Propriedade rural parceira do IZ teve todo o rebanho genotipado para kappa-caseína; conhecimento já é utilizado na seleção de animais e abre caminho para disseminação de genética de maior interesse produtivo (Foto: Luiza Cardoso/Apta)
Uma parceria entre ciência e campo está ajudando a transformar o conhecimento genético dos búfalos em uma ferramenta prática para a produção de queijos. Em uma propriedade especializada na criação de búfalos, uma das primeiras fazendas a disponibilizar todo o rebanho para um estudo desenvolvido pelo Instituto de Zootecnia (IZ-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, os resultados da pesquisa já fazem parte das decisões de seleção dos animais.
A parceria foi construída a partir de uma demanda dos próprios produtores: entender melhor a relação entre a genética dos animais e o rendimento do leite na fabricação de queijo. O trabalho levou à genotipagem de quase mil búfalos para o gene da kappa-caseína (CSN3), formando, segundo o pesquisador do IZ, Aníbal Eugênio Vercesi Filho, uma das maiores populações de búfalos genotipadas para esse gene no mundo.
A kappa-caseína é uma proteína do leite diretamente relacionada ao processo de coagulação. No estudo desenvolvido pelo IZ, o foco está principalmente no alelo B, associado à maior rendimento na fabricação de queijos. Segundo Aníbal, búfalas com essa característica podem apresentar de 5% a 10% mais rendimento na transformação do leite em queijo. “É um processo que a gente chama de seleção assistida por marcador, que é uma ferramenta a mais que o produtor pode usar no seu processo de seleção”, explica o pesquisador.

Parceria visa entender melhor a relação entre a genética dos animais e o rendimento do leite na fabricação de queijo. Foto: Luiza Cardoso/Apta
A pesquisa
A história começou quando representantes da cadeia bubalina levaram ao Instituto de Zootecnia a necessidade de atualizar os conhecimentos sobre a kappa-caseína em búfalos no Brasil. A partir da demanda, o IZ desenvolveu um projeto com apoio do CNPq e iniciou a formação de um banco de dados genéticos com animais de diferentes propriedades.
O produtor rural, Caio Rossato, de Pilar do Sul (SP), disponibilizou o rebanho para a pesquisa e, posteriormente, decidiu genotipar todos os animais da propriedade. Com a genotipagem, a propriedade passou a ter um mapa genético do rebanho, identificando a característica de cada animal para a kappa-caseína e permitindo utilizar essa informação no planejamento dos acasalamentos.
Atualmente, dois reprodutores BB já são utilizados com o objetivo de melhorar o rendimento e a qualidade dos queijos. Um deles deverá ser encaminhado, em setembro, para uma central de coleta de sêmen, com a perspectiva de disponibilizar sua genética para outros produtores. “Sem essa parceria, nós não teríamos nem o conhecimento de que esse animal era kappa-caseína BB. Foi através da genotipagem que fomos descobrindo quais eram os animais que tinham essa característica”, destaca o produtor.
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Outros projetos
Recentemente, a propriedade do Caio também se tornou um espaço de aprendizagem sobre a cadeia produtiva. Durante uma visita técnica vinculada à disciplina de Bubalinocultura da pós-graduação em Produção Animal Sustentável do IZ, alunos acompanharam a rotina da fazenda, conheceram os animais e observaram o funcionamento do laticínio.

Alunos do IZ acompanharam a rotina da fazenda, conheceram os animais e observaram o funcionamento do laticínio. Foto: Luiza Cardoso/Apta
A experiência permitiu apresentar aos estudantes não apenas os resultados da pesquisa genética, mas todo o caminho percorrido pelo leite até chegar aos produtos. “É importante para os alunos verem como funciona a rotina de uma fazenda de búfalo, depois conhecer o laticínio e ver o processo todo”, explica Vercesi Filho.
Toda a iniciativa mostra como a pesquisa pode percorrer diferentes etapas até chegar ao campo: uma demanda da cadeia dá origem ao projeto científico; a genotipagem identifica características de interesse; e o produtor passa a utilizar essas informações na seleção do rebanho. Mas a parceria entre o IZ e a cadeia de búfalos não se limita à kappa-caseína. O Instituto vem desenvolvendo diferentes trabalhos relacionados à espécie, em conjunto com produtores e entidades do setor.
Mais do que disponibilizar dados para o produtor, a parceria permite que a pesquisa acompanhe o resultado de suas próprias descobertas no campo. No caso da kappa-caseína, o que começou como uma demanda da cadeia já se transformou em informação genética aplicada à seleção de animais e agora deve avançar para uma nova fase de validação do impacto sobre o rendimento dos queijos.








