Alterações no regime de chuvas e nas temperaturas podem afetar o florescimento, o pegamento dos frutos e a maturação dos grãos, além de favorecer doenças, pragas e plantas daninhas
(Foto: Fabiano Bastos/Embrapa)
O El Niño estabelecido no Oceano Pacífico Equatorial coloca a safra brasileira de café de 2027 no radar dos produtores. Mudanças no comportamento das chuvas e das temperaturas em diferentes regiões do País podem interferir em etapas decisivas do ciclo do cafeeiro, como a florada, o pegamento dos frutos, o enchimento dos grãos e a uniformidade da maturação.
Boletim elaborado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em conjunto com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), indica a intensificação do fenômeno ao longo do segundo semestre de 2026.
As projeções climáticas apontam elevada probabilidade de o evento atingir intensidade muito forte entre a primavera e o começo do verão, período importante para a formação da próxima safra brasileira de café.
Na cafeicultura, mais do que o volume total de chuva, a distribuição das precipitações ao longo do ciclo é um dos fatores que merecem atenção. Depois do período seco, o retorno da umidade funciona como um dos principais estímulos para a abertura das flores.
Quando as chuvas chegam antes do período normalmente esperado, podem provocar floradas antecipadas, alterando o calendário da cultura e a dinâmica de formação da safra.
A ocorrência de precipitações, portanto, demanda atenção redobrada principalmente nas regiões em que as lavouras se encontram em condições favoráveis ao florescimento.
Em algumas áreas produtoras, chuvas volumosas registradas após o período seco já favoreceram a abertura antecipada das flores. Essas primeiras floradas podem apresentar menor intensidade, mas ainda assim interferir no desempenho da florada principal, geralmente concentrada entre setembro e outubro.
Será nesse período que a intensidade do florescimento e o pegamento dos frutos ajudarão a definir o potencial produtivo da safra de 2027.

O monitoramento deve ser realizado em todas as fases da cultura, permitindo que o cafeicultor tome decisões de manejo de acordo com as condições observadas no campo. Foto: IHARA/Divulgação
Segundo o engenheiro agrônomo Frederico Gianasi, o florescimento é uma das etapas mais importantes do ciclo do cafeeiro, pois marca o começo da formação dos frutos que serão colhidos na safra seguinte.
“Além dos efeitos diretos sobre a florada e o desenvolvimento dos frutos, a mudança no comportamento das chuvas e das temperaturas pode alterar a pressão fitossanitária das lavouras, intensificando a incidência de doenças, pragas e plantas daninhas. Por isso, o monitoramento deve ser realizado em todas as fases da cultura, permitindo que o cafeicultor tome decisões de manejo de acordo com as condições observadas no campo, a fim de proteger a produtividade e a qualidade do café”, afirma Gianasi.
Florada principal será determinante
A evolução do clima entre setembro e outubro terá papel decisivo no desenvolvimento do café. A falta de água durante o florescimento pode reduzir o número de flores e aumentar a desuniformidade da floração.
Nas etapas seguintes, períodos de estresse hídrico associados a temperaturas elevadas podem comprometer o desenvolvimento e o enchimento dos grãos, acelerar a maturação e afetar a qualidade do café.
A irregularidade climática também pode dificultar a uniformidade da maturação. Quando as floradas ocorrem em momentos distintos, os frutos podem amadurecer de maneira irregular, dificultando a colheita seletiva e aumentando os desafios nas lavouras destinadas à produção de cafés de maior qualidade.
Temperaturas excessivamente elevadas durante o desenvolvimento dos frutos podem afetar o tamanho e o peso dos grãos, além de comprometer características físicas e sensoriais da bebida.
“Os efeitos climáticos sobre a próxima safra também ultrapassam os impactos no campo e podem alcançar as discussões comerciais do setor. O Brasil exerce papel relevante na oferta mundial de café e eventuais perdas de produtividade ou qualidade podem afetar a disponibilidade do produto e as perspectivas de comercialização”, explica o engenheiro agrônomo.
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Clima pode favorecer doenças e pragas
A combinação entre chuva e temperatura também influencia a ocorrência de problemas fitossanitários.
Com a retomada das precipitações, o ambiente pode se tornar mais favorável ao desenvolvimento de doenças como a ferrugem-do-cafeeiro e a mancha de phoma, capazes de atingir folhas, flores e frutos.
O monitoramento da lavoura é importante para identificar a presença dessas doenças e orientar a definição do momento adequado de controle. Quando necessário, o manejo deve ser realizado de maneira preventiva, com acompanhamento técnico e rotação de mecanismos de ação, para reduzir o risco de resistência dos patógenos.
As pragas também exigem atenção, especialmente o bicho-mineiro e a broca-do-café. O bicho-mineiro pode provocar perdas de 30% a 70% da produção, enquanto a broca pode reduzir em até 20% o peso dos grãos ao perfurar frutos ainda verdes.
A identificação precoce das infestações permite definir estratégias de controle de acordo com as condições de cada lavoura. O planejamento deve considerar o estágio de desenvolvimento da cultura, o nível de infestação e as características das áreas atingidas.
Plantas daninhas ampliam competição

As invasoras estão presentes em mais de 50% das áreas agricultáveis no Brasil e, dependendo da espécie, do nível de infestação e da duração da competição, o potencial de perdas pode ultrapassar 90%. Foto: IHARA/Divulgação
O controle das plantas daninhas também deve integrar o planejamento da safra. A competição por água, luz e nutrientes pode se tornar ainda mais relevante durante períodos de estresse climático, quando os recursos disponíveis para o cafeeiro são limitados.
As invasoras estão presentes em mais de 50% das áreas agricultáveis no Brasil e, dependendo da espécie, do nível de infestação e da duração da competição, o potencial de perdas pode ultrapassar 90%.
O manejo deve considerar as plantas presentes na área, o histórico de resistência, as condições do solo e o estágio da lavoura. A adoção integrada de medidas preventivas, culturais, mecânicas e químicas pode ampliar a eficiência do controle e evitar que as invasoras comprometam o desenvolvimento do cafeeiro.
Para Gianasi, as decisões precisam ser tomadas de maneira estratégica, com base nas condições efetivamente encontradas no campo.
“Apesar das incertezas, o cafeicultor pode reduzir riscos com planejamento e monitoramento. Acompanhar as condições de chuva, temperatura e sanidade das plantas permitirá ajustar o manejo conforme a necessidade de cada lavoura. Além disso, é importante investir em tecnologias eficientes para reduzir os impactos e preservar o potencial produtivo e qualitativo do café na safra de 2027”, conclui.








