Placas solares instaladas entre tomates, trigo, soja e oliveiras tentam resolver uma disputa cada vez mais importante: como produzir mais energia sem tirar espaço da produção de alimentos
(Foto: Shell)
Imagine uma plantação de tomates. Entre uma fileira e outra, em vez de apenas terra, estacas e máquinas agrícolas, aparecem grandes painéis solares. Eles produzem eletricidade enquanto, alguns metros abaixo, a lavoura continua seu ciclo. O trator passa entre as placas, a chuva chega ao solo e, nas horas mais quentes do dia, a sombra pode até ajudar as plantas a perder menos água.
Parece uma fazenda do futuro. Mas ela já existe.
A técnica tem nome: agrivoltaica — ou agrofotovoltaica. A ideia é relativamente simples. Usar o mesmo pedaço de terra duas vezes, combinando a produção agrícola com a geração de energia solar. O desafio é fazer com que uma atividade não atrapalhe a outra.
E isso exige muito mais engenharia do que simplesmente espalhar painéis fotovoltaicos por uma lavoura.
Na Itália, dois projetos inaugurados pela Shell ajudam a mostrar como essa combinação começa a sair dos experimentos para ganhar escala comercial.
Em Canda, na província de Rovigo, uma usina solar com capacidade de 34,3 MWp divide espaço com cerca de 25 hectares destinados ao cultivo rotativo de trigo, soja, alfafa, tomate, repolho, ervilha e feijão. A produção de eletricidade é estimada em 55 GWh por ano — o equivalente ao consumo médio de aproximadamente 18 mil residências.
Não muito longe dali, em Loreo, outro projeto da companhia, chamado Marco Polo Solar 2, tem capacidade de 42,1 MWp e geração anual estimada em 70 GWh, suficiente para o consumo médio de cerca de 23 mil casas. Sob e entre as estruturas solares, aproximadamente 37 hectares continuam disponíveis para trigo, soja e alfafa.
Nos dois casos, os projetos agrícolas foram desenvolvidos com participação da Universidade de Pádua.
A inauguração foi tratada pela Shell como um marco para sua expansão em renováveis na Itália.
“Este dia nos deixa particularmente orgulhosos e marca um ponto importante para nosso portfólio italiano, que agora conta com cinco usinas fotovoltaicas em operação, três em construção e uma carteira adicional de projetos fotovoltaicos e de armazenamento de energia em baterias já autorizados”, afirmou Romina Giuliano, gerente de geração de energia da Shell na Itália.
É uma tentativa de responder a um problema que tende a ficar maior conforme o mundo instala mais energia renovável que é onde colocar tantos painéis solares?
A briga pelo espaço

A lógica deve ter uma hierarquia clara: a agricultura continua sendo a atividade principal. Foto: Foto: Hugh Kenny/Piedmont Environmental Council
Usinas fotovoltaicas precisam de espaço. E os terrenos adequados para produzir eletricidade muitas vezes são justamente aqueles que também servem para produzir comida.
Segundo o Departamento de Energia dos Estados Unidos (DOE), a maior parte das grandes usinas solares instaladas no solo ocupa áreas dedicadas exclusivamente à geração elétrica. Na agrivoltaica, a lógica muda. Culturas agrícolas, criação de animais ou habitats para polinizadores permanecem sob os painéis ou entre suas fileiras.
O objetivo não é apenas colocar duas atividades lado a lado. É descobrir maneiras de fazer com que elas funcionem juntas.
Na Holanda, onde a competição por terras é especialmente intensa, essa é justamente a justificativa apresentada pela empresa de energia Statkraft.
“Combinar energia solar com agricultura parece uma ideia muito sensata, especialmente em um país onde a disputa pela terra é intensa”, afirma Martijn van der Pouw, responsável pelo desenvolvimento de negócios da companhia na Holanda.
Para ele, a lógica deve ter uma hierarquia clara: a agricultura continua sendo a atividade principal.
“A agrivoltaica pode resolver o conflito pelo uso da terra entre a produção de energia renovável e a produção agrícola”, diz van der Pouw.
A empresa trabalha com a ideia de que a produção agrícola deveria conservar pelo menos 70% do rendimento anterior à instalação das placas.
Imagine então uma área de 100 hectares que, usada exclusivamente para agricultura, produzisse 100 unidades de alimentos. Ou que, transformada inteiramente em parque solar, produzisse 100 unidades de eletricidade.
Num sistema agrivoltaico hipotético, ela poderia produzir 70 unidades agrícolas e, ao mesmo tempo, 70 unidades de energia.
Separadamente, nenhuma das atividades chegaria ao máximo. Somadas, porém, representariam um aproveitamento equivalente a 140% daquele mesmo terreno.
Van der Pouw resume o raciocínio.
“Se a instalação solar do sistema agrivoltaico também produzir 70% do que produziria em uma usina solar convencional, sem uso agrícola, a área será efetivamente utilizada em 140% quando comparada ao uso exclusivo para agricultura ou para geração solar”.
É como se o hectare ficasse maior, sem aumentar um centímetro.
O painel também faz sombra. E isso pode ser bom

Um homem colhe vegetais na Roundabout Meadows Community Farm, que está testando o uso de painéis solares na própria propriedade. Foto: Hugh Kenny/Piedmont Environmental Council.
As placas solares fazem sombra. Mas se para algumas plantas, isso é péssimo, para outras, isso pode ser justamente uma vantagem.
A quantidade ideal de sombra depende da cultura, da latitude, do clima, da temperatura, da disponibilidade de água e até da maneira como os painéis se movimentam durante o dia.
No norte da Europa, a Statkraft avalia que sistemas agrivoltaicos podem funcionar com culturas como cebola, cereais, batata, tubérculos, morango e framboesa. No sul europeu, onde a radiação solar é mais intensa e a falta de água pode ser um problema maior, as combinações consideradas incluem videiras e oliveiras.
O raciocínio é que alguma sombra pode reduzir a temperatura do solo e a evaporação da água. Isso se torna especialmente interessante em regiões cada vez mais quentes e secas.
Na Itália, a empresa estuda, por exemplo, combinar painéis solares com olivais superintensivos — plantações de oliveiras em alta densidade adaptadas à colheita mecanizada — e também com tomates.
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Pode parecer contraditório proteger do sol justamente uma planta que gosta de calor e luminosidade, como o tomate. Mas existe um limite. Em ambientes submetidos a calor extremo e seca, alguma sombra durante determinados períodos do dia pode reduzir o estresse térmico e a perda de água.
É justamente essa possibilidade testada no sul da Itália.
“No sul da Itália, houve muitas secas nos últimos anos, o que tornou a agricultura mais difícil e menos atraente. Se conseguirmos demonstrar que os painéis solares podem ajudar a criar um microclima mais favorável e melhores condições de cultivo em um clima seco, esperamos convencer mais pessoas”, afirma Costanza Rizzo, desenvolvedora sênior de projetos agrivoltaicos da Statkraft na Itália.
Como passar uma colheitadeira no meio de uma usina solar?

Nos projetos da Shell em Rovigo, as fileiras ficam separadas por aproximadamente oito metros. Quando estão na posição horizontal, os painéis ficam a cerca de três metros do chão, permitindo a circulação de máquinas agrícolas de médio porte. Foto: Shell
Agricultura moderna depende de tratores, pulverizadores, plantadeiras e colheitadeiras. Se o produtor não consegue entrar na lavoura com suas máquinas, a combinação deixa de fazer sentido.
Por isso, a arquitetura dos parques agrivoltaicos é diferente da de muitas usinas solares convencionais.
Nos projetos da Shell em Rovigo, as fileiras ficam separadas por aproximadamente oito metros. Quando estão na posição horizontal, os painéis ficam a cerca de três metros do chão, permitindo a circulação de máquinas agrícolas de médio porte.
A Statkraft estuda outra solução.
É possível colocar painéis a cinco metros de altura e deixar praticamente uma lavoura funcionando embaixo deles. Tecnicamente funciona. Economicamente, porém, estruturas tão altas ficam caras.
“Em alguns projetos, os painéis solares foram instalados a cinco metros do solo. Nesse caso, o uso de máquinas agrícolas não é um problema”, explica Costanza Rizzo.
“A desvantagem dessa solução é que ela é muito cara e, atualmente, não é rentável sem subsídios. Por isso, em nossos projetos planejamos usar painéis instalados pouco acima de dois metros de altura”, acrescenta.
Uma alternativa são painéis instalados pouco acima de dois metros e capazes de girar.
Durante o dia, eles acompanham o Sol para aumentar a geração elétrica. Quando chega o trator, podem ficar praticamente na vertical, abrindo caminho entre as fileiras.
É quase uma coreografia. Quando o painel se movimenta pelo Sol e, quando necessário, ele sai do caminho da máquina.

Uma alternativa são painéis instalados pouco acima de dois metros e capazes de girar. Arte: Statkraft
Uma fazenda com duas colheitas
Para o agricultor, existe outra possível vantagem que é diversificar a renda.
Uma propriedade rural normalmente depende do preço das commodities, do clima, das pragas e da produtividade de cada safra.
Incorporar geração elétrica cria potencialmente uma segunda fonte de receita — seja pela economia na conta de luz, pela venda de eletricidade ou pelo arrendamento de parte da propriedade para um projeto energético.
Nos Estados Unidos, esse é um dos motivos pelos quais o governo pesquisa o assunto.
O Departamento de Energia afirma que a agrivoltaica pode diversificar as fontes de receita das propriedades, diminuir a competição pelo uso da terra e trazer benefícios ecológicos. Mas ressalta que ainda é necessário medir melhor seus efeitos sobre renda agrícola, ecossistemas, comunidades rurais e custos dos projetos solares.
Uma instalação fotovoltaica é um casamento longo. Sistemas desse tipo podem permanecer no terreno por 25 anos ou mais. Uma decisão errada sobre espaçamento, altura ou cultura agrícola pode acompanhar o produtor durante décadas.
Nos EUA, o programa de pesquisa FARMS — Pesquisa Fundamental em Agrivoltaica para Escala de Megawatts — financia justamente estudos para desenvolver projetos em escala de megawatts, integrar agricultura a sistemas solares e reduzir as barreiras para adoção da tecnologia.
Uma conclusão é que a agrivoltaica não possui uma receita universal.
Um arranjo que funciona para tomates no sul da Itália pode ser inadequado para trigo em outra latitude. O Departamento de Energia dos EUA trata justamente essa otimização — quanto produzir de comida e eletricidade, em diferentes desenhos e condições — como uma área ativa de pesquisa.

Culturas crescem em canteiros elevados sob um sistema de painéis solares de 17 quilowatts. Foto: Hugh Kenny/Piedmont Environmental Council
Da ovelha ao tomate
Nem toda fazenda solar com animais pastando entre os painéis é necessariamente agrivoltaica.
Ovelhas são hoje uma das maneiras mais simples de combinar pecuária e geração fotovoltaica. Elas comem a vegetação que cresce sob as placas e ajudam a diminuir a necessidade de roçada.
Mas há uma distinção importante. Colocar ovelhas numa usina apenas para controlar o mato não significa necessariamente integrar agricultura e energia.
“Há vários parques solares onde ovelhas pastam entre os painéis, mas isso não é o que normalmente consideraríamos, na Holanda, um uso combinado agrivoltaico. É apenas uma maneira simples de fazer a manutenção da vegetação”, afirma van der Pouw.
Na concepção mais ambiciosa da agrivoltaica, a produção rural continua sendo parte central da propriedade. O objetivo é colher alimentos, frutas ou forragem de qualidade e eletricidade.
Essa diferença também aparece nos Estados Unidos.
Em 2025, a Roundabout Meadows, uma fazenda comunitária na Virgínia, tornou-se um projeto demonstrativo de produção agrícola agrivoltaica. Foram instalados 42 painéis, somando 17 kW de potência solar, além de 23 kW de armazenamento em baterias. Dezoito culturas passaram a ser plantadas entre as fileiras.
O sistema gera eletricidade suficiente para suprir as necessidades anuais da fazenda, enquanto pesquisadores acompanham o desempenho das plantas e a qualidade do solo.
Teddy Pitsiokos, gerente da fazenda, resume uma condição básica para que a tecnologia faça sentido ao produtor.
“Precisamos mudar o mínimo possível para que os agricultores adotem isso. Não diga a eles para cultivar outra coisa nem para comprar máquinas novas… precisa ser algo feito pensando primeiro no agricultor para ser verdadeiramente agrivoltaico”.

Colocar ovelhas numa usina apenas para controlar o mato não significa necessariamente integrar agricultura e energia. Foto: Lightsource bp/Divulgação
Nem tudo são flores — ou painéis
Há obstáculos importantes.
Estruturas elevadas ou móveis são mais caras que instalações solares convencionais. É preciso conectar os projetos à rede elétrica. Máquinas precisam circular. O sombreamento tem de ser calculado para cada cultura. E agricultores precisam acreditar que não estão simplesmente entregando terras produtivas para empresas de energia.
Existe também a resistência de produtores e associações agrícolas, como na Itália. Parte dela viria da falta de conhecimento sobre a tecnologia; outra parte, da dúvida legítima sobre sua viabilidade.
“O ceticismo que encontramos se deve, em parte, ao fato de que muitas pessoas não compreendem completamente o conceito e, em parte, ao fato de não acreditarem que ele vá funcionar”, afirma Rizzo.
Por isso, a companhia firmou uma parceria de pesquisa com a Universidade de Bari Aldo Moro para estudar quais culturas funcionam melhor, como os painéis devem ser instalados e de que maneira mecanização, colheita e questões ambientais podem ser conciliadas.
Outro desafio é evitar que a expressão “agrivoltaica” vire apenas um rótulo simpático para usinas solares que praticamente eliminam a agricultura.
Nos Estados Unidos, essa preocupação já começa a chegar às leis. A Virgínia estabeleceu em 2026 uma definição legal que enfatiza a coexistência intencional das duas atividades e a manutenção da produção agrícola. A ideia é diferenciar projetos realmente agrivoltaicos de parques fotovoltaicos convencionais instalados em antigas fazendas.








