Entre trilhas históricas, parques preservados, queijos artesanais, vinhedos de altitude e cafés coados no fogão a lenha, a Serra do Espinhaço mostra que o futuro do turismo passa, cada vez mais, pelo campo (Foto: Evandro Rodney/Agência Minas)
Entre a porteira da fazenda e o mirante de pedra, entre o curral e a cachoeira, o agroturismo vem redesenhando o mapa do turismo em Minas Gerais. Na Serra do Espinhaço, a mais antiga e extensa cadeia de montanhas do Brasil, a vida rural deixou de ser apenas cenário e passou a ocupar o centro da experiência turística, conectando produção agrícola, conservação ambiental e identidade cultural.
Com cerca de 1.200 quilômetros de extensão, a Cordilheira do Espinhaço atravessa Minas Gerais de sul a norte até alcançar a Chapada Diamantina, na Bahia.
Única formação do tipo no país, ela conecta 172 municípios mineiros por uma sucessão de paisagens que mudam a cada curva da estrada: campos rupestres floridos, cânions profundos, paredões rochosos, rios de águas ferruginosas e 394 cachoeiras catalogadas.
Reconhecida pela Unesco como Reserva da Biosfera, a cordilheira abriga três biomas brasileiros — Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga — e se consolidou como um dos destinos mais completos do turismo de experiência no Brasil, especialmente em modalidades que unem ecoturismo, turismo rural e vivências comunitárias.
“O Brasil merece conhecer o valor da Cordilheira do Espinhaço. Ela guarda patrimônios naturais e culturais singulares como a Serra do Cipó, Diamantina e o queijo minas artesanal, considerado Patrimônio Imaterial da Humanidade”, destaca a Secretaria de Cultura e Turismo de Minas Gerais.

Cordilheira do Espinhaço. Foto: Geisy Faria/Agência Minas
O campo como protagonista do turismo
No Espinhaço, o agroturismo se manifesta a partir da própria rotina das famílias rurais. Pequenas propriedades, sítios centenários e comunidades tradicionais passaram a abrir suas porteiras para visitantes interessados em vivenciar o cotidiano do campo, conhecer sistemas produtivos artesanais e experimentar sabores que carregam memória afetiva e identidade territorial.
Essa dinâmica ganha força sobretudo no Médio e no Norte do Espinhaço, onde o turismo rural e de base comunitária se consolida como alternativa de renda, sucessão familiar e permanência no campo.
Municípios como Grão Mogol, Botumirim, Cristália, Caçaratiba, Itacambira e Serranópolis de Minas vêm estruturando experiências que integram produção agrícola, gastronomia, trilhas e hospitalidade.
Um exemplo desse movimento está em Serranópolis de Minas, no Norte do estado, onde a tradição na produção de laticínios se transformou em atrativo turístico.
No Sítio Vó Luzia, a memória familiar, o apoio coletivo e a dedicação são os principais ingredientes do requeijão moreno produzido artesanalmente por Carlos Alessandro Lucas e sua esposa. A família fabrica cerca de 50 quilos da iguaria por semana.

O requeijão moreno e o café típicos da região. Foto: Emater-MG/Divulgação
A atividade atravessa gerações. “Meu avô era produtor de leite e para aproveitar o que sobrava e ganhar uma renda extra, minha avó produzia requeijão moreno para vender na cidade”, conta o produtor.
Além do requeijão, a família produz doce de leite, manteiga de requeijão e café. A comercialização ocorre tanto no próprio sítio quanto em Belo Horizonte, e a qualidade dos produtos já rendeu medalhas em concursos regionais e estaduais.
O sítio está na família há oito décadas. “Aprendi com meu avô, meu pai e nunca pensei em ir para a cidade. Para mim é um privilégio continuar o trabalho dos meus avós e espero que meus filhos sejam os próximos sucessores”, afirma Carlos.
A história se conecta diretamente ao que vem sendo observado em outras áreas do Espinhaço: o turismo rural como estratégia para manter jovens no campo, valorizar o trabalho agrícola e diversificar a renda das propriedades.
A experiência simples — café coado, quitandas, requeijão, frutas da região e conversa boa — ajudou a família a enfrentar um dos maiores desafios da trajetória: a falta de recursos financeiros. Hoje, para conhecer a história do sítio, andar a cavalo e vivenciar a rotina rural, é necessário realizar agendamento prévio.
Segundo o extensionista da Emater -MG, Gentil Dias Neto, o sucesso do empreendimento está na receptividade e no espírito empreendedor da família.
Ele destaca que o turismo ainda não é uma tradição consolidada no município, mas apresenta grande potencial. “Tem muito potencial, principalmente pelas belezas da Cordilheira do Espinhaço, sendo uma ótima opção para gerar emprego e renda para os produtores”.
A Emater-MG tem auxiliado na divulgação do empreendimento por meio do projeto estratégico Ruralidade Viva.
“Com o Ruralidade Viva, conectamos os visitantes às experiências da agricultura familiar. A atividade reflete o crescimento do turismo rural em Minas Gerais, valorizando o trabalho dos produtores e fortalecendo a economia local”, destaca a coordenadora técnica estadual de Turismo Rural e Artesanato, Thatiana Daniella Moura Garcia.
O avanço do turismo rural no Espinhaço está diretamente ligado à força do ecoturismo. A cordilheira concentra 26 parques e unidades de conservação, como o Parque Nacional da Serra do Cipó, o Parque Nacional das Sempre-Vivas, o Parque Estadual do Pico do Itambé, o Parque Estadual do Biribiri, além dos parques estaduais de Botumirim e Grão Mogol.
Essas áreas atraem visitantes interessados em trilhas, travessias, cachoeiras, observação da fauna e flora — o que amplia a demanda por hospedagens rurais, alimentação local e experiências comunitárias no entorno.
Atividade centenária

Apanhadoras de sempre-vivas na Serra do Espinhaço. Foto: Valda Nogueira/Agênica Minas
No Parque Nacional das Sempre-Vivas é onde foi reconhecido o primeiro Sistema de Patrimônio Agrícola Globalmente Importante no Brasl pela pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em 2019.
Conhecido como “Apanhadores de Flores Sempre-vivas”, o sistema da Serra do Espinhaço tem arranjo produtivo único, em harmonia com o meio ambiente.
As comunidades da Serra do Espinhaço chegam a manejar 400 espécies de plantas já catalogadas, incluindo as alimentares e as medicinais, cujos conhecimentos e práticas únicas são desenvolvidas ao longo de gerações para manter os recursos genéticos e melhorar a agrobiodiversidade.
Os agricultores locais desenvolveram um sistema que combina coleta de flores, jardinagem agroflorestal, pastoreio de gado e cultivos.
Na época das chuvas, os apanhadores de sempre-viva fazem a coleta das plantas ao pé da serra. Já nos meses mais secos, é preciso ir morro acima, a mais de mil metros de altura para encontrar as flores.
Observação de aves

No parque, é possível ver a rolinha-do-planalto, considerada uma das dez aves mais raras do mundo. Foto: Governo de Minas/Divulgação
No Parque Estadual de Botumirim, a observação de aves se tornou um dos principais atrativos, com turistas de 35 países nos últimos dois anos.
A rolinha-do-planalto, considerada uma das dez aves mais raras do mundo, mantém no parque um de seus últimos refúgios naturais.
“A observação de aves no parque deve ser agendada e feita com guias da região, pois as aves estão inseridas em uma reserva da Save Brasil existente dentro da UC”, explica o gerente da unidade, Washington Ramos.
Já no Parque Estadual de Grão Mogol, a Trilha do Barão e a Cachoeira Véu das Noivas combinam patrimônio histórico, paisagem natural e turismo de aventura. “
As condições de acesso aos atrativos estão em constante manutenção para receber os visitantes. Pretendemos concluir o plano de manejo e uso público do parque até o final do próximo ano, o que irá otimizar nossa capacidade de receber os turistas que chegarão à UC a partir do projeto Cordilheira do Espinhaço”, afirma a gerente do parque, Débora Mendes.
Sabores, rotas e desenvolvimento
A gastronomia é outro pilar do agroturismo no Espinhaço. O queijo minas artesanal, produzido em 34 municípios da cordilheira, é reconhecido pela Unesco como Patrimônio Imaterial da Humanidade.
Territórios como Serro, Canastra, Cerrado e Campos das Vertentes apresentam características próprias de sabor e maturação, além da produção de cafés especiais.
Atrativos como a Cachoeira do Tabuleiro, localizada na Cordilheira do Espinhaço – a mais alta de Minas Gerais, com 273 metros de queda livre -, a arquitetura colonial de Diamantina e as belezas naturais dos distritos de Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras são algumas das novas opções de turismo na Rota do Queijo da Região do Serro.
Na Rota, cerca de 800 produtores e agricultores familiares, de 11 municípios, integram a cadeia produtiva que transforma o Queijo Minas Artesanal – que teve seus “modos de fazer” reconhecidos pela Unesco, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade –, em um produto com grande potencial econômico.

Hoje, o queijo do Serro é uma atraçã turística. O turismo, aliás, é outro benefício trazido pela Indicação de Procedência, assim como a melhoria do mercado. Foto: Sebrae
Já a região de Canastra, conhecida pela qualidade dos queijos artesanais – iguaria que recebeu, em 2008, o título de Patrimônio Cultural Imaterial do país, e a IG de Indicação de Procedência (IP), em 2012 -, ganha cada vez mais destaque na cafeicultura. O registro na modalidade Denominação de Origem (DO) foi conquistado em 2023 pelos cafeicultores da Serra da Canastra.
O território também desponta no enoturismo, com vinícolas em Diamantina, Grão Mogol, Juatuba e Santana dos Montes, além da olivicultura, com azeites premiados produzidos em Itabirito e Catas Altas da Noruega.
Essas experiências são organizadas por rotas estruturadas, como a Rota do Queijo do Serro, a Rota das Artes, a Rota Cavernas do Peruaçu, o Circuito das Grutas e o Caminho de Rosa, entre outras.
Fontes: Agência Minas, Emater-MG, Epamig, Governo de Minas, Sebrae Minas








