O setor de flores e plantas ornamentais é, atualmente, o segmento que mais emprega mulheres no Brasil (Foto: Raíssa Swalmen, fornecida pela produtora)
No Dia da Mulher, celebrado em 08 de março, falar de floricultura, não é apenas lembrar que elas gostam – e merecem – ser presenteadas com flores: é falar de um agro que emprega, desenvolve e valoriza o trabalho feminino de forma concreta, cotidiana e transformadora. No agronegócio, a floricultura registra mais da metade dos empregos oferecidos ocupados por mulheres, em toda a cadeia de produção, distribuição e vendas, de acordo com estudos realizados em conjunto com Cepea/Esalq-USP/Ibraflor. Para o setor da floricultura nacional, a data representa 8% das vendas anuais.
O setor de flores e plantas ornamentais é hoje o segmento do agronegócio que mais emprega mulheres no Brasil, com cerca de 56% da força de trabalho, chegando a ultrapassar 60% em algumas regiões, segundo dados de pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor), em conjunto com o Cepea/Esalq-USP. Por ser intensiva em mão de obra e oferecer atuação em diferentes elos da cadeia, a floricultura criou um ambiente naturalmente favorável à permanência feminina.

Joannes Adrianus Steltenpool e a produtora de flores e diretora de mercado do Ibraflor, Raquel Steltenpool. Foto fornecida pela produtora
O protagonismo das mulheres nasce da própria essência da floricultura, que combina técnica, sensibilidade, inovação e relações humanas intensas. Assim, o Dia da Mulher não é importante apenas por representar 8% das vendas anuais para a floricultura nacional, mas para também mostrar a força da mulher neste setor. Este ano as vendas devem ser entre 5 e 6% na comparação com 2025.
“Além de gerar empregos, o setor permite que muitas mulheres conquistem autonomia financeira, fortaleçam a permanência das famílias no campo e assumam papéis estratégicos dentro e fora da porteira”, explica a produtora de flores e diretora de mercado do Ibraflor, Raquel Steltenpool.
Lideranças femininas
Filhas, esposas, produtoras e cooperadas da Cooperativa Veiling Holambra (CVH), localizada em Santo Antônio da Posse (SP), estão transformando o cooperativismo no setor de flores e plantas ornamentais. Unidas pelo propósito de crescer juntas, elas representam e consolidam um movimento que alia produção, conhecimento e liderança feminina para fortalecer seus protagonismos e impulsionar o crescimento no agro.A iniciativa começou em dezembro de 2019, quando uma das cooperativas mais tradicionais do país convidou produtoras para discutir a criação de um Comitê de Mulheres.

Raíssa Swalmen, coordenadora do Comite de Mulheres. Foto fornecida pela produtora
A proposta plantou a primeira semente de um projeto estruturado para ampliar a participação feminina na cooperativa. Oficialmente inaugurado em março de 2021, o grupo cresceu de forma consistente e hoje reúne cerca de 140 mulheres. Com encontros periódicos, capacitações, visitas técnicas e participação ativa em eventos nacionais do agro e do cooperativismo, o Comitê promove desenvolvimento pessoal e profissional, incentiva a formação de lideranças femininas e amplia o engajamento nas assembleias e decisões estratégicas.
A iniciativa contribui para a construção de um processo natural de ocupação de espaços pelas mulheres dentro da cooperativa, reforçando que o crescimento conjunto fortalece todo o setor. “Mais do que um espaço de troca, o Comitê constrói bases sólidas para um processo natural de ocupação de espaços estratégicos pelas mulheres dentro da cooperativa. Ao incentivar conhecimento, integração e protagonismo, o grupo contribui diretamente para o crescimento sustentável da cooperativa e do setor como um todo”, explica a produtora e coordenadora do Comitê de Mulheres, Raíssa Swalmen.
Participação efetiva
Cerca de 45% dos cooperados da Cooperflora são mulheres ou contam com mulheres à frente da gestão de seus sítios, um índice que demonstra a presença expressiva e estratégica da liderança feminina. Mais do que participação, trata-se de protagonismo. As mulheres atuam diretamente na administração das propriedades, na tomada de decisões e na condução das equipes.

A cooperada Mariela Grisotto, do Sítio Reijers Alegre. Foto: Foto fornecida pela produtora
Na sede da Cooperflora, quase 50% do quadro de colaboradores é composto por mulheres, além das lideranças femininas ocupando cargos estratégicos. Entre os exemplos que traduzem essa atuação está a cooperada Mariela Grisotto, do Sítio Reijers Alegre, que participa ativamente da gestão e conduz uma equipe composta majoritariamente por mulheres. Outro destaque importante é a sócia fundadora Dorian Reijers, do Sítio Flores da Terra, que permanece atuante e representa a base histórica da participação feminina na construção e no desenvolvimento da Cooperflora.
Empreendedorismo feminino na produção de rosas no Ceará
Lucivanda Fernandes Siqueira, produtora de rosas de Ubajara (CE), foi a vencedora do 1º lugar na categoria “Pequena Propriedade” do 8º Prêmio Mulheres do Agro 2025. A gestora da Fazenda Santo Expedito, na Serra da Ibiapaba, destacou-se pela gestão inovadora, turismo rural e produção de rosas com foco em sustentabilidade e impacto social. A premiação, considerada uma das principais do setor no Brasil, valoriza mulheres que transformam o agronegócio por meio de práticas sustentáveis e gestão eficiente.
A produtora rural vem consolidando no Ceará, um dos mais inovadores modelos de integração entre agronegócio, sustentabilidade e economia criativa do Nordeste. Professora de formação e atualmente estudante de Gestão de Pessoas e Agronegócio, Lucivanda aplica princípios de educação, capacitação e valorização de equipe no dia a dia da operação e o seu trabalho tem inspirado mulheres empreendedoras e fortalecido o protagonismo feminino no campo.
Ao integrar produção agrícola de alta tecnologia, responsabilidade ambiental, turismo de experiência e economia sensorial, Lucivanda demonstra que é possível transformar uma flor em um modelo sustentável de desenvolvimento regional. A Fazenda Santo Expedito ampliou significativamente sua estrutura produtiva, hoje com 12 hectares de estufas e já com projeto de expansão para 16 hectares, Foram implantados três tanques de armazenamento, além de um sistema de captação de água da chuva com pavimentação intertravada que direciona o reaproveitamento hídrico.As pétalas de rosas que não seguem para comercialização são desidratadas para experiências sensoriais ou incorporadas ao composto orgânico, reforçando o compromisso com o ciclo produtivo consciente.

A gestora da Fazenda Santo Expedito e produtora de rosas, Lucivanda Fernandes Siqueira. Foto: Niere Jordan Horiz
Em 2019, Lucivanda lançou um passeio turístico imersivo pela propriedade para valorizar a cultura da rosa no Ceará. Com duração média de 50 minutos, a experiência apresenta estufas, variedades de rosas, técnicas de cultivo e práticas sustentáveis. O roteiro inclui vivências como montagem de buquê simbólico e escalda-pés com pétalas reaproveitadas. A iniciativa ampliou a percepção de valor da flor na região, fortaleceu o turismo rural da Ibiapaba e impulsionou a geração de emprego e renda local.
A partir da demanda dos visitantes por produtos que representassem a vivência na fazenda, foi criada a marca Aromas da Fazenda, especializada em fragrâncias, aromaterapia e cosméticos artesanais. Atualmente, as rosas cultivadas não são matéria-prima direta dos cosméticos — a empresa desenvolve estudos para ampliar o aproveitamento sustentável de espécies como a lavanda, também cultivada para apoiar a polinização da pitaya.
O restaurante da fazenda, inaugurado há três anos, valoriza ingredientes e receitas regionais, além de produzir geleias e licores com frutas locais. Com menos de um ano de funcionamento, já há projeto de ampliação da estrutura física para acompanhar o crescimento da visitação. Hoje, a operação conta com cerca de 170 colaboradores na fazenda e 8 na unidade urbana, além de duas lojas físicas — uma na propriedade rural e outra no município de Ubajara.
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Trabalho autoral de melhoramento genético
A trajetória de Tereza Alves Cordeiro de Campos, fundadora da Estância Vitória, é marcada por coragem, trabalho e espírito empreendedor. Nascida no interior do Paraná, ela cresceu em uma família simples, onde o trabalho sempre fez parte da vida desde muito cedo. Empreendeu em diferentes atividades comerciais, sempre guiada pelo desejo de garantir estabilidade para sua família e transformar ideias em projetos concretos.
Foi há mais de duas décadas que nasceu o sonho que mudaria sua história: criar uma produção própria de plantas ornamentais com identidade brasileira e variedades diferenciadas.A Estância Vitória está localizada na zona rural do município de Urupá (RO), a aproximadamente 400 km da capital, e consolidada como uma referência na produção e no desenvolvimento de plantas ornamentais tropicais no Brasil. Mesmo sem formação acadêmica na área, Tereza tinha um objetivo que era claro: desenvolver plantas únicas, adaptadas ao clima e ao mercado nacional, valorizando qualidade, inovação e beleza.

Tereza Alves Cordeiro de Campos, fundadora da Estância Vitória. Foto fornecida pela produtora
Hoje, seu pequeno projeto familiar se transformou em uma produção consolidada, com milhares de metros quadrados de estufas e reconhecimento no mercado ornamental. Atualmente a estância tem cerca de 40.000 metros quadrados de estufas, onde são produzidos Caladium, Aglaonema, Syngonium, Euphorbia e Dracena, além do desenvolvimento contínuo de novas variedades ornamentais, com um trabalho autoral de melhoramento genético realizado por meio de polinização manual. Todo o processo acontece dentro da própria produção, sem uso de laboratório externo, sendo baseado na observação prática, na experiência adquirida ao longo dos anos e na seleção criteriosa das plantas matrizes.
Ao longo dos anos, inúmeras novas variedades foram desenvolvidas. Após um processo rigoroso de seleção e testes em cultivo, parte dessas variedades é introduzida na produção em escala comercial com novos formatos e combinações de cores, plantas mais vigorosas, maior rusticidade, melhor adaptação ao cultivo e resistência natural a pragas e doenças. Seu mais recente melhoramento genético é um Caladium, da variedade Lança (mais resistente ao frio, mais compacta e ideal para cultivo em vasos), que está na produção em escala comercial e será lançado em setembro. Fornece mudas do seu portfólio para produtores de diversas regiões e vende os produtos finais diretamente ao mercado, por meio do ponto de vendas no Ceaflor (Jaguariuna, SP).








