Especialistas alertam que o aumento da temperatura da água exige mudanças no manejo nutricional e no monitoramento da qualidade da água para preservar o desempenho produtivo e reduzir o risco de mortalidade nos cultivos
(Foto: MCassab/Divulgação)
A intensificação do El Niño até o início de 2027 deve impor novos desafios à piscicultura brasileira.
Com probabilidade superior a 90% de permanecer ativo nos próximos meses e possibilidade de atingir a categoria de “muito forte” entre novembro deste ano e janeiro de 2027, segundo monitoramentos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o fenômeno provoca o aquecimento da água dos viveiros, reduz a disponibilidade de oxigênio e altera o comportamento alimentar dos peixes.
Especialistas alertam que o aumento da temperatura da água exige mudanças no manejo nutricional e no monitoramento da qualidade da água para preservar o desempenho produtivo e reduzir o risco de mortalidade nos cultivos.
O zootecnista Cleber Daniel Almeida, explica que o aquecimento da água reduz a disponibilidade de oxigênio nos viveiros, alterando o comportamento dos peixes e exigindo adaptações no manejo alimentar para preservar a saúde e a produtividade dos animais.
Os peixes são animais pecilotérmicos, ou seja, sua temperatura corporal varia de acordo com a temperatura do ambiente. Quando a água ultrapassa a faixa ideal para cada espécie, os animais entram em estresse térmico e passam a priorizar funções vitais, reduzindo naturalmente o consumo de ração.
Além disso, a água aquecida retém menos oxigênio dissolvido. Ao mesmo tempo, o metabolismo dos peixes se acelera, aumentando a demanda pelo gás justamente quando ele se torna menos disponível.
“Quando o oxigênio dissolvido diminui, o peixe consome menos porque a digestão também consome oxigênio. Mesmo que ele continue ingerindo ração, o aproveitamento dos nutrientes fica comprometido, já que boa parte da energia passa a ser direcionada para manter o organismo funcionando diante do estresse térmico. Isso afeta o ganho de peso, a conversão alimentar e o desempenho do lote”, explica Almeida.
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Ração em horários mais frescos
O calor prolongado também favorece a proliferação de bactérias e outros microrganismos, elevando o risco de doenças e comprometendo a qualidade da água.
A situação se torna ainda mais crítica durante a madrugada, período em que os níveis de oxigênio dissolvido costumam atingir os menores valores do dia, aumentando a possibilidade de ocorrência de hipóxia — deficiência de oxigênio nos tecidos — e mortalidade dos peixes.
Diante desse cenário, especialistas recomendam adaptar o manejo às novas condições ambientais.
Entre as medidas estão o fornecimento de ração nos horários mais frescos do dia, o fracionamento da alimentação, a adoção de dietas que favoreçam o melhor aproveitamento dos nutrientes e o monitoramento frequente da temperatura e dos níveis de oxigênio da água. Em situações de maior estresse térmico, o uso de aeradores também pode contribuir para manter condições adequadas ao desenvolvimento dos animais.
“Durante o El Niño, a água muda e os peixes sentem esses efeitos. Por isso, o produtor precisa ajustar alguns manejos, como oferecer a ração nos horários mais frescos do dia, dividir melhor a alimentação e escolher dietas que ajudam os animais a aproveitar melhor os nutrientes. Também é importante acompanhar de perto a qualidade da água, principalmente a temperatura e o nível de oxigênio, além de utilizar recursos como aeradores quando necessário”, orienta o zootecnista.








