Se confirmada em escala industrial, a biofabricação de couro pode inaugurar um novo capítulo na relação entre campo, indústria e ciência — com o Brasil buscando espaço em uma cadeia global que se move em direção a materiais de origem celular (Imagem: Reprodução/Moondo)
A produção de couro pode estar prestes a passar por uma transformação estrutural — com implicações que vão do agronegócio à indústria da moda de alto padrão.
A biotech brasileira Moondo desenvolve couro legítimo por cultivo celular, sem necessidade de criação ou abate de animais, em uma proposta que busca combinar desempenho premium, rastreabilidade e menor impacto ambiental.
A proposta é reproduzir o que a natureza faz — mas em ambiente controlado. O processo começa com a coleta de fibroblastos, células responsáveis pela produção de colágeno na pele animal. Em biorreatores, essas células são cultivadas em biomateriais tridimensionais, onde se multiplicam e formam uma matriz rica em colágeno.
A partir daí, entram técnicas de engenharia de tecidos. Métodos exclusivos desenvolvidos pela empresa transformam essa matriz em uma estrutura tridimensional espessa e resistente, formando uma derme real.
Após o crescimento controlado, o material passa por um processo de curtimento vegetal, resultando em couro genuíno com propriedades mecânicas comparáveis às do material tradicional.
Segundo a companhia, o sistema permite controle de espessura, textura e desempenho, além de rastreabilidade total da origem celular ao produto final — algo ainda raro na cadeia global do couro.
Estratégia de financiamento e escala
A biotech brasileira Moondo abriu uma rodada de R$ 4,28 milhões na plataforma EqSeed para escalar a produção de couro legítimo obtido por cultivo celular, sem necessidade de criação ou abate de animais.
A oferta pública está aberta a investidores e ocorre sob autorização da Comissão de Valores Mobiliários. Os recursos serão usados principalmente para estruturar um laboratório próprio e avançar na validação comercial do material junto ao mercado de luxo. O nicho foi escolhido por sua maior capacidade de absorver os custos iniciais da biotecnologia.
Do total captado, 80% será destinado à infraestrutura laboratorial. Outros 10% irão para marketing e proteção de propriedade intelectual, enquanto 10% financiarão contrapartidas em projetos de subvenção econômica.
No vídeo, imagens do primeiro protótipo de couro cultivado em laboratório da empresa em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (Imagem: Reprodução Linkedin)
Agronegócio e cadeia do couro sob pressão
A inovação dialoga diretamente com desafios estruturais do agronegócio e da indústria do couro. O setor global movimentou cerca de US$ 304,8 bilhões em 2024 e pode alcançar US$ 376 bilhões até 2029. O Brasil ocupa posição estratégica como terceiro maior exportador mundial.
Ao mesmo tempo, a cadeia tradicional enfrenta pressões ambientais e regulatórias crescentes. A produção convencional pode envolver até 170 substâncias químicas e elevado consumo hídrico.
Estimativas indicam que uma bolsa de couro bovino pode demandar mais de 17 mil litros de água ao longo de sua cadeia produtiva. Soma-se a isso a crescente exigência de rastreabilidade por parte de consumidores e reguladores internacionais.
Nesse contexto, o couro cultivado surge como alternativa para reduzir impactos e ampliar transparência. O cultivo celular ocorre em ambiente estéril e controlado, com uso de bioinsumos e sem necessidade de reprodução animal, confinamento ou abate.
Luxo como porta de entrada
A tese de mercado mira o segmento de alto luxo, em que couros exóticos podem superar US$ 600 por metro quadrado. Esse posicionamento permite viabilizar economicamente a tecnologia enquanto a empresa trabalha na redução de custos e ganho de escala.
A empresa afirma já ter isolado linhagens celulares bovinas com alta capacidade de produção de colágeno e validado propriedades mecânicas comparáveis às da pele animal. O próximo passo é consolidar a plataforma tecnológica e estabelecer parcerias comerciais com marcas globais.
A produção de materiais por agricultura celular vem sendo apontada como uma das fronteiras da bioeconomia. No caso do couro, a promessa é combinar desempenho premium com rastreabilidade e menor pressão ambiental — atributos cada vez mais valorizados em cadeias globais de valor.
Para o agronegócio, a tecnologia não substitui imediatamente a produção tradicional, mas sinaliza um novo eixo de competição baseado em biotecnologia, sustentabilidade e controle produtivo.








