Se bem-sucedida em escala comercial, a semente de cana pode fazer com que uma das culturas mais tradicionais do Brasil dê um salto tecnológico comparável ao que os grãos viveram nas últimas décadas (Foto: Neide Furukawa/Embrapa)
A cana-de-açúcar sempre foi uma exceção entre as grandes culturas agrícolas. Enquanto grãos como soja e milho são plantados por sementes, o cultivo da cana depende, até hoje, do uso de colmos — pedaços do próprio caule — distribuídos no solo em grandes volumes.
As mudas utilizadas no plantio são pedaços desses colmos, que brotam e formam novas plantas.
Essa lógica, no entanto, pode estar perto de mudar.
A chamada “semente de cana”, desenvolvida por meio de biotecnologia avançada, surge como uma das principais apostas para transformar o setor sucroenergético.
A inovação, liderada pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), consiste em uma semente sintética produzida em laboratório, capaz de regenerar uma planta completa.
Trata-se de um material biológico cultivado in vitro, ou seja, em ambiente controlado, que é encapsulado em uma estrutura protetora. Essa cápsula permite que a semente seja manipulada, armazenada, transportada e plantada mecanicamente, como já ocorre com outras culturas.
Melhora da eficiência
Na prática, o avanço elimina uma das maiores ineficiências do modelo atual.
Hoje, o plantio de um hectare de cana pode exigir mais de 16 toneladas de colmos, demandando o uso intensivo de máquinas pesadas, alto consumo de combustível e grande volume de insumos.
Com a semente sintética, esse volume cairia para cerca de 400 quilos por hectare, uma mudança que altera radicalmente a logística, o custo e o impacto ambiental da cultura.
Além da redução de escala física, a biotecnologia por trás da semente de cana permite ganhos qualitativos. Como o material é produzido em laboratório, ele já nasce livre de doenças, contribuindo para a formação de canaviais mais homogêneos e saudáveis.
Também abre espaço para maior controle genético, com potencial de seleção de características como maior produtividade, resistência a pragas e adaptação a estresses climáticos.
Esse controle começa ainda na fase celular. O processo envolve a multiplicação de tecidos vegetais com capacidade de regeneração — técnica conhecida como cultura de tecidos —, seguida pelo encapsulamento em um invólucro que simula as funções de uma semente natural.
Um dos desafios tecnológicos está justamente em garantir que essa estrutura ofereça proteção suficiente sem comprometer a germinação e o desenvolvimento inicial da planta.
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Redução da área necessária para viveiros
Segundo o CEO do CTC, César Barros, a tecnologia tem potencial de mudar estruturalmente o setor.
“Estamos dando um passo fundamental para colher os resultados dessa tecnologia. O uso da semente sintética de cana-de-açúcar será uma disrupção na forma como plantamos a cana, trazendo aumento de produtividade e de margens agroindustriais, além da redução de emissões de gases de efeito estufa”, afirma.
Os ganhos vão além do campo operacional. A possibilidade de armazenar e transportar sementes com maior facilidade tende a ampliar o alcance geográfico da cultura, facilitando a expansão para novas áreas e reduzindo a dependência de viveiros para produção de mudas.
Também encurta o ciclo de renovação dos canaviais, permitindo manter as lavouras em estágios mais produtivos por mais tempo.
Outro eixo de desenvolvimento envolve o aprimoramento da própria semente sintética. Pesquisas em curso buscam aumentar a taxa de germinação, melhorar a uniformidade do desenvolvimento e ampliar o prazo de validade do material, um fator-chave para viabilizar a logística em larga escala.
Há ainda esforços para tornar o sistema mais resiliente, inclusive com a incorporação de características de resistência a pragas.
Esse conjunto de inovações se insere em uma estratégia mais ampla do CTC, que há mais de uma década investe em biotecnologia aplicada à cana. A empresa já foi responsável pelo desenvolvimento da primeira variedade transgênica da cultura no mundo, resistente à broca, e hoje suas variedades representam cerca de um terço da produção nacional.
O avanço das sementes sintéticas também conta com apoio institucional. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social aprovou R$ 83,96 milhões em financiamentos para projetos do CTC, incluindo a construção de uma planta-piloto dedicada à produção dessas sementes. A unidade, instalada em Piracicaba (SP), deve produzir material suficiente para o plantio de até 500 hectares por ano em sua fase inicial.
Fonte: Agência BNDES








