Bioinsumos, drones e controle biológico fortalecem a produção de algodão no semiárido
O uso de bioinsumos, o controle biológico de previsões e as tecnologias de agricultura de precisão estão entre as estratégias para aumentar a resiliência e a sustentabilidade da produção de algodão no semiárido brasileiro.
Essas alternativas visam enfrentar dois dos principais desafios da cotonicultura na região: a irregularidade das chuvas, associada às altas temperaturas, e a pressão de insetos-praga, especialmente o bicudo-do-algodoeiro.
Esses temas foram apresentados por pesquisadores da Embrapa durante a ExpoCariri 2026, realizada no final de outubro, no Ceará, em uma programação voltada ao fortalecimento da cadeia produtiva do algodão e à difusão de tecnologias para pequenos, médios e grandes produtores

Tecnologia buscam reduzir perdas provocadas pela seca e ampliar a eficiência do manejo e tornar a cotonicultura mais sustentável Foto Embrapa Meio Ambiente/Divulgação
Aproveitamento dos recursos disponíveis
Paulo Barroso, agrônomo e pesquisador da Embrapa Algodão, explica que a proposta é integrar conhecimentos sobre solo, plantas e microrganismos benéficos, combinando práticas de manejo, biotecnologia e ferramentas digitais para reduzir perdas e melhorar o aproveitamento dos recursos disponíveis.
Ele destacou que a biodiversidade presente no solo e nas plantas representa uma importante fonte de soluções para a agricultura. Segundo o especialista, os bioinsumos são produtos, processos ou tecnologias de origem biológica que incluem microrganismos, macrorganismos e produtos produzidos por seres vivos, capazes de favorecer o desenvolvimento das plantas e contribuir para o controle de pragas e doenças.

Drones são usados para diferentes operações agrícolas, com destaque para a liberação de macrorganismos utilizados sem controle biológico Foto Embrapa Meio Ambiente/Divulgação
Segundo Barroso, o solo abriga centenas de espécies de microrganismos e pequenos organismos que interagem entre si e desempenham funções essenciais para o equilíbrio dos sistemas produtivos. “Bactérias que fixam nitrogênio, fungos que controlam insetos e organismos que disponibilizam nutrientes são exemplos de recursos biológicos que podem ser incorporados ao manejo agrícola”, orienta o pesquisador.
Ele acrescenta ainda que “quanto mais próximo a gente conseguir chegar com boas produtividades de um ambiente natural, melhor vai ser para o meio ambiente e maior sustentabilidade a gente vai ter”.
Para isso, na opinião do especialista, a agricultura precisa melhorar a biodiversidade existente para reduzir os impactos ambientais sem comprometer a produtividade necessária ao abastecimento de alimentos e à produção de fibras.
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Projeto CaatÁgua busca microrganismos adaptados à seca
Uma das iniciativas propostas pela Embrapa foi o projeto CaatÁgua, desenvolvido com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), em parceria com a Rede Borborema de Agroecologia e três unidades da Embrapa: Algodão, Recursos Genéticos e Biotecnologia e Meio Ambiente.
A pesquisa busca identificar bactérias associadas às plantas da Caatinga, especialmente cactáceas e algodoeiros mocós e herbáceos, capazes de ajudar as culturas agrícolas a enfrentar o estresse hídrico. A considerar que os microrganismos presentes nas raízes e estratégia no solo próximo a elas, região conhecida como rizosfera, podem contribuir para a adaptação das plantas às condições ambientais adversas.
De acordo com Barroso, amostras de bactérias das centenas inicialmente isoladas foram resultados promissores em experimentos com tomateiro. Sob estresse hídrico moderado, as plantas inoculadas mantiveram o turgor, enquanto aquelas sem inoculação apresentavam murcha. “O processo de seleção das melhores bactérias continua com experimentos em casa de vegetação e deverá orientar novas etapas de seleção e testes em outras culturas e condições de campo”, conta o pesquisador da Embrapa.
Novos bioinsumos
A equipe também investiga fungos entomopatogênicos, capazes de infectar e matar insetos, para desenvolver alternativas de controle do bicudo-do-algodoeiro. Em testes de laboratório, isolados de Metarhizium da coleção da Embrapa apresentaram mortalidade superior a 80% dos insetos expostos ao fungo. “O desafio agora é aprimorar as estratégias para que os organismos entrem em contato com a praga nas condições de cultivo”, revela o cientista.

Na cultura do algodão, a resposta média que a proteção produtiva apresentou foi de aproximadamente 18 arrobas por hectare em condições de estresse Foto Embrapa Meio Ambiente/Divulgação
Barroso reforça que o desenvolvimento de novos bioinsumos exige avaliações de eficácia e segurança para as pessoas e o meio ambiente, além de procedimentos para obtenção de registro. “A expectativa apresentada é que soluções para o controle do bicudo, incluindo alternativas biológicas, possam estar disponíveis em um horizonte de três a seis anos, dependendo dos resultados das pesquisas e dos processos regulatórios”, afirma.
O pesquisador também chama a atenção para os cuidados necessários na produção de bioinsumos nas propriedades rurais, modalidade conhecida como on-farm. Embora a legislação permita essa produção, o processo exige conhecimento técnico, infraestrutura e controle de qualidade para evitar contaminações por microrganismos patogênicos e garantir a concentração adequada dos organismos desejados.
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Auras contribui para a tolerância das plantas ao estresse climático
Outro destaque da programação da ExpoCariri 2026, foi a tecnologia Auras, desenvolvida pela Embrapa em parceria com a empresa NOOA e apresentada por Lucas Carvalho, representante da empresa. O produto utiliza a bactéria Priestia aryabhattai, anteriormente citada como Bacillus aryabhattai, isolada no contexto de pesquisas sobre a adaptação de plantas da Caatinga às condições de seca.
A bactéria apresenta mais de 126 genes relacionados à resposta ao estresse abiótico. Aplicada às sementes ou no sulco de plantio, ela atua em associação com as raízes e contribui para o desenvolvimento radicular, a retenção de água nos vegetais, a ativação de enzimas antioxidantes e a disponibilização de nutrientes.
Segundo Lucas Carvalho, a tecnologia procura ampliar a capacidade de resposta das plantas diante de condições adversárias, como deficiência hídrica, temperaturas elevadas e excesso de água. “Uma associação entre a planta e os microrganismos benéficos pode ajudar a proteger as estruturas celulares durante o estresse e favorecer a retomada do crescimento quando as condições ambientais melhoram”, explica o especialista.
Ele ressalta que, na cultura do algodão, a resposta média que a proteção produtiva apresentou foi de aproximadamente 18 arrobas por hectare em condições de estresse. A recomendação de uso informada é de 200 mililitros por hectare no sulco de plantio ou quatro mililitros por quilo de sementes. O produto também apresenta resultados em soja e milho.
Carvalho reforça que o produtor não consegue controlar o clima, mas pode preparar melhor a mão de obra para enfrentar suas variações. “Nesse sentido, o manejo biológico complementa o melhoramento genético e as práticas agronômicas, ajudando a reduzir perdas de produtividade”, afirma.
Manejo integrado busca reduzir perdas com o bicudo
O engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Algodão, Fábio Aquino de Albuquerque chama a atenção para a importância de combinar diferentes estratégias de controle destacando o manejo integrado de regras (MIP). “O algodoeiro pode abrigar cerca de 30 espécies de insetos, mas aproximadamente meia dúzia representa ameaça econômica relevante nas condições brasileiras”, informa.
Ele revela que, entre elas, está o bicudo-do-algodoeiro, praga que se localizou no país na década de 1980 e teve papel importante na enorme redução da área de algodão no Nordeste. Altamente adaptado à cultura, o inseto pode permanecer em plantas voluntárias e áreas antigas de algodão, mesmo depois de muitos anos sem cultivo comercial.
Para Albuquerque, uma das medidas mais importantes e econômicas de prevenção é o vazio sanitário, período em que não deve haver plantas vivas de algodão nas áreas de produção. “A eliminação de rebrotas e plantas remanescentes interrompeu a disponibilidade de alimentos e locais de reprodução para o bicudo, diminuindo a população da praga entre as safras”, avalia o pesquisador.
“Experimentos descobriram a importância dessa prática. Em uma área na qual foi simulada a ausência de vazio sanitário, permitindo a rebrota de plantas podadas, a infestação inicial de bicudos chegou a aproximadamente 40% na primeira amostragem. Isso ocorre porque as plantas adultas rebrotam rapidamente e voltam a emitir estruturas reprodutivas, oferecendo condições para a multiplicação do inseto”, explica o agrônomo.
O pesquisador da Embrapa Algodão também destaca a importância de preservar os inimigos naturais presentes no ambiente, como parasitoides e predadores. “Entre os organismos de interesse estão Bracon vulgaris e Catolaccus grandis , este último associado à tecnologia de controle biológico conhecida como Jaliscoa”, diz.

Dos principais desafios da cotonicultura na região do semiárido é a pressão de insetos-praga, especialmente o bicudo-do-algodoeiro Foto Sebastião José de Araújo/Embrapa Meio Ambiente/Divulgação
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Resistência de insetos às tecnologias de controle
Outro desafio, de acordo com informação de Albuquerque, é a resistência de insetos às tecnologias de controle. Ele acredita que o uso intensivo de cultivares com tecnologia Bt, sem áreas de refúgio restritas, contribuiu para aumentar a pressão de seleção sobre a legislação de lagartas. “Em algumas regiões de produtos, isso levou à necessidade de cinco a oito aplicações de inseticidas para o controle dessas práticas, em particular de Spodoptera”, afirma.
Segundo o especialista, a orientação é que o controle químico seja utilizado de forma racional, somente quando o monitoramento indicar que a população da praga atingiu o nível de controle, evitando pulverizações preventivas sucessivas que possam prejudicar os organismos benéficos e evitar desequilíbrios no meio ambiente.
Drones ampliam eficiência do controle biológico
O pesquisador Tardelly de Andrade Lima, doutorando da Embrapa, ressalta as tecnologias de drones para diferentes operações agrícolas, com destaque para a liberação de macrorganismos utilizados sem controle biológico. “Além dos equipamentos de imagem e dos drones de usinagem, a Embrapa trabalha com uma tecnologia específica para dispersar benefícios benéficos nos trabalhos”, conta.

Algodão colorido Foto Embrapa Meio Ambiente/Divulgação
Segundo ele, o sistema utiliza pequenos tubos para acondicionar os organismos e realizar a liberação durante o voo. A tecnologia permite distribuir parasitóides e outros agentes de controle biológico sem a necessidade de deslocamento manual de trabalhadores para toda a área cultivada.
Lima completa que, com o equipamento, é possível cobrir um hectare em aproximadamente oito minutos, rápido o tempo e o esforço operacional. Entre os organismos que podem ser liberados estão Jaliscoa grandis, utilizada no controle do bicudo, e espécies de Trichogramma, empregadas contra lagartas.
O especialista orienta ainda que, para o controle do bicudo, a recomendação considera a liberação de aproximadamente 730 parasitóides por hectare. “Cada tubete contém 30 indivíduos, sendo necessários cerca de 25 tubetes para cobrir um hectare. As liberações devem começar com o aparecimento dos primeiros botões florais, antes que a população da praga alcance o nível de controle”, detalha.
O pesquisador explica que drones multiespectrais podem auxiliar no monitoramento das atividades. “Por meio de índices de vegetação, como o NDVI e o NDRE, é possível identificar diferenças de vigor e localizar áreas com possíveis problemas, como falhas no desenvolvimento, ataques de insetos ou doenças”, informa.
“Esses mapas não identificam necessariamente a causa da anomalia, mas ajudam a direcionar as equipes de campo para os pontos que precisam de avaliação. Com isso, o monitoramento se torna mais eficiente e permite intervenções localizadas e oportunas”, enfatiza Lima.
Tecnologias inovadoras também à agricultura familiar
A adaptação das tecnologias à realidade dos pequenos produtores foi um dos pontos destacados durante a programação da ExpoCariri 2026. Lima apresentou resultados de pesquisas para reduzir os custos de produção de parasitóides, produzindo materiais importados por alternativas mais acessíveis e reutilizáveis.
Ele revela que, em um dos experimentos, a substituição de um material utilizado na criação dos insetos afetados reduz custos e amplia a capacidade de produção. “Com uma equipe de duas pessoas, foi possível produzir cerca de 2.500 parasitoides por semana”.
O pesquisador Paulo Barroso divulga ainda que o Campo Experimental da Embrapa em Barbalha deverá funcionar como polo de testes e validação de tecnologias para a agricultura familiar, incluindo soluções para o controle do bicudo e para a tolerância das plantas à seca.
“A integração entre bioinsumos, monitoramento por drones, controle biológico e práticas culturais representa um caminho para tornar a cotonicultura mais eficiente e menos dependente de aplicações sucessivas de produtos químicos. A expectativa é que a aproximação entre pesquisas, produtores e parceiros regionais contribua para ampliar o acesso às inovações e fortalecer a produção de algodão no semiárido”, conclui o pesquisador.








