Espécie ameaçada de extinção pode perder seu habitat até 2070, devido à extração ilegal e às mudanças climáticas (Foto: COCUC/ICMBIO)
Em uma tentativa de frear o avanço da extinção da araucária, espécie símbolo da Mata Atlântica, o governo de São Paulo lançou um programa que remunera produtores rurais pela conservação e pelo plantio do pinheiro-brasileiro, transformando a preservação em fonte direta de renda no campo.
O edital do Pró-Araucária prevê o pagamento de até R$ 36 mil por produtor rural e R$ 250 mil para organizações que atuem na conservação da espécie.
A iniciativa, anunciada em Cunha, no Vale do Paraíba, surge em um momento crítico: pressionada pela extração ilegal e pelas mudanças climáticas, a araucária pode perder grande parte de seu habitat até 2070.
Na prática, o programa de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) cria um incentivo financeiro para que produtores deixem de ver a árvore apenas como ativo passivo — ou restrição legal — e passem a tratá-la como oportunidade econômica.
O pacote inclui ações como conservação de exemplares já existentes, plantio de mudas, restauração de áreas de preservação e até a formação de pomares voltados à produção de pinhão.
“Este edital reforça o compromisso do Governo de São Paulo com soluções inovadoras de conservação, que integram proteção ambiental, desenvolvimento sustentável e geram valor de mercado e renda no território”, afirma a secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende.
Produção de pinhão

Produção de pinhão é uma forma sustentável de manejo econômico das araucárias. Foto: Divulgação/Fundação Florestal
A escolha de Cunha como ponto de partida não é casual. O município concentra mais de 95% da produção de pinhão no estado e carrega uma tradição que atravessa gerações. Entre os produtores locais, a relação com a araucária é antiga — e, cada vez mais, desafiadora.
Ademar Monteiro, que vive da coleta há quase quatro décadas, resume o dilema enfrentado no campo. Com cerca de 70 árvores em sua propriedade, ele vê na iniciativa uma chance de renovar o sistema produtivo.
“O projeto vai ser bom, porque o pinhão tem muito valor na nossa região. O problema é a mão de obra; as árvores envelhecem e é preciso estimular o plantio”, diz.
Os números ajudam a dimensionar o peso econômico da atividade. Entre 2023 e 2025, produtores da região coletaram mais de 1.100 toneladas de pinhão. Para 2026, a expectativa é de uma safra superior a 368 toneladas, um relevante, mas que depende diretamente da renovação das áreas e da manutenção das árvores.
A lógica do PSA tenta justamente atacar esse gargalo, pagando hoje para garantir produção amanhã.
Ao contrário do corte da madeira m altamente restrito após décadas de exploração predatória, a coleta do pinhão é permitida e pode ser feita de forma sustentável, o que abre espaço para consolidar uma cadeia produtiva baseada na floresta em pé.
“Assim como os outros programas de PSA da Fundação Florestal, a proposta é trazer soluções sustentáveis e sociais dentro do meio ambiente, com um olhar atento à conservação de uma espécie essencial para a Mata Atlântica com o apoio das próprias comunidades locais”, explica Rodrigo Levkovicz, diretor-executivo da Fundação Florestal.
Para quem vive no território, a urgência é evidente. Aos 73 anos, a moradora Euza Monteiro observa o desaparecimento gradual da espécie e vê no programa uma última janela de oportunidade.
“Se a gente arrumar tudo direitinho, é uma coisa boa, porque daqui a pouco não tem pinhão. Se não plantar e não cuidar, vai acabar – e já está acabando. Agora que está tendo o projeto, é plantar para colher”.
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Projeto piloto
O piloto será implementado na zona de amortecimento do Parque Estadual da Serra do Mar, núcleo Cunha, onde já existem condições favoráveis para a restauração e expansão da espécie. O foco está em agricultores familiares e pequenos produtores, além de organizações da sociedade civil que atuem na conservação.
Para participar, produtores precisam comprovar vínculo com o imóvel rural, inscrição no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e atender a critérios ambientais do programa. Organizações devem ter pelo menos um ano de atuação e envolvimento direto com a conservação da araucária.
Estruturado em seis eixos, que vão da restauração ecológica à certificação de produtos florestais, o Pró-Araucária se soma a outras medidas recentes, como a flexibilização das regras de coleta do pinhão em São Paulo, que passou a permitir a colheita antes de 15 de abril.








