Um encontro entre brasileiros e europeus marcou o “Seminário Sem Desperdício – Diálogos Brasil e União Europeia”, realizado no dia 31 de outubro, no Rio de Janeiro. Voltado para um público seleto de convidados, entre eles a equipe da Revista A Lavoura, o evento serviu para discutir os gargalos e apresentar soluções para o desperdício e perdas de alimentos, que vão do campo ao varejo até chegar à mesa dos consumidores.

Em torno de um terço da produção global de alimentos vai parar no lixo, enquanto milhares de pessoas ainda sofrem com a falta de comida. Outro dado alarmante, inclusive, deve tornar 2017 um ano marcado pelo aumento desse problema no mundo, após 15 anos.

Números da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) indicam que cresceu o número de famintos no planeta, ultrapassando a marca dos 815 milhões.

Os principais vilões das perdas e desperdícios são a armazenagem e o transporte inadequados, além dos maus hábitos dos consumidores.

“Nos países mais desenvolvidos, o comportamento da população é o principal fator, enquanto nos países mais pobres a armazenagem e o transporte têm peso maior”, revelou o representante da FAO no brasil, Alan Bojanic, durante sua palestra.

Debate

Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), organizadora do encontro no Rio, o Seminário Sem Desperdício faz parte do projeto aprovado pela plataforma “diálogos setoriais”. Trata-se de uma parceria estratégica entre UE e Brasil com o objetivo de favorecer o intercâmbio de conhecimentos, experiências e melhores práticas sobre temas de interesse mútuo.

Coordenado pela estatal brasileira, em parceria com a WWF-Brasil, esse projeto foi enquadrado na categoria “Top-down”, por se tratar de uma área prioritária e de diálogo político de alto nível entre os governos envolvidos.

Compromissos

Durante o encontro, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) e a Associação Brasileira de Embalagens (Abre) anunciaram seus respectivos compromissos, no sentido de fortalecer o engajamento desses dois setores, em torno do combate ao desperdício e às perdas de alimentos no País.

“O varejo tem o papel de se comunicar tanto com o produtor rural quanto com o consumidor urbano. Somos um elo importante no combate ao desperdício e a convenção da Abras, em 2018, pode abrir espaço para os parceiros envolvidos no tema da redução do desperdício”, disse Marcio Milan, superintendente da Abras, em sua palestra.

Conforme a Embrapa, a preocupação dos governos com a má utilização dos alimentos ainda é recente, considerando que boa parte dos programas, que visa ao combate dessa prática, surgiu há menos de uma década. A plataforma da Comunidade Europeia sobre desperdício foi criada em 2016.

Frutas, legumes e verduras “feias”

A rejeição de alimentos com aparências incomuns – conhecidos como frutas, legumes e verduras “feias” – foi apontada como um dos principais “maus hábitos” dos consumidores. nos últimos anos, a FAO tem incentivado o consumo desses alimentos, mesmo amassados ou com aspectos estranhos, principalmente porque eles não perdem, por causa disso, seus altos valores nutricionais.

No Rio de Janeiro, as cadeias de supermercados Superprix e Zona Sul também aderiram à causa. Na primeira rede, a campanha “As Aparências Enganam” ajuda crianças e jovens de comunidades locais, disponibilizando beterraba, batata doce, inhame, chuchu e cenoura de aparência incomum, mas que mantêm seus valores nutritivos, com 30% de desconto. Já o Zona Sul, como parte da iniciativa “Zona Sul Sustentável”, utiliza os alimentos “feios“ no refeitório de seus funcionários.

Outro destaque do Seminário Sem Desperdício foi o Carrefour, que lançou recentemente a linha “Únicos”. Ao todo são dez itens – abobrinha italiana, batata, berinjela, beterraba, cebola, cenoura, chuchu, laranja, maçã, pepino e tomate – vendidos mais baratos, às sextas-feiras, em dois locais de São Paulo (SP) e pretende estender esta campanha, em breve, para outras unidades da rede espelhadas pelo país.

 

Empoderamento do consumidor

Analista do Programa Agricultura e Alimentos da WWF-Brasil, Carolina Siqueira comentou, em sua palestra, que “quando desperdiçamos alimentos, estamos desperdiçando recursos naturais”.

Em sua opinião, portanto, “empoderar o consumidor é importante para que ele se torne ator desse processo contínuo”, especialmente porque é exatamente ele quem mais joga fora os alimentos (28%), ao lado da produção agrícola, que alcança o mesmo percentual em perdas, ainda no campo, segundo dados da FAO.

Colheita

“Quase 18% do que o brasil produz de cítricos de mesa, laranja, limão e tangerina são desperdiçados na hora da colheita”, informou Márcio Milan, superintendente da Abras.

Por causa desse cenário, o segmento supermercadista tem se preocupado com o assunto, até porque, atualmente, cerca de 60% das cadeias possuem uma área de prevenção de perdas.

Seminário Sem Desperdício – Diálogos Brasil e união Europeia