A importância da qualidade da água no sistema de cultivo (Foto: Divulgação)
A aquicultura de precisão depende da integração eficiente entre nutrição, manejo e qualidade da água. Em sistemas de produção de peixes e camarões, a nutrição representa o principal custo operacional, constituindo a principal fonte de nutrientes que influenciam diretamente nas características físicas, químicas, e biológicas do ambiente aquático. Dessa forma, a escolha adequada dos ingredientes, a formulação balanceada das dietas e o correto manejo alimentar são fundamentais para maximizar o desempenho zootécnico dos animais e, simultaneamente, manter a qualidade da água.
“A relação entre nutrição e qualidade da água existe porque apenas parte dos nutrientes fornecidos na ração é metabolizada e convertida em crescimento animal. Nutrientes não aproveitados, especialmente proteínas, fósforo e matéria orgânica, são excretados pelos animais ou permanecem no ambiente na forma de sobras de ração. Esses resíduos sofrem decomposição microbiológica, consumindo oxigênio dissolvido e liberando compostos potencialmente tóxicos, como amônia e nitrito”, explica o doutor em zootecnia com ênfase em produção animal e aquicultura, Gustavo Julio.

A aquicultura de precisão depende da integração eficiente entre nutrição, manejo e qualidade da água. Foto: mariakray/Pixabay
Nesse contexto, o o especialista cita abaixo alguns dos parâmetros de qualidade da água mais influenciados pela nutrição:
Oxigênio dissolvido
Entre os principais parâmetros de qualidade da água influenciados pela nutrição, destaca-se o oxigênio dissolvido. O arraçoamento excessivo aumenta a quantidade de matéria orgânica disponível para decomposição, elevando a demanda bioquímica de oxigênio (DBO). “Como consequência, podem ocorrer reduções nos níveis de oxigênio, principalmente durante a madrugada, causando estresse, redução do crescimento, aumento da suscetibilidade a doenças e, em casos extremos, mortalidade em massa”, explica.
Amônia e nitrito
De acordo com o especialista, além do oxigênio dissolvido, o nitrito também merece atenção especial. Durante o processo de nitrificação, bactérias convertem a amônia em nitrito e, posteriormente, em nitrato. Quando ocorre desequilíbrio microbiológico ou deficiência na capacidade de biofiltragem do sistema, a concentração de nitrito pode aumentar.
“Em peixes, esse composto interfere no transporte de oxigênio pelo sangue, causando a chamada “doença do sangue marrom”. Em camarões, níveis elevados de nitrito também podem reduzir o crescimento e aumentar a mortalidade” detalha.
Fósforo e eutrofização
Segundo Julio, o fósforo é outro nutriente fortemente relacionado à qualidade da água. Ingredientes vegetais frequentemente apresentam parte do fósforo na forma de fitato, pouco disponível para muitas espécies aquícolas. Como resultado, grande parte desse mineral é eliminada nas fezes. O acúmulo de fósforo favorece a eutrofização dos viveiros e reservatórios, estimulando a proliferação excessiva de fitoplâncton e aumentando as oscilações diárias de oxigênio e pH.
“Em dietas com alta concentração de fitato, o recomendado é utilizar a enzima fitase, que auxilia na quebra dessa molécula e melhora a digestibilidade do fósforo presente no fitato”, orienta.

Dentro do sistema de cultivo, o pH da água também sofre influência indireta da nutrição. Foto: Magnific
pH
De acordo com o zootecnista, dentro do sistema de cultivo, todos os parâmetros limnológicos estão interligados, e o pH da água também sofre influência indireta da nutrição. O aumento da concentração de matéria orgânica e da atividade microbiana altera os processos de trocas gasosas e fotossíntese no ambiente.
“Florações excessivas de algas, frequentemente estimuladas pelo excesso de nutrientes, podem causar grandes variações de pH ao longo do dia. Essas oscilações afetam diretamente o metabolismo dos peixes e camarões e aumentam a toxicidade da amônia”, complementa.
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Estratégias nutricionais para reduzir o impacto na água
O especialista explica que, em sistemas intensivos e superintensivos de cultivo, o uso de dietas altamente digestíveis é uma das estratégias mais eficientes para reduzir os impactos ambientais. Entre as principais práticas estão a utilização de ingredientes de alta digestibilidade, a suplementação adequada de aminoácidos sintéticos, o uso de enzimas, como a fitase, e a otimização da relação entre proteína e energia.
“Estas medidas favorecem o melhor aproveitamento dos nutrientes pelos animais e contribuem para reduzir a excreção de compostos nitrogenados e fosfatados na água. Além disso, aditivos funcionais, como probióticos, prebióticos e simbióticos, podem contribuir para a saúde intestinal e para a qualidade da água, ao favorecerem o equilíbrio da microbiota, melhorarem a digestão e a absorção dos nutrientes e auxiliarem no controle dos compostos nitrogenados presentes no ambiente de cultivo”, afirma Julio.

O zootecnista, Gustavo Julio. Foto: Divulgação
Para ele, além dessas medidas, a frequência e o manejo alimentar também exercem papel fundamental. Fornecer pequenas quantidades de ração várias vezes ao dia favorece o maior aproveitamento dos nutrientes e reduz perdas. Tecnologias como alimentadores automáticos, sondas multiparâmetro, bandejas de alimentação para camarões e monitoramento do comportamento alimentar auxiliam na diminuição de sobras e melhoram a eficiência alimentar.
“A nutrição e a qualidade da água são fatores inseparáveis na aquicultura de precisão. Dietas balanceadas e manejadas corretamente não apenas promovem melhor desempenho zootécnico, mas também contribuem para a manutenção de um ambiente estável e saudável. O sucesso da produção de peixes e camarões depende de uma visão integrada, na qual alimentação, metabolismo animal, microbiologia e manejo da água atuam de forma conjunta para garantir sustentabilidade, rentabilidade e bem-estar dos organismos cultivados”, conclui o zootecnista.








