Concessão outorgada pelo INPI foi publicada em 2017 e, desde então, cooperativas integrantes da Central Juruá, no Estado do Acre, podem usar o selo e registrar em seus rótulos de farinha de mandioca com a expressão “Indicação de Procedência Cruzeiro do Sul”

“Ela é a referência do município. Expõe de forma orgulhosa e massificada seu nome na regional, no Estado e no País. De sabor diferenciado, levemente adocicado é a mais requerida, é a mais apreciada! Grossa, peneirada, com coco ou castanha, amarelinha, branca, crocante ou fina é a companheira inseparável do velho e bom açaí, do pirão e da caldeirada de mandin. Ela é a melhor farinha de mandioca, ela é a distinguida farinha de Cruzeiro do Sul.”

Os elogios vêm de Murielly Nóbrega, analista e gestora do Projeto “Cadeia de Valor da Cadeia da Mandiocultura” do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Acre (Sebrae-AC), sobre a farinha de mandioca produzida no Estado do Acre, a primeira do País a obter a certificação de Indicação Geográfica, segundo publicação da própria instituição.

A concessão outorgada pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) foi publicada em 22 de agosto de 2017 e, desde então, cooperativas integrantes da Central Juruá podem usar o selo e registrar nos rótulos de sua farinha, a expressão “Indicação de Procedência Cruzeiro do Sul”.

Com esse reconhecimento, o Brasil passou a ter a primeira Indicação Geográfica (IG) para o produto “farinha de mandioca” e o Estado do Acre o primeiro produto com concessão desse registro.

Mais de 100 anos de história

A farinha de mandioca certificada é produzida, tradicionalmente, nas conhecidas e populares farinhadas do Vale do Juruá (AC), há mais de 100 anos. Foto: Divulgação Sebrae-AC

De acordo com o Sebrae, a farinha certificada é produzida tradicionalmente nas conhecidas e populares farinhadas do Vale do Juruá, há mais de 100 anos. Esse alimento, além de grande valor cultural vinculado ao conhecimento do “saber fazer”, herdado por gerações sucessivas, apresenta qualidade diferenciada, constituindo-se como uma das principais fontes energéticas na alimentação da população local.

Processada de forma artesanal em pequenas unidades, conhecidas como casas de farinha, movimenta uma importante cadeia de valor da agricultura no Vale do Juruá e é um dos principais produtos agrícola do Estado com utilização de matéria-prima e mão de obra exclusivamente da agricultura familiar.

Qualificada na modalidade IG de Indicação de Procedência – a IP de Cruzeiro do Sul – possui uma área geográfica de 1.042 quilômetros quadrados, contemplando região oeste do Acre, abrangendo os municípios de Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Cruzeiro do Sul, Porto Walter e Marechal Thaumaturgo, para as cultivares Branquinha, Caboquinha, Mansa-e-Brava, Cumaru, Curimêm, Chico Anjo e Mulatinha.

Trabalho árduo

Conforme o Sebrae, o processo do reconhecimento formal da IP, que valoriza e identifica a histórica região produtora de Farinha de Mandioca do Vale do Juruá, tradicionalmente conhecida como Farinha de Cruzeiro do Sul, exigiu a construção de um dossiê técnico, o qual demonstrava especificamente a delimitação geográfica, as normas e condições específicas para a padronização da produção da farinha, sistemas de controle, criação do conselho regulador, incluindo ainda comprovação do renome da região como produtora de farinha de mandioca.

Todo este processo, de acordo com o Sebrae, “foi uma construção coletiva dos produtores, gestores de cooperativas com o apoio técnico do Sebrae, Embrapa, Superintendência Federal da Agricultura (SFA/Mapa) e Governo do Estado através da Secretaria Estadual de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar (Seaprof)”.

O Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas atuou diretamente em todas as etapas de construção do processo de solicitação da IP de Cruzeiro do Sul, por meio do projeto Cadeia de Valor da Mandiocultura, à concessão do registro de reconhecimento de Indicação Geográfica.

A instituição também “conferiu a proteção do conhecimento tradicional, garantia pela qualidade diferenciada vinculada ao local de produção e um legado para o território, reflete ainda, a valorização, o reconhecimento e a recompensa aos agricultores familiares que fizeram deste produto a sua identidade, ou seja, emite a plena certeza que agregado ali, temos histórias, pessoas, saber fazer, qualidade e compromisso”, afirma a diretora técnica do Sebrae Sídia Gomes.

Pesquisadora da Embrapa Acre, Joana Souza, que atuou em estudos sobre a qualidade da farinha de Cruzeiro do Sul e aspectos históricos relacionados à sua notoriedade, que integraram o dossiê para pedido da IG, afirmou, na ocasião da conquista da IG, que esse produto se caracteriza por uma produção artesanal, baseada em práticas tradicionais que vêm passando de geração para geração há mais de 100 anos.

“O modo de fazer particular, traduzido no zelo e dedicação dos produtores na realização das diferentes etapas do processo de elaboração, atribuem sabor, crocância e qualidade próprias do produto. A Indicação Geográfica funciona como uma marca e vem atestar um conjunto de valores intrínsecos a esse produto específico do Juruá, com benefícios múltiplos. Para os agricultores, significa o reconhecimento do seu produto no mercado; para a região, sinaliza a chance de desenvolvimento; para o consumidor é a garantia de contar com um produto de excelência, genuíno da agricultura familiar amazônica e com procedência acreana reconhecida”, diz Joana.

Origem

A farinha de mandioca é processada de forma artesanal, utilizando matéria-prima e mão-de-obra provenientes da agricultura familiar. Foto: Divulgação Sebrae-AC

A mandioca é originária da região amazônica, sendo cultivada na América Tropical há mais de cinco mil anos. Já a produção de farinha foi introduzida na região por famílias de imigrantes nordestinos, no início do século 20. Obtém-se, então, o registro da criação da Associação Agrícola do Juruá, que reuniu produtores rurais, como os que produziam farinha de mandioca em Cruzeiro do Sul.

A migração para o Acre foi marcada por pessoas que atuaram como seringueiros, aproveitando do ciclo da borracha. Com a queda do preço da borracha e visando preservar as terras, foram desenvolvidas e consolidadas outras culturas na região, como a da farinha de mandioca.

Atualmente, no Estado do Acre, a farinha de mandioca é processada de forma artesanal, utilizando matéria-prima e mão-de-obra provenientes da agricultura familiar. A qualidade da farinha e a segurança do alimento são destaques, fruto do trabalho dos produtores juntamente com as entidades de apoio.

Leia outras informações sobre a IP Cruzeiro do Sul pelo link do Sebrae-AC: datasebrae.com.br/ig-cruzeiro-do-sul.

Fontes: Sebrae Nacional e Sebrae-AC