Iniciativa visa alavancar a produção regenerativa através do alinhamento entre políticas públicas estruturantes e participação do setor empresarial (Thophilong/Pixabay)
A UNCCD (Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação) define a degradação da terra como a redução ou perda de produtividade (biológica ou econômica), de terras agrícolas, pastagens naturais, florestas e áreas com vegetação nativa. De acordo com a FAO, essa degradação já alcançou pelo menos 33% dos solos em nível global.
No Brasil, o cenário não é tão diferente. Através do Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca, o MMA indicou que, aproximadamente, 28% do território brasileiro apresenta algum grau de degradação do solo. Esse resultado é estimulado pela utilização inadequada dos serviços ecossistêmicos, e uma combinação de outros fatores, como: erosão do solo, deterioração das propriedades físicas e químicas do solo, queimadas e acentuada conversão de vegetação nativa.
Na avaliação do gerente de agricultura e florestas do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, Hugo Ricardo, a degradação dos solos e seus impactos reverberaram em diferentes frentes ambientais e socioeconômicas, ameaçando a segurança alimentar e a resiliência climática. “Ambientalmente, a redução do estoque de matéria orgânica do solo contribui para as emissões de Gases do Efeito Estufa, enquanto a erosão e a compactação comprometem a infiltração de água, intensificando os efeitos de secas e enchentes. Socialmente, a instabilidade produtiva e a vulnerabilidade climática podem levar à insegurança alimentar, ao êxodo rural, assim como ter um efeito direto sobre os povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares, que mais dependem da saúde do solo economicamente”, relata.

De acordo com a FAO, a degradação da terra já alcançou pelo menos 33% dos solos em nível global. Foto: elg21/Pixabay
Diante desse cenário, o especialista pontua que a mitigação da degradação dos solos passa, imperativamente, pela escalabilidade dos sistemas produtivos regenerativos. Isso implica, entre outros fatores, na promoção de práticas que visam preservar e restaurar as propriedades físicas, químicas e biológicas dos solos. O Brasil é um dos líderes mundiais em produção de alimentos, fibras e bioenergia e precisa assumir o protagonismo no combate a degradação do solo e estimular a restauração de áreas já degradadas, conciliando produtividade e sustentabilidade, mitigando emissões e preservando os serviços ecossistêmicos.
“A boa notícia é que estamos direcionando esforços importantes em relação ao tema, fortalecendo programas conduzidos pelo governo e experimentando um aumento considerável de iniciativas do setor empresarial que reúnem inovação tecnológica, inclusão e eficiência produtiva, e regeneração ecossistêmica o que contribui na transição dos sistemas produtivos e consequentemente no alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU”, comenta Ricardo.
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Estratégias
Para acelerar esse processo de transformação, segundo ele, é preciso superar desafios significativos. Neste movimento, o setor empresarial, em consonância com a missão do Pacto Global da ONU de engajar empresas na agenda de sustentabilidade, emerge como um catalisador de impacto positivo.
“O Entre Solos, programa do Pacto Global da ONU Rede Brasil, que tem como missão contribuir para escalar os sistemas alimentares regenerativos e justos por meio de um debate público com base na ciência, e conta com a participação de diferentes atores do agronegócio brasileiro, consolidou o documento ‘Dialogo Entre Solos: Semeando Conexões 2025’, lançado na COP30, onde foram elencadas 21 recomendações para intensificar a atuação do setor empresarial na transição dos sistemas produtivos”, lembra Ricardo.

O gerente de agricultura e florestas do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, Hugo Ricardo. Foto: Divulgação
Entre as recomendações é destacada a importância do fortalecimento de mercados e instrumentos financeiros adequados, incluindo linhas de crédito com juros reduzidos, pagamentos por serviços ambientais (PSA) e mecanismos de financiamento climático direcionados à agricultura, viabilizando os investimentos iniciais, e que a integração efetiva entre ciência, extensão rural e governança cooperativa é fundamental, garantindo assistência técnica qualificada aos produtores.
Além disso, ele ressalta que é imprescindível fortalecer a infraestrutura de monitoramento e rastreabilidade, que são pilares para a transparência e a mensuração de impactos. Por fim, o documento reforça que a responsabilidade da transição é compartilhada, e conta com a colaboração de todos os elos da cadeia para que ocorra em escala e possa ser replicada.
“O solo deve ser reconhecido como um ativo estratégico para o Brasil, não apenas como base da produção agrícola, mas como um elemento vital para a resiliência climática e a sustentabilidade. Ao alinhar políticas públicas, fomentar a colaboração entre os setores público e privado e valorizar o conhecimento técnico e científico, podemos criar as condições estruturantes necessárias para alavancar a produção regenerativa. A transição para esse modelo não é apenas uma escolha ambientalmente responsável, mas uma oportunidade concreta, capaz de gerar retorno ambiental, social e econômico”, conclui o especialista.








