A integrante da Comissão Internacional da SNA e sócia do escritório Francisco Rezek Advogados, Beyla Esther Fellous*, afirma que o Brasil preferiu a inércia a sentar-se à mesa de negociação com os Estados Unidos para discutir o tarifaço. Na imagem, o presidente Donald Trump
(Foto: White House)
A ordem internacional sempre foi um processo dinâmico, exigindo adaptação constante. Agora não seria diferente. O tarifaço do governo Trump não é exclusividade brasileira, ao contrário, aplica-se, praticamente, a todas as nações do globo, independentemente da proximidade ou distância geográfica, política ou ideológica. Sua natureza não discriminatória indica que não houve, nem poderia haver, influência política de quem quer que seja em sua imposição mundo afora.
Interessante observar as reações das diferentes nações atingidas e os resultados obtidos, proporcionais a seus esforços. O tarifaço não passa de um convite à mesa de negociação. Simples assim.
A Inglaterra imediatamente compreendeu a inusitada imposição e passou a negociar. O primeiro-ministro Keir Starmer adotou postura pragmática. O resultado foi a redução das tarifas e até a isenção em alguns produtos. A Argentina seguiu o mesmo caminho e seus produtos agrícolas alcançarão o mercado norte americano em condições vantajosas em relação ao vizinho brasileiro.
A União europeia não perdeu tempo e firmou uma “Declaração Conjunta UE-EUA” e um acordo comercial com salvaguardas, em nome de 27 países. Recentemente aprovado pelo Parlamento europeu, o acordo garante a estabilidade no comércio transatlântico. Fez do limão siciliano, uma limonada gourmet refrescante para o escaldante verão europeu.
O Chile, naturalmente aberto ao exterior, há anos, negociou concomitantemente, acordos de livre comércio, tanto com a União europeia quanto com os Estados Unidos, fazendo bom uso do poder de atratividade latino-americano.
O Mercosul poderia ter se inspirado na abertura comercial com a União europeia e oferecer um contraponto à altura ao vizinho norte-americano, a fim de diversificar parcerias estratégicas.
Quem ousou retrucar, como no caso do vizinho canadense, viu as tarifas escalarem para outro nível, fazendo a própria China recuar em suas intenções de resistência ao poderio americano.
A arte de negociar, do termo latim negotium, a junção de nec = não, ao otium = ócio, ou seja, ao contrário do ócio, exige ação, inciativa, vontade de dar continuidade às tratativas, nada mais trivial e natural ao comércio internacional. A maioria dos países escolheu esse caminho pragmático e os resultados positivos alastram-se mundo afora.
O Brasil preferiu o ócio e deixou à iniciativa privada a atuação para minimizar os prejuízos da inércia estatal. Negociar não significa de forma alguma abrir mão do que é relevante, mas ao contrário, é fazer escolhas inteligentes, refletir, ofertar algo em troca, movimentar-se e seguir no jogo pelo bem comum da nação.
*Beyla Fellous é integrante da Comissão Internacional, Mestre pela USP. Mestre e Doutora pela Univ. de Paris I e III, Sorbonne, Paris. Sócia da Francisco Rezek Advogados.








