A uva Syrah é o fio condutor da identidade da vinícola que fica a duas horas da cidade de São Paulo, onde o solo granítico aproxima o terroir paulista ao do norte de Rhône, na França (Foto: Tuca Reines/Guaspari)
A duas horas da capital paulista, em Espírito Santo do Pinhal (SP), uma vinícola desafia conceitos tradicionais da vitivinicultura brasileira ao transformar uma histórica região cafeeira em um mosaico agrícola de alta precisão.
Na Vinícola Guaspari, o cuidado com o campo começa no solo, passa pela ciência e chega à taça com uma identidade própria, construída hectare por hectare.
“O projeto sempre foi extremamente visionário, divisor de águas”, resume o CEO da Guaspari, Paulo Brammer, em enntrevista à Revista A Lavoura.
A aposta ousada começou ainda nos anos 2000, quando a família proprietária decidiu testar a produção de uvas viníferas em um território até então conhecido pelos cafés de alta qualidade.
O primeiro plantio ocorreu em 2006, após a chegada da família às fazendas Santa Inês e Santa Maria, em 2002. O mercado só conheceria os vinhos anos depois, em 2014, mas a base técnica já estava lançada.
Dupla poda e inversão de calendário

Vista aérea da vinícola que conta também com o cultivo de café, oliveiras e macadêmia. Foto: Guaspari/Divulgação
O grande diferencial da Guaspari foi a adoção da técnica da dupla poda, prática desenvolvida no Brasil e difundida por pesquisadores da Epamig.
Poucos lugares do mundo, ou quase nenhum lugar do mundo, aplicava essa prática”, afirma Brammer.
A metodologia inverte o ciclo produtivo da videira, deslocando a colheita do verão chuvoso para o inverno seco.
Em uma região onde “quase todo dia chove muito” no início do ano, a mudança foi decisiva.
“Quando chove em época de colheita, ela é propícia para problemas fúngicos, para diluição de fruta, ou seja, cai muita qualidade”, explica o CEO.
Com a colheita no inverno, a Guaspari passou a contar com “uma época mais seca e mais longa, com um bom potencial para a sanidade das frutas”.
Solo, altitude e microterroirs
A qualidade que chega à taça começa no solo. A supervisora de pesquisa, Aline Coquieri Belli, química de formação e há 14 anos na empresa, coordena ensaios, monitoramentos e estudos que sustentam as decisões no campo.7
“A nossa região tem uma combinação de fatores que são muito importantes para a qualidade do vinho”, afirma.
Segundo Belli, os solos são bem drenados, de fertilidade moderada, com clima de inverno seco, boa amplitude térmica e altitude “onde acontece a maturação de forma lenta”, destaca.
A geografia montanhosa, com solos graníticos, cria microclimas distintos.
“Por isso que a gente fala que tem vários terroirs”, diz ela, explicando que diferenças de altitude, exposição solar e textura do solo se refletem diretamente nos vinhos.
Hoje, a vinícola trabalha com cerca de 50 hectares de vinhedos, divididos em talhões que dão origem a linhas específicas, como Vale da Pedra, Vista do Chá e Terroir.

A região tem uma combinação de fatores e características de solo garantem a qualidade do vinho. Foto: Guaspari/Divulgação
Da cafeicultura à policultura de alto valor
A escolha de uma região tradicionalmente cafeeira não foi um obstáculo, mas um ativo.
“A nossa fazenda é uma fazenda inicialmente cafeira”, lembra Belli.
“A gente sempre fala que arrancou os melhores cafés da fazenda para fazer o plantio das uvas, porque a gente sabe que existe essa sinergia. Onde o café melhor se estabilizou, a uva também se apropria dessas mesmas qualidades do solo”.
A Guaspari manteve o café — hoje são 17 hectares, com diferentes variedades — e ampliou a policultura.
Além dos vinhedos, a propriedade abriga cerca de 7,5 a 8 hectares de oliveiras, quatro variedades diferentes, e também outras sete hectares de macadâmia.
“É muito comum você ter algumas outras culturas, uma policultura que esteja em total harmonia com os vinhedos”, observa Brammer, destacando a oliveira como exemplo clássico no mundo do vinho.
Tecnologia, monitoramento e sustentabilidade
No campo, a Guaspari adota um modelo intensivo em mão de obra e tecnologia. “A gente tem quase uma pessoa por hectare”, afirma Brammer.
“É uma metodologia que demanda muito mais do ser humano do que a metodologia tradicional.”
O manejo é orientado por dados. Sensores de umidade do solo, estações meteorológicas, câmara de Scholander e monitoramento constante de pragas e doenças guiam decisões sobre irrigação, nutrição e intervenções fitossanitárias.
“Não é ‘acho que precisa e irrigamos’”, explica a supervisora de pesquisa. “É quando precisa pelo sensor de solo, quanto que precisa de acordo com a fase fenológica”.
A sustentabilidade também entra na conta, com uso de controle biológico de pragas, recuperação de nascentes e coleta de água da chuva para irrigação.
“Acho que o primeiro é pensar que não tem como lutar contra o clima”, diz Belli. “O que dá é tentar trabalhar com ele”.

O vinho ícone da vinícola é o Vista do Chá, elaborado a partir de um talhão específico de três hectares, também da uva Syrah. O rótulo já conquistou prêmios. Foto: Guaspari/Divulgação
Da uva pronta ao vinho de identidade
Na indústria, o princípio é claro: levar à vinícola a melhor uva possível.
“A gente tenta trazer a uva mais pronta possível”, afirma Belli.
“E isso gera menos questão de insumo enológico, menos questão de consertar alguma coisa.”
A filosofia se resume em um ditado lembrado por Brammer.
“Você consegue estragar um vinho de uma uva boa, mas você não consegue fazer um vinho excelente de uma uva ruim”.
A partir daí, entram as decisões enológicas, como uso de barricas — muitas delas desenvolvidas em parceria com a tonelaria francesa Tonnellerie Taransaud — tempo de envelhecimento e grau de tosta da madeira.
Syrah como identidade e vinhos ícone
A uva Syrah é o fio condutor da identidade da Guaspari. “Foi onde despontou a gente no mundo”, diz Brammer. O solo granítico aproxima o terroir paulista do norte do Rhône, na França.
O principal cartão de visitas é o Vale da Pedra Tinto, presente “em todas as cartas de vinho de São Paulo”.
Já o vinho ícone é o Vista do Chá, elaborado a partir de um talhão específico de três hectares, também da uva Syrah. O rótulo já conquistou duas medalhas de ouro da Decanter e foi eleito “o melhor vinho tinto brasileiro” pela revista Prazeres da Mesa.
Enoturismo, café, azeite e chá

Ambiente é inspirado na arquitetura da Toscana, na Itália. Foto: Elias Gomes/Guaspari
A avaliação da Guaspari sobre o mercado brasileiro de vinhos parte do entendimento de que se trata de um setor ainda jovem, mas em rápida transformação.
“O mercado vitivinícola brasileiro é muito jovem”, afirma Paulo Brammer, ao lembrar que, diferentemente de países com tradição milenar, o consumo de vinho no Brasil ganhou escala apenas a partir das décadas de 1970 e 1980.
Mesmo assim, o país já figura entre os maiores mercados consumidores do mundo em volume populacional, o que revela um enorme potencial de crescimento.
“A gente tem uma área de prospecção, uma área de crescimento muito próspera”, destaca o CEO, ressaltando que o consumidor brasileiro está cada vez mais curioso, informado e disposto a experimentar vinhos de maior qualidade.
Esse amadurecimento do mercado se reflete também na mudança do perfil de consumo. Embora os vinhos de mesa ainda liderem em volume, os vinhos finos já representam a maior fatia em valor.
Para a Guaspari, a proximidade com o consumidor final, aliada ao enoturismo, às degustações e ao reconhecimento em premiações internacionais, tem sido fundamental para fortalecer a confiança no vinho nacional e consolidar uma nova percepção sobre a produção brasileira de alta qualidade.

Vinícola oferece programas de degustação. Foto: Órix Media House/Guaspari
Por isso, a vinícola aposta em uma experiência completa.
O enoturismo funciona de sexta a domingo, com visitas guiadas que incluem recepção com pão de queijo local, café da casa, explicações sobre o ecossistema da vinícola, passeio pelos vinhedos e pela indústria, além de menus de degustação.
O restaurante, segue o conceito de “cozinha de raiz” e farm to table, com horta própria e ingredientes da região.
O visitante também pode degustar os azeites produzidos na fazenda e conhecer os chás da marca, desenvolvidos em parceria com a Infusiva.
“Hoje a gente tem o chá Vale da Pedra e o chá da Vista do Chá, feito exclusivamente para harmonizar com os nossos vinhos”, explica Brammer.
Redação A Lavoura








