Região Sudeste ainda concentra a maioria das agtechs (startups do setor agropecuário), mas a participação do Norte, Nordeste e Centro-Oeste cresceu
A concentração geográfica de agtechs começa a diminuir no Brasil por causa do avanço no crescimento do número de empresas emergentes de base tecnológica no setor agropecuário em regiões importantes da produção. A conclusão é da sexta edição do Radar Agtech Brasil.
O levantamento feito pela Embrapa, SP Ventures e Homo Ludens referente ao ano de 2025 retrata o ecossistema de inovação no agro, com foco em ambientes de inovação, startups e investidores.

As agtechs brasileiras estão predominantemente nos segmentos dentro da fazenda (41,1%) e depois da fazenda (40,5%)
Os dados mostram que o Sul ultrapassou o Sudeste, tornando-se a região com maior número de ambientes de inovação. Dos 390 ambientes mapeados no País, 37,18% estão no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e 32,82% em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo.
Aurélio Favarin, coordenador do Radar Agtech e analista da Embrapa aponta que o destaque é o Rio Grande do Sul, com um aumento expressivo no número de incubadoras.
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Incentivo à inovação
De acordo com ele, os dados mostram uma clara atuação do governo estadual em incentivo à inovação. “Incubadoras trabalham na fase inicial do processo de inovação. Faz sentido que um estado, pensando no desenvolvimento de um ecossistema, comece pelas incubadoras. A maior parte está vinculada às universidades estaduais. Há um planejamento para isso, para criar condições para que as startups iniciem”, analisa Favarin.
Já a Região Sudeste, segundo o coordenador do Radar Agtech, possui maior número de hubs, aceleradoras e ecossistemas com governança, o que mostra uma fase mais avançada de maturidade em relação à Região Sul. “Enquanto uma está focada na aceleração e no desenvolvimento de negócios, a outra enfoca as etapas iniciais da formação das startups”, informa.

Em evento realizado em 2024 pelo hub de startups da SNA, na sede da entidade, ao lado do CEO do SNASH Leonardo Alvarenga, a presidente da Embrapa Silvia ressaltou a importância da união de esforços para fortalecer os ecossistemas de inovação Foto Cristina Baran/A Lavoura
Desaceleração e maturidade
Em relação ao número, o levantamento contabilizou 2.075 agtechs em 2025 no Brasil, 5% a mais do que no ano anterior. O número indica uma desaceleração no crescimento quando comparada com a série histórica iniciada em 2019. De acordo com os autores do levantamento, o crescimento moderado indica maior maturidade do ecossistema e consolidação de modelos de negócio.
Vitor Mondo, pesquisador da Embrapa revela que, entre 2019 e 2021, houve um “boom” de ambientes de inovação e fundos de investimento, o que contribuiu para um grande aumento na quantidade de agtechs.
“Com o tempo essas iniciativas vão se acomodando, com permanência daquelas mais bem estruturadas. O ecossistema continua relevante, mas com um crescimento menos expressivo. É um comportamento esperado e que mostra a maturidade do ecossistema de inovação”, analisa o pesquisador.
Ele completa que as regiões Sudeste e Sul concentram 79% das agtechs, com 55,2% e 23,7%, respectivamente. “Porém, os dados mostram que, apesar da concentração histórica, há crescimento proporcional das agtechs nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, em uma gradual expansão geográfica do ecossistema, aproximando-se de áreas importantes para a produção agropecuária”, revela o especialista.
Mondo conta que, em 2019, as regiões Norte e Nordeste juntas tinham apenas 5% das agtechs. “Atualmente a Região Norte tem 7,6% e a Nordeste 6,5%. A Região Centro-Oeste tem 7,1%”.
Ele revela que, de acordo com os dados, em 2025 o estado do Amazonas contava com 17 agtechs, Goiás com 15 e Mato Grosso com 14. Minas Gerais e Rondônia, que respectivamente dispõem de 13, foram os estados que mais ganharam agtechs. Registraram redução no número de agtechs Rio Grande do Sul (menos 27), Tocantins e Distrito Federal (menos 7) e São Paulo (menos 6).
“Essa tendência ocorre ao mesmo tempo em que cresce a proporção das agtechs atuando dentro das fazendas. Isso é um sinal positivo, de que as empresas estão em um nível de maturidade no qual já conseguem acessar diretamente o produtor rural”, pontua Mondo.
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Áreas de atuação
As agtechs brasileiras estão predominantemente nos segmentos dentro da fazenda (41,1%) e depois da fazenda (40,5%). A categoria “Alimentos inovadores e novas tendências alimentares” lidera o ranking das áreas de atuação, com 15% das agtechs. “Sistemas de gestão da propriedade rural” vem em segundo lugar com 8%, e “Plataformas integradoras de sistemas, soluções e dados” aparece em terceiro com 7,5% das startups analisadas.
Favarin sublinha que a inteligência artificial é amplamente disseminada entre as agtechs — 83% das empresas utilizam IA em seus processos ou produtos, e 35% delas têm a IA como núcleo da proposta de valor. “Esses dados sinalizam que a tecnologia digital deixou de ser diferencial pontual e passou a constituir camada estrutural do modelo de negócio”, afirma.

O presidente da SNA, Antonio Alvarenga apresentou as instalações do SNASH, Hub de Inovação da instituição à presidente da Embrapa, Silvia Massruhá Foto Cristina Baran/A Lavoura
Inovação aberta
Além de trazer os dados do levantamento sobre os ambientes de inovação, agtechs e investidores, o Radar Agtech Brasil elenca casos de inovação aberta no setor agropecuário com atuação da Embrapa e uma experiência no Espírito Santo como exemplo de ação do poder público no incentivo local à inovação.
Neste ano, pela primeira vez, a versão em inglês será lançada junto à edição em português. Outra novidade é a disponibilização do conteúdo também em espanhol.
Todo o material pode ser acessado gratuitamente em radaragtech.com.br/
Evolução do ecossistema de inovação
O Radar Agtech Brasil começou a ser produzido em 2019. De lá para cá, a publicação evoluiu metodologicamente e se consolidou como referência para entender o ecossistema de inovação no setor agropecuário.
A presidente da Embrapa e uma das responsáveis pelo início do Radar Agtech, quando ocupava a chefia-geral da Embrapa Agricultura Digital (SP), Silvia Massruhá, explica que o Radar Agtech Brasil funciona como um mapa vivo da inovação no campo brasileiro.
“Ele revela talentos, conecta ideias e orienta investimentos, transformando dados em oportunidades concretas para o agro. Ao integrar startups, ciência e mercado, a Embrapa amplia seu papel como ponte entre o conhecimento e a transformação, impulsionando um ecossistema cada vez mais dinâmico, digital e sustentável para o País”, ressalta a presidente da estatal.
Silvia completa quem, “inicialmente focada em dados quantitativos, hoje a publicação traz dados qualitativos sobre startups, ambientes de inovação e investidores e analisa essas informações. A periodicidade do levantamento também ajuda a entender a evolução do ecossistema”.

O Radar Agtech Brasil funciona como um mapa vivo da inovação no campo brasileiro Foto Embrapa Agricultura Digital/Divulgação
Próximo ciclo
Luiz Sakuda, co-fundador e sócio da Homo Ludens Inovação e Conhecimento revela que o próximo ciclo do ecossistema dependerá menos da expansão numérica e mais da qualidade das conexões entre tecnologia, capital, governança e produção. “Nesse processo, o Radar Agtech atua não apenas como base de dados, mas como plataforma de produção contínua de inteligência estratégica e de articulação institucional”, afirma.
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Mudança no perfil
Pedro Jábali da SP Ventures enfatiza também que as transformações retratadas a cada edição do Radar Agtech Brasil permitem entender, por exemplo, a mudança no perfil dos investimentos no setor.
“Acreditamos que o mercado está, de fato, vivendo um novo momento. Nos últimos dois ou três anos, o ambiente para captação de recursos ficou mais desafiador, o que exigiu muita resiliência dos empreendedores. Como consequência, vemos hoje startups sendo construídas com uma mentalidade mais focada em eficiência e rentabilidade desde os estágios iniciais. Esse movimento reflete uma maturidade maior do ecossistema e uma adaptação natural a um cenário de capital mais seletivo”, analisa o empresário.
Parceria
A consolidação do levantamento rendeu uma parceria com o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) para a elaboração do Radar Agtech América Latina e Caribe. O levantamento está sendo executado e será lançado em junho.








