Conduzido por biólogos brasileiros, novo estudo mostra que o impacto econômico da perda desses insetos polinizadores é muito maior do que se imaginava tanto para o meio ambiente quanto para grande parte da agricultura, que depende deles, como é o caso das culturas agrícolas de frutas comestíveis

O efeito do uso de agrotóxicos sobre as abelhas, principais insetos polinizadores em todo o mundo, pode ser mais grave do que se imaginava. Mesmo quando são aplicadas dosagens não letais – ou seja, aparentemente inofensivas –, um tipo de inseticida encurtou o tempo de vida delas em até 50%.

As operárias “contaminadas” também tiveram seus comportamentos alterados: ficaram mais lentas (letárgicas) em comparação às “saudáveis”, situação que pode comprometer a sobrevivência de toda a colônia. Tudo isso foi constatado em um estudo coordenado por biólogos brasileiros, que foi publicado em 1º de março de 2019, na revista Scientific Reports do grupo Nature. Confira o link original: www.nature.com/articles/s41598-019-39383-z.

Coordenação do estudo

O estudo foi coordenado por Elaine Cristina Mathias da Silva Zacarin, professora na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus Sorocaba. Também participaram pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP).

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) apoiou a investigação por meio do Projeto Temático “Interações abelha-agricultura: perspectivas para a utilização sustentável”, comandado pelo professor Osmar Malaspina, da Unesp de Rio Claro.

Também houve financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Cooperativa dos Apicultores de Sorocaba e Região (Coapis).

Desaparecimento

Segundo a Agência Fapesp, é notório que diversas espécies de abelhas estão desaparecendo em todo o planeta, sendo que na Europa e Estados Unidos esse fenômeno tem sido observado desde o ano 2000; e no Brasil, pelo menos, desde 2005.

No Rio Grande do Sul, entre dezembro de 2018 e janeiro de 2019, foi registrada a perda de aproximadamente cinco mil colmeias – algo equivalente a 400 milhões de abelhas.

E, segundo os biólogos brasileiros, não estão sumindo apenas os indivíduos da espécie Apis mellifera, abelha de origem europeia e principal responsável pela produção comercial de mel.

Nas matas brasileiras, conforme a Fapesp, há centenas de espécies selvagens possivelmente afetadas. De acordo com os estudiosos, o impacto econômico previsto é imenso, pois grande parte da agricultura depende do trabalho de polinização realizado por esses insetos. É o caso, por exemplo, de todas as frutas comestíveis.

Causa conhecida

Compostos químicos – como inseticidas, fungicidas, herbicidas e acaricidas – contaminam as abelhas que saem da colônia em busca de pólen e acabam atingindo toda a colmeia. Foto: Divulgação Projeto Colmeia Viva

A causa do sumiço repentino em massa também já é conhecida: a aplicação indevida e indiscriminada de defensivos agrícolas. Compostos químicos – como inseticidas, fungicidas, herbicidas e acaricidas – contaminam as abelhas que saem da colônia em busca de pólen e acabam atingindo toda a colmeia.

O estudo aponta que, uma vez dentro da colônia, tais compostos são ingeridos pelas larvas, comprometendo sua longevidade e o funcionamento da colônia como um todo.

“No Brasil, as monoculturas de soja, milho e cana dependem do uso intensivo de inseticidas. A contaminação das colônias de abelhas ocorre quando, por exemplo, os agricultores não respeitam uma margem de segurança mínima (são recomendados 250 metros) na aplicação de defensivos agrícolas entre as lavouras e as áreas florestais que as margeiam. Tem gente que aplica produtos químicos até o limite da floresta”, comenta o professor Osmar Malaspina, da Unesp de Rio Claro.

Ele também ressalta que, “na Europa e nos Estados Unidos, as colônias de abelhas morrem aos poucos”. “Desde a constatação inicial da morte das primeiras abelhas até a morte da colônia pode levar um mês ou até cinco meses. No Brasil não é assim. Aqui, as colmeias desaparecem em apenas 24 ou 48 horas. Não existe nenhuma doença capaz de matar uma colmeia inteira em 24 horas. Só inseticidas podem provocar isso.”

Malaspina aponta para a existência de mais de 600 tipos de ingredientes ativos em inseticidas, fungicidas, herbicidas e acaricidas usados no Brasil, o que dificulta – e muito – os testes científivcos. “É impossível testar em laboratório a ação de cada um deles. Não há dinheiro para isso.”.

Projeto Colmeia Viva

No Projeto Colmeia Viva, realizado entre 2014 e 2017, foi feito um estudo para identificar, dentre os 44 ingredientes ativos mais usados na agricultura paulista, quais poderiam estar relacionados à mortalidade das abelhas. O resultado é que foram detectados oito ingredientes com ação comprovadamente letal para a apicultura.

A equipe do projeto coletou material em 78 municípios do Estado de São Paulo. Trabalhando com os apicultores, os agricultores e a indústria de defensivos, os pesquisadores recomendaram uma série de ações para proteger os apiários, como a observação de margens de mínima segurança na aplicação de agrotóxicos e de boas práticas agrícolas.

Segundo os cientistas brasileiros, os efeitos benéficos do Projeto Colmeia Viva podem estar começando a surgir. No mesmo período em que sumiram as cinco mil colônias de abelhas no Rio Grandes do Sul, as perdas foram menores nos Estados de Santa Catarina e Paraná. E entre os apicultores paulistas o impacto foi ainda mais reduzido.

“Isso não quer dizer que as abelhas de São Paulo estão a salvo dos defensivos agrícolas. Longe disso. Estamos começando a testar quais são os efeitos sobre as abelhas melíferas do uso associado de inseticidas com fungicidas. E já descobrimos que um determinado tipo de fungicida, que quando aplicado de modo isolado no campo, é inofensivo às colmeias, ao ser associado a um determinado inseticida se torna nocivo”, comenta a bióloga Elaine Cristina Mathias da Silva Zacarin, professora na UFSCar – campus Sorocaba.

Esse produto “não chega a matar as abelhas como os inseticidas, mas altera o comportamento dos insetos, comprometendo a colônia”.

App ajuda apicultor

Pelo app Colmeia Viva, agricultor pode comunicar ao apicultor quando realizará pulverização na lavoura. Foto: Divulgação

Para auxiliar esse importante setor para o Brasil, os apicultores já contam com o aplicativo do Colmeia Viva. O ambiente digital serve para facilitar o diálogo entre agricultores e criadores de abelhas.

Os primeiros podem identificar as áreas de sobreposição de atividades agrícolas e apícolas e avisar quando vão ocorrer as pulverizações (aplicadores de defensivos serão incluídos em uma segunda etapa). E os criadores de abelhas podem receber esses comunicados de aplicações e saber quais medidas de proteção devem tomar.

Veja como funciona:

* Áreas e Apiários: Utilizando o mapa, agricultores podem marcar suas propriedades e criadores de abelhas podem identificar seus apiários.

* Comunicação: Quando um apiário é identificado neste raio, o app notifica ambos os usuários e permite que eles conversem entre si por meio de um chat.

* Pulverização: Quando o agricultor avisa de uma pulverização, o aplicativo busca por apiários que estão em um raio de 6 km da área de aplicação.

Para mais informações, acesse www.projetocolmeiaviva.org.br.

Ingredientes investigados

Conforme publicação da Agência Fapesp, os ingredientes ativos investigados foram a clotianidina, inseticida usado para controle de pragas nas culturas de algodão, feijão, milho e soja; e o fungicida piraclostrobina, aplicado nas folhas da maioria das culturas de grãos, frutas, legumes e vegetais.

“Realizamos ensaios de toxicidade de agrotóxicos em larvas de abelhas e em concentrações ambientais relevantes, ou seja, concentrações realistas, como as encontradas residualmente no pólen das flores”, relata Elaine Cristina.

Essa observação é importante, principalmente porque qualquer agrotóxico, aplicado em grandes concentrações, mata as colmeias quase imediatamente. Mas o que os pesquisadores estudam, agora, são os efeitos sutis e de médio a longo prazos sobre as colmeias.

“O que nos interessa é descobrir a ação residual dos agrotóxicos, mesmo em concentrações baixíssimas, sobre esses insetos”, diz a professora.

Testes in vitro

Os testes foram todos feitos in vitro, com insetos confinados dentro de laboratórios para não ocorrer contaminação ambiental. Nessas condições, larvas de Apis mellifera foram separadas em grupos diferentes e alimentadas, entre o terceiro e o sexto dia de vida, com uma dieta composta de açúcar e geleia real.

O que variou foi o tipo de ingrediente tóxico presente no alimento, sempre em concentrações diminutas, na faixa de nanogramas (bilionésimos de grama). A dieta do grupo controle não continha agrotóxico.

No segundo grupo, a dieta foi contaminada com o inseticida clotianidina; no terceiro, a contaminação foi por fungicida (piraclostrobina); e no quarto, havia uma associação do inseticida com o fungicida.

Ciclo de vida

“Depois do sexto dia de vida, as larvas se tornam pupas e entram em metamorfose, de onde emergem como operárias adultas. No campo, uma abelha operária vive em média 45 dias. Em laboratório, confinada, vive menos. Mas os insetos alimentados com a dieta contaminada pelo inseticida clotianidina, em baixíssima concentração, apresentaram tempo de vida drasticamente menor, de até 50%”, avalia Elaine Cristina.

Entre as larvas alimentadas com a dieta contaminada apenas pelo fungicida piraclostrobina, por sua vez, não foi notado nenhum efeito sobre o tempo de vida das operárias.

“Com base apenas nesse resultado, poderíamos imaginar que o fungicida em baixa concentração é inofensivo às abelhas. Infelizmente, não é o que ocorre”, diz a pesquisadora, destacando que nenhuma abelha morreu na fase de larva e de pupa.

Verificou-se que, na fase adulta, as operárias sofreram modificação em seu comportamento e se tornaram mais lentas do que os insetos do grupo controle.

“As operárias jovens fazem inspeções diárias na colmeia, o que as leva a percorrer certa distância. Elas se movimentam bastante dentro da colônia. Verificamos que, no caso das abelhas contaminadas tanto pelo fungicida sozinho ou associado ao inseticida, a distância percorrida e a velocidade foram muito menores”, conta a bióloga.

Risco de extinção em massa

Caso o mesmo ocorra no meio ambiente com parte considerável das operárias de uma colmeia, continua Elaine Cristina, “tal alteração de comportamento acabaria por prejudicar o funcionamento de toda a colônia”. E essa pode ser uma das razões da extinção em massa de abelhas.

Ainda não se sabe de que forma o fungicida age para comprometer o comportamento das abelhas. “Nossa hipótese é que a piraclostrobina, quando associada a um inseticida, diminuiria o metabolismo energético das abelhas. Novos estudos em andamento podem vir a elucidar esse mecanismo”, adianta a bióloga.

Edição especial d’A Lavoura

A revista A Lavoura, veiculada desde 1897 pela Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), dedicou uma edição impressa especialmente a casos relacionados ao desaparecimento de abelhas no Brasil e no mundo.

Confira a reportagem “Sem polinizadores, alimentos em risco”, publicada em nossa versão online, clicando no link: alavoura.com.br/?p=1462.

A edição completa também está disponível em http://ow.ly/swq830ovbQJ.

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Fontes: Agência Fapesp e Projeto Colmeia Viva