Pesquisa de 2018 do Ibope mostrava que 14% da população brasileira se declaravam vegetariana/vegana. Nas regiões metropolitanas como São Paulo, Curitiba, Minas Gerais e Rio de Janeiro, esse percentual chega a 16% – o dobro em comparação a 2012

A busca por uma alimentação mais equilibrada vem fortalecendo os movimentos vegano e vegetariano no Brasil e no mundo. A transformação é impulsionada pela mudança sem precedentes da população, cada vez mais consciente em relação às causas ambientais e ao bem-estar animal. Para debater essa revolução, hoje (1º de novembro) é comemorado o Dia Mundial do Veganismo.

“O dia do veganismo é um convite para cada um de nós revermos nossa relação com os animais, nossa saúde e a vida em todo o planeta”, diz Ricardo Laurino, presidente da SVB. Foto: Divulgação

“O dia do veganismo é um convite para cada um de nós revermos nossa relação com os animais, nossa saúde e a vida em todo o planeta. Respeitar os animais de forma ampla é um ato de compaixão e benevolência, mas acima de tudo, de justiça”, comenta Ricardo Laurino, presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB).

De acordo com projeções de um estudo realizado pela Sainsburys, tradicional rede de supermercados britânica com mais de 150 anos de existência, um quarto da população britânica será vegetariana e metade flexitariana, em 2025.

A própria rede de supermercados já registra um crescimento de 24% no volume de clientes que procuram por produtos veganos online, além de um aumento de 65% nas vendas de produtos a base de vegetais em comparação com o mesmo período do ano passado.

O fato é que o número de consumidores que se consideram veganos, vegetarianos ou flexitarianos está cada vez maior. E a maioria também opta por alimentos orgânicos, sem uso de nenhuma substância química para produção em campo.

Semivegetarianismo ou Flexitarianismo, de modo geral, é um termo usado para descrever a prática de comer carne em menos de três refeições por semana. Portanto, não é uma dieta 100% vegetariana.

Fenômeno mundial

Grande parcela dos norte-americanos está consumindo refeições vegetarianas mais frequentemente. No Brasil, segundo pesquisa do Ibope de 2018, 14% das pessoas se declararam vegetariana/vegana. Foto: Divulgação

Nos Estados Unidos, segundo o Instituto Harris Interactive, grande parcela dos norte-americanos está consumindo refeições vegetarianas mais frequentemente. Quase metade dos entrevistados (48%) diz consumir refeições veganas, semanalmente. O Brasil, por sua vez, segue o mesmo ritmo.

Uma pesquisa divulgada pelo Ibope, em abril de 2018, mostrava que 14% da população brasileira se declara vegetariana/vegana. Nas regiões metropolitanas como São Paulo, Curitiba, Minas Gerais e Rio de Janeiro, esse percentual chega a 16% – o dobro em comparação a 2012, quando o mesmo estudo mostrou que 8% dos entrevistados se declaravam vegetarianos.

“Ser vegano é muito mais que adotar uma dieta ou um estilo de vida. Ao exercitar o respeito a toda forma de vida, removemos os véus do preconceito e celebramos mais intensamente a nossa própria humanidade”, diz Paulo Treu, diretor da Global Picks Brasil, empresa responsável pela venda no País via Violife Brasil.

No estudo da Sainsburys, o biólogo especializado em plantas James Wong corrobora com a opinião de crescimento no interesse global por uma alimentação com benefícios à saúde. Há ainda um grande fator ambiental, passional e até mesmo técnico que ajuda a impulsionar a demanda.

Crescimento da população

A expectativa de crescimento da população mundial para algo em torno de nove bilhões de pessoas, nos próximos 30 anos, deixa claro que não será economicamente sustentável produzir e consumir a mesma quantidade de carne que observamos nos dias atuais.

Atualmente, um europeu consome 80 quilos de carne por ano, enquanto norte-americanos e australianos comem 110 quilos de carne anualmente. Os brasileiros oscilam entre os três países, ficando com um consumo aproximado de 90 quilos em média por ano.

De acordo com a Farmnews, considerando apenas as carnes bovina, suína e de frango, o brasileiro distribui o consumo da seguinte forma: carne de frango, 46,4%; bovina, 38,8%; e carne suína: 14,8%.

Brasileiros consomem, em média, 90 quilos de carne por ano. Foto: Divulgação

“Se a população, que hoje não consome carne na mesma proporção, aumentar sua demanda por carne, a conta simplesmente não vai fechar”, comenta Paulo Treu, diretor da Violife Brasil.

Em sua opinião, a situação é tão crítica que países como Alemanha, Dinamarca, Suécia e China já discutem, há algum tempo, a possibilidade de implantar uma “taxa do pecado” para consumidores de carne, cujo propósito é reduzir a demanda por carne em até 45%.

“Ao contrário do senso comum, estudos e pesquisas recentes provam, cada vez mais, que dietas majoritariamente à base de vegetais podem oferecer todos os nutrientes necessários para pessoas comuns e atletas”, ressalta o diretor da Violife.

O assunto, inclusive, é tratado no documentário The Game Changers, que conta com a produção de nomes como James Cameron e Arnold Schwarzeneger. O filme ressalta a crescente participação da dieta plant based na alimentação das pessoas comuns e atletas, reforçando os benefícios para a saúde e desempenho.

No Brasil

Alimentação saudável passa pelo respeito ao meio ambiente e pelo bem-estar dos animais. Foto: Divulgação

Diante de tal mudança, eventos que celebram uma alimentação mais saudável, o respeito ao meio ambiente e aos animais, ganham força. O Vegfest, por exemplo, foi destaque recentemente em Brasília, reunindo milhares de empresas, que apresentaram ao público novidades e tecnologias de última geração para produção de alimentos.

Neste ano, a Violife – conhecida como a empresa de queijos veganos mais premiada do mundo – apresentou sete tipos de queijo de origem 100% vegetal ao público do evento. O estande da empresa também contou com a presença da youtuber Alana Rox, do canal “Diário de uma vegana”.

Os produtos da Violife, empresa de origem grega, são elaborados a partir do amido de batata, óleo de coco e enriquecidos com vitamina B12.

Segunda sem carne

O Programa Segunda Sem Carne (SSC), implantado no Brasil pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), comemora o recorde de 327 milhões de refeições vegetais servidas no País, na última década. Apenas no primeiro semestre de 2019, mais de 40 milhões de pratos à base de vegetais foram servidos em território brasileiro.

De acordo com a instituição, a iniciativa ajuda a promover uma alimentação balanceada na vida da população, contribuindo também com a redução de doenças provocadas pelo consumo de produtos de origem animal.

Cantor Paul McCartney é vegano e apoiador da campanha da SVB. Foto: Divulgação

A Segunda Sem Carne surgiu em 2003, nos Estados Unidos, e hoje já está presente em mais de 40 países. No entanto, é no Brasil que ela tem gerado mais impacto. A campanha brasileira é considerada a maior do mundo e contempla mais de 100 municípios, com o apoio de instituições públicas e grandes empresas, beneficiando mais de três milhões de pessoas em todo o Brasil.

“A gente nem se dá conta. Mas sim, a SSC está mudando a realidade do consumo de carne e derivados no País. Já perdemos as contas de quantas pessoas se tornaram vegetarianas dando seu primeiro passo nessa caminhada às segundas. Queremos contar com você, nos próximos dez anos, para que possamos fazer com que mais pessoas a descubram novos sabores, mobilizando autoridades públicas como prefeituras a apresentarem essa alimentação rica aos cidadãos”, convida Mônica Buava, gerente de campanhas da SVB.

Elaborar políticas públicas que promovam a alimentação saudável da população pode ajudar a reduzir o número de doenças.

Um estudo recente da Sainsburys também mostra que dietas não saudáveis são responsáveis por 11 milhões de mortes consideradas preveníveis no mundo, por ano. Para termos uma ideia, o número é maior do que as mortes causadas pelo fumo.

Além de favorecer a saúde, o SSC também reduz o impacto ambiental no planeta. De acordo com dados da SVB, apenas um dia sem consumir produtos de origem animal pode economizar 3,4 mil litros de água usados no cultivo de grãos e nos abatedouros, sete quilos de soja para ração, 24 metros quadrados de área plantada a evita que 14 quilos de gases tóxicos sejam lançados na atmosfera.

“A Segunda Sem Carne no Brasil é uma inspiração. É impressionante o número de refeições servidas para as crianças. Espero que esse trabalho perdure por muitos anos”, celebra Tobias Leenaert, ativista belga e autor do livro “Como Criar um Mundo Vegano“.

Parceria de sucesso

Os grandes resultados do programa foram possíveis graças a parcerias importantes com instituições públicas formadas pela rede de restaurantes populares Bom Prato, além das secretarias de ensino estaduais e municipais de São Paulo.

Nas escolas municipais de São Paulo, a introdução do cardápio vegetariano se iniciou gradualmente em 2011, passando por criteriosos testes de aceitação dos alunos. Já na rede estadual de ensino de São Paulo, a mudança virou realidade em 2017, alcançando a marca de 100 municípios participantes em agosto do mesmo ano.

Sucesso do “Segunda sem carne” é possível graças a parcerias com instituições públicas formadas pela rede de restaurantes populares Bom Prato. Foto: Divulgação Governo de SP

Já no setor privado, a novidade foi a adesão da empresa de cosméticos Natura. A iniciativa, anunciada em novembro (relembre aqui), foi a primeira do País em empresas de grande porte e deverá beneficiar mais de 4,5 mil colaboradores que atuam nas unidades de São Paulo e do Pará.

Com a participação no projeto, a Natura ajudará a preservar anualmente cerca de 500 hectares de vegetação (o equivalente a dois Parques Ibirapuera, em São Paulo) e a economizar cinco milhões de litros de água (40 mil banhos, de 15 minutos).

A iniciativa também deverá evitar o consumo de 1,5 milhão de quilos de soja, para produção de ração animal, e reduzir a emissão de gases do efeito estufa em 1,5 milhão de quilos – o mesmo que retirar de circulação 330 mil carros ao longo de um ano.

“Entendemos que todos precisamos fazer a nossa parte, dia a dia, para gerar impacto positivo a partir de escolhas mais conscientes”, analisa o diretor de Remuneração e Benefícios da Natura, Marcos Milazzo.

Para mais informações, acesse www.svb.org.br.

Influência digital

Antecedendo o Dia Mundial do Veganismo no dia 1º de novembro, o mês de outubro contou com mais de 250 mil posts sobre o tema. As atrizes Erika Januza e Gi Lancellotti e as influenciadoras Gabriela Pugliesi e Niina Secrets foram as celebridades que mais geraram engajamento em posts sobre veganismo no Instagram, durante o mês passado.

Segundo dados do Buzzmonitor Trends – ferramenta de busca histórica de termos em redes sociais do Buzzmonitor –, as publicações das famosas somam cinco dos 12 posts sobre o tema com mais engajamento no Instagram, entre os dias 1º e 31 de outubro.

Já no Facebook, a busca pelos termos “vegano” e “vegana” esteve nos Top Posts apenas com conteúdos publicitários. Dentre os 12 Top Posts com maior engajamento no Facebook, apenas um falou sobre alimentação. Todos os demais mostraram produtos de beleza.

As marcas responsáveis pelos posts mais engajados no mês de outubro foram O Boticário, Salon Line, Todecacho, Sal de Flor e Embelleze, somando mais de 412 mil interações.

Top posts Instagram – busca pelo termo ‘vegano’

Top posts Instagram – busca pelo termo ‘vegana’

Os termos “veganismo”, “vegano” ou “vegana” foram mencionados 251.841 vezes no mês de Outubro, segundo dados do Buzzmonitor Trends. O termo mais mencionado dentre os três foi “vegano”, com 111.947 menções, seguido por “vegana” e “veganismo” com 94.570 e 45.315 menções, respectivamente.

Com a celebração do Dia Mundial do Veganismo no dia 1º de novembro, o tema poderá atingir novos picos de menções.

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Fontes: SVB, Violife, Farmnews e Buzzmonitor