Criadores de truta-arco-íris estão utilizando técnicas derivadas da tecnologia nuclear para detectar mais precocemente surtos de doenças letais e selecionar peixes mais resistentes
(Foto: R. Nahuelpi/ Universidade do Chile)
De rios, lagos e lagoas de água doce a tanques-rede marinhos na costa, a criação de truta é um subsegmento dinâmico da aquicultura na América Latina, sustentando milhares de meios de subsistência em toda a região.
No entanto, as trutas criadas em sistemas de cultivo em águas abertas são vulneráveis a doenças que se disseminam facilmente pela água.
Criadores de truta-arco-íris na América Latina estão utilizando técnicas derivadas da tecnologia nuclear para detectar mais precocemente surtos de doenças letais e selecionar peixes mais resistentes, contribuindo para fortalecer a segurança alimentar e proteger os meios de subsistência.
Embora em escala muito menor do que em países como Chile e Peru, a truta-arco-íris (Oncorhynchus mykiss) é produzida comercialmente no Brasil.
A produção brasileira está concentrada em regiões de clima mais frio e águas de boa qualidade, principalmente a na Serra da Mantiqueira (Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro), em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além de algumas áreas de altitude do Paraná.
O inimigo das trutas
Uma das ameaças mais graves à truta-arco-íris é o vírus da necrose pancreática infecciosa (IPNV, na sigla em inglês), responsável por uma doença altamente contagiosa que pode provocar elevada mortalidade entre os peixes.
Em surtos severos de IPNV que afetam alevinos e peixes juvenis, a mortalidade pode ultrapassar 50% e, em casos extremos, chegar perto de 90%.
Quando isso ocorre, os produtores podem perder grande parte de sua produção. Como a truta é uma importante fonte de alimento nutritivo para muitas comunidades rurais e de alta altitude, a redução da produção compromete tanto os meios de subsistência quanto a segurança alimentar.
No passado, a detecção precoce do IPNV era dificultada pela limitada capacidade de diagnóstico.
Com o apoio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), porém, cientistas passaram a utilizar técnicas nucleares para identificar patógenos mais cedo e detectar características genéticas associadas à resistência à doença.
Para enfrentar o IPNV, a AIEA equipou laboratórios e capacitou especialistas em nove países da região — Argentina, Brasil, Chile, Equador, México, Panamá, Peru, Uruguai e Venezuela — por meio de um projeto de cooperação técnica desenvolvido no âmbito do acordo ARCAL, com o apoio do Centro Conjunto FAO/AIEA de Técnicas Nucleares em Alimentação e Agricultura.
O projeto teve como objetivo substituir uma abordagem baseada na reação aos surtos por uma estratégia de prevenção fundamentada na ciência e na cooperação.
Os treinamentos promovidos pela AIEA em técnicas derivadas da tecnologia nuclear — incluindo análise avançada de DNA, sequenciamento genético e diagnóstico molecular — forneceram aos cientistas ferramentas práticas para compreender melhor tanto o vírus quanto os próprios peixes.

O cultivo de truta é um setor em expansão na América Latina, especialmente no Chile e no Peru. Foto: Universidade do Chile
Selecionando peixes mais resistentes
O fortalecimento das capacidades promovido pela AIEA permitiu aos cientistas analisar as características genéticas das populações de truta-arco-íris e identificar marcadores moleculares associados à resistência genética ao IPNV.
Esse avanço possibilita aos produtores selecionar peixes geneticamente resistentes ao vírus, criando uma oportunidade importante para aumentar a resiliência das populações de truta-arco-íris na região.
“As evidências mostram que a seleção baseada nesse marcador pode aumentar a sobrevivência em aproximadamente 1,2%, considerando um cenário conservador”, afirmou Carla Bravo de Rueda, oficial técnica de Saúde Animal do Centro Conjunto FAO/AIEA de Técnicas Nucleares em Alimentação e Agricultura.
“Em termos práticos, isso representa cerca de 1,2 tonelada adicional de peixe para cada 100 toneladas produzidas por geração, dependendo da frequência do marcador e de sua incorporação progressiva aos programas de melhoramento genético por meio da seleção.”
“Como as trutas atingem o tamanho comercial em apenas alguns anos, esses ganhos de 1,2% a cada geração se acumulam rapidamente, resultando em muitas toneladas adicionais de peixe que os produtores podem comercializar”, acrescentou.
Mesmo pequenos aumentos na sobrevivência dos peixes podem gerar impactos significativos na aquicultura. Peixes mais saudáveis e resistentes significam menos perdas, produção mais estável e maior renda para os produtores.
Para os países, isso favorece o crescimento econômico e fortalece os sistemas alimentares, garantindo às comunidades acesso a alimentos nutritivos que contribuem para uma melhor saúde.

Na ilha de Chiloé, no Chile, cientistas trabalham em parceria com a indústria aquícola para aperfeiçoar programas de melhoramento genético da truta. . Foto: David Tapia/Universidade do Chile/INVASAL
Os programas de melhoramento genético foram fortalecidos no Chile e implantados no Brasil, estabelecendo as bases para um desenvolvimento regional sustentável. Em vez de depender apenas da experiência prática, as decisões sobre reprodução podem agora ser orientadas pela ciência, com peixes selecionados especificamente por sua resistência ao vírus nas condições locais de cultivo.
“Este projeto aprimorou o melhoramento genético da truta-arco-íris ao utilizar análises genéticas avançadas para identificar e confirmar características associadas à resistência ao IPNV”, afirmou José Manuel Yáñez López, diretor da Faculdade de Ciências Veterinárias e Pecuárias da Universidade do Chile.
“Esses avanços abrem caminho para estratégias mais precisas de seleção assistida por marcadores, contribuindo para melhorar as taxas de sobrevivência, aumentar a eficiência dos programas de melhoramento e fortalecer a resiliência genética dos estoques aquícolas.”
LEIA TAMBÉM:
Como a energia nuclear virou aliada da agricultura
Inverno é a melhor época do ano para se produzir truta
Estresse dos peixes ameaça produtividade na piscicultura
Harmonização das práticas regionais
Desde pequenas propriedades familiares até grandes operações comerciais, a truta-arco-íris é produzida em diferentes sistemas de cultivo na América Latina.
Essa diversidade reflete a riqueza da região, mas também seus desafios: acesso desigual à tecnologia, infraestrutura limitada e dependência de matrizes importadas em vários países.
O projeto está harmonizando protocolos de diagnóstico do IPNV, avaliando a variabilidade genética das populações de truta-arco-íris, promovendo a seleção de peixes resistentes ao vírus e reduzindo as diferenças técnicas entre os países.

A truta é rica em proteínas de alta qualidade e em ácidos graxos ômega-3, nutrientes que contribuem para a saúde cardiovascular, o desenvolvimento cerebral e o bem-estar geral. Foto: Carolina Araya/Universidade do Chile
Os produtores da região agora estão mais preparados para detectar e responder à doença, enquanto a intensificação da colaboração entre laboratórios, autoridades e produtores deu origem a uma rede regional que favorece a inovação contínua, o intercâmbio de conhecimentos e o fortalecimento da resiliência do setor aquícola.








