O Virumix foi desenvolvido a partir de um vírus entomopatogênico, o que significa que é específico para combater o inseto-alvo e esta especificidade garante vantagens ambientais e financeiras, tornando o novo bioinseticida acessível a agricultores de todos os portes, inclusive os sistemas orgânicos de produção
Em testes realizados no campo, em municípios do estado de Mato Grosso, o novo inseticida biológico Virumix mostrou mais de 85% de eficácia no controle da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda, uma das piores pragas agrícolas do Brasil, que ataca cerca de 200 diferentes culturas de importância socioeconômica, como milho, algodão, soja e arroz, entre outras.
Além de ser indicado para todos os cultivos atingidos por essa praga, o produto agrega sustentabilidade aos resultados, uma vez que é produzido à base de um vírus entomopatogênico (específico contra o inseto e inofensivo a plantas, animais e seres humanos) chamado de Spodoptera multiple nucleopolyhedrovirus (SfMNPV).
Fruto de uma parceria público-privada, entre a Embrapa Milho e Sorgo (MG), o Instituto Mato-Grossense do Algodão (IMAmt) e a Cooperativa Mista de Desenvolvimento do Agronegócio (Comdeagro), o Virumix é o primeiro produto microbiológico na linha do IMAmt. Foi desenvolvido a partir do isolado 6 do Baculovirus spodoptera identificado pela Embrapa Milho e Sorgo.

Danos causados pela lagarta-do-cartucho na cultura do milho Foto Clenio Araújo/Embrapa/Divulgação
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Menos aplicações de agroquímicos
Álvaro Salles, diretor executivo do IMAmt e da Comdeagro, explica que o aumento da incidência da Spodoptera frugiperda, até mesmo em áreas cultivadas com plantas contendo biotecnologias, impacta os custos de produção, pela necessidade de inúmeras aplicações de agroquímicos.
“Isso nos levou a procurar soluções viáveis de controle da praga”, diz.
Segundo ele, o fato de ser desenvolvido à base de um vírus entomopatogênico traz benefícios ambientais, pois se trata de um produto altamente específico, que preserva todos os inimigos naturais (insetos), necessários ao equilíbrio das culturas.
“É um bioinseticida seletivo, que pode ser utilizado junto com outros produtos no Manejo Integrado de Pragas (MIP), como inseticidas e fungicidas”, menciona Salles.
Segurança para os trabalhadores rurais
Ele completa que essa especificidade garante também segurança para os trabalhadores rurais, o que o torna recomendável para utilização em sistemas orgânicos de produção.
Salles ressalta ainda que o Virumix poderá ser utilizado por produtores de todos os portes, desde o familiar até o empresarial.
“Inclusive, sua formulação em pó molhável facilita o armazenamento e a conservação do produto”, acrescenta.

O horário da aplicação deve ser realizado nos períodos em que a temperatura esteja mais baixa, no início da manhã ou após as 16 horas
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Produto seguro
O entomologista Jacob Crosariol Netto, do IMAmt, foi o responsável pela condução de parte dos ensaios realizados com o Virumix nas safras 2021/2022 e 2022/2023, em Primavera do Leste, Campo Verde e Rondonópolis-MT.
“É um produto bastante seguro contra a Spodoptera frugiperda. Nos nossos ensaios – a maioria com algodão e milho – constatamos alto desempenho e estabilidade, quando aplicado de forma correta, mesmo quando comparado com outros produtos de características semelhantes”, observa o entomologista.
O diretor-executivo do IMAmt e da Comdeagro, conta que o Virumix será produzido em uma nova biofábrica em Sorriso, MT. Inicialmente, o produto será distribuído pela Comdeagro e depois deverá ser oferecido para venda por comerciantes e outros canais.
“A embalagem, no lançamento, será de dois quilos do produto. Porém, já estão sendo desenvolvidas outras de menor tamanho, para atender agricultores que necessitem utilizar dessa forma”, salienta Salles.
Ele completa ainda que, como a dosagem recomendada é 50 gramas por hectare, cada embalagem deverá ser utilizada em 40 hectares”, explica o especialista.
- Ataque inicial (esquerda) e dano causado por lagarta-do-cartucho em planta de milho Fotos Fernando Valicente e Clenio Araújo Embrapa/Divulgação
Controle biológico com baculovírus
O pesquisador da Embrapa que conduziu o desenvolvimento do Virumix, Fernando Hercos Valicente, destaca que a eficácia do baculovírus para o controle da lagarta-do-cartucho está relacionada ao momento ideal para sua aplicação na lavoura.
“O processo deve considerar alguns fatores importantes e o primeiro deles é que a cultura deve ser monitorada semanalmente para se detectar o nível de ataque da lagarta-do-cartucho desde os estágios de desenvolvimento iniciais das plantas”, orienta o pesquisador.
Segundo ele, o controle será melhor enquanto as lagartas estiverem com menos de 1,0 cm.
“Além disso, o horário da aplicação deve ser realizado nos períodos em que a temperatura esteja mais baixa, no início da manhã ou após as 16 horas”, recomenda o especialista..
Valicente explica que é muito importante não perder a primeira aplicação, “pois desse modo evita-se uma sobreposição de estádios larvais dessa praga na cultura”, salienta.
De acordo com sua informação, em determinadas regiões, o ataque da lagarta, no cultivo do milho, por exemplo, se inicia uma semana após a germinação das sementes.
“Por isso, é importante que o produtor conheça os primeiros sinais da presença dessa praga. A pulverização do baculovírus deve ser feita com o uso de um espalhante adesivo, para ter uma aplicação uniforme e atingir o alvo”, ensina o especialista.
Produção mundial e nacional de bioinsumos
O mercado global de bioinsumos agrícolas já supera US$ 10 bilhões no segmento de produtos biológicos para controle de pragas e doenças, inoculantes, bioestimulantes e solubilizadores.
A CropLife Brasil estima que a taxa anual de crescimento global até 2032 seja de aproximadamente 14%, valor três vezes maior que o atual, com os produtos de controle biológico representando mais de 50% deste mercado.
Sara Rios, chefe-adjunta de Transferência de Tecnologia da Embrapa Milho e Sorgo reforça que, no Brasil, a adoção dos produtos biológicos também cresce exponencialmente.
“A Embrapa, desde a sua origem, é pioneira em converter microrganismos e conhecimentos da biodiversidade brasileira em bioprodutos diferenciados para os sistemas produtivos do Brasil e do mundo, trazendo maior resiliência e sustentabilidade para a agricultura e os agricultores do nosso País, ressalta a pesquisadora.
Ela enfatiza que a Embrapa é referência nacional e internacional em ciência aplicada de alto impacto e promove continuamente a inovação aberta, aumentando as capacidades tecnológicas a serviço da agricultura sustentável nacional.
Ainda de acordo com a CropLife Brasil, o Programa Nacional de Bioinsumos, bem como o Conselho Estratégico do Programa Nacional de Bioinsumos, foram instituídos pelo Decreto Nº 10.375, de 26 de maio de 2020. O objetivo do programa é, sobretudo, reduzir a dependência de insumos importados e alavancar, de forma sustentável, o uso do potencial da nossa biodiversidade.
O Brasil está consolidado entre os líderes mundiais em produção de bioinsumos agrícolas e esses produtos são estratégicos para o Manejo Integrado de Pragas.
A Embrapa desenvolve e promove pesquisas e transferência de tecnologias, conhecimentos gerados pela ciência brasileira, que contribuem para adaptar as boas práticas agropecuárias, fomentando a competitividade e garantindo a segurança alimentar e nutricional. Essas tecnologias serão destacadas pela Embrapa durante os eventos da Jornada Pelo Clima, na Cop 30.
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- Lagarta morta pelo Baculovirus e embalagem do bioinseticida Virumix- Foto Fernando Valicente/Embrapa/Divulgação
Parceria IMAmt, Comdeagro e Embrapa
Sara Rios conta que o Virumix compõe um portfólio da Embrapa Milho e Sorgo no controle de pragas lepidópteras desafiadoras, como é o caso da lagarta-do-cartucho.
“O desenvolvimento e lançamento comercial desse novo produto tecnológico, agora em escala TRL 8 (sistema completo, testado, qualificado e demonstrado), comprova a relevância da inovação aberta para a agricultura tropical a partir de tecnologias de alto impacto para o Brasil e o mundo, codesenvolvidas de forma conjunta com empresas parceiras”, diz a especialista.
Álvaro Salles explica que a parceria do IMAmt com a Embrapa Milho e Sorgo existe há mais de dez anos.
De acordo com sua informação, o IMAmt e a Comdeagro são empresas criadas pelos produtores de algodão associados à Associação dos Produtores de Algodão do MT (Ampa).
“O IMAmt é responsável pela pesquisa e pelo desenvolvimento de novas tecnologias e assistência aos produtores, e a Comdeagro é o braço comercial do Instituto, responsável pela comercialização dos produtos desenvolvidos”, explica Salles.
Segundo o diretor-executivo, a Ampa criou o IMAmt para desenvolver soluções de interesse da cotonicultura mato-grossense, e os bioinsumos sempre foram alvo das pesquisas do Instituto.
“Desde então, iniciou-se um grande programa de bioprospecção de microrganismos nos biomas do Mato Grosso e no semiárido brasileiro. O Virumix é um dos resultados dessas ações”, conclui Salles.