mais elevada, característica responsável pelo sabor mais intenso da cebola e valorizada pelo consumidor brasileiro, que utiliza a hortaliça principalmente como tempero.
Pesquisa para adaptação às altas temperaturas
O programa de melhoramento de cebola híbrida da Embrapa começou a ser reestruturado no início dos anos 2000. Inicialmente, os esforços estavam concentrados em cultivares para cultivo de inverno, segmento historicamente dominado por empresas multinacionais.

O objetivo da pesquisa da Embrapa foi combinar características como produtividade, adaptação ao calor, resistência a doenças e qualidade comercial dos bulbos. Foto: Paula Rodrigues
Com o avanço dos trabalhos, os pesquisadores identificaram que o cultivo de verão representava uma oportunidade estratégica para o desenvolvimento de materiais nacionais mais competitivos.
Assim, uma nova etapa do programa reuniu centenas de combinações híbridas obtidas a partir do cruzamento entre linhagens nacionais e materiais estrangeiros. O objetivo era combinar características como produtividade, adaptação ao calor, resistência a doenças e qualidade comercial dos bulbos.
Em 2018, os primeiros testes em áreas comerciais começaram a revelar o potencial das linhagens que deram origem à BRS Belatriz. Os ensaios mostraram desempenho superior principalmente sob elevada pressão de doenças.
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Janela de mercado e estabilidade da oferta
O cultivo de cebola no verão ocorre principalmente entre dezembro e janeiro, com colheita concentrada a partir de maio. Nesse período, a produção nacional proveniente da região Sul já está em declínio, abrindo espaço para melhores preços no mercado. Segundo Oliveira, o fortalecimento da produção de verão pode contribuir para reduzir oscilações de oferta e reduzir a dependência de cebolas importadas durante a entressafra, especialmente da Argentina.
Apesar do potencial da nova cultivar, o cultivo de cebola no verão continua sendo uma atividade de maior risco e altamente dependente das condições climáticas. Chuvas excessivas podem comprometer a emergência das plantas, favorecer doenças e elevar os custos de manejo.

Apesar do potencial da nova cultivar, o cultivo de cebola no verão continua sendo uma atividade de maior risco e altamente dependente das condições climáticas. Foto: Paula Rodrigues
Por isso, os testes com produtores seguem em andamento para aperfeiçoar as recomendações de manejo da BRS Belatriz, principalmente em relação à adubação nitrogenada. A expectativa é que a nova cultivar contribua para ampliar a competitividade da cadeia produtiva e aumentar a estabilidade da oferta de cebola em um período tradicionalmente desafiador para a cultura.








