O uso dos bebedouros com bico não alterou o consumo de leite, a ingestão de ração nem o crescimento dos bezerros.
A utilização de bebedouros acoplados com bico artificial é uma alternativa para reduzir o comportamento de amamentação em bezerros leiteiros criados em grupo, a pasto ou em confinamento.
A constatação é da Embrapa Pecuária Sudeste (SP), que desenvolveu pesquisa objetivando buscar estratégias para melhorar o bem-estar dos animais, uma vez que alguns comportamentos, como a mamada cruzada, comprometem o seu desenvolvimento saudável. O estudo foi realizado em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp Botucatu).
Teresa Alves, médica veterinária e pesquisadora da Embrapa, conta que foram comparados os comportamentos de animais da raça Jersolanda (resultante dos cruzamentos de Holandês com Jersey) ao usarem bebedouros com bicos e bebedouros tradicionais.

A pesquisa comparou o comportamento de bezerros da raça Jersolanda, criados em grupo, ao usar bebedouros com bicos e dispositivos de abastecimento de água tradicionais Embrapa Pecuária Sudeste/Divulgação
Mamada cruzada
De acordo com a especialista, apesar dos ganhos para o bem-estar, os produtores frequentemente hesitam em adotar o modelo de criação de animais em grupo porque ele favorece a mamada cruzada. “Esse hábito acontece por causa do instinto natural de os bezerros sugarem uns aos outros, mas pode ser prejudicial ao desenvolvimento dos animais e levar a lesões e problemas de saúde, além de interferir no desempenho produtivo (veja detalhes no quadro O Problema da mamada cruzada).
Para a pesquisadora da Embrapa o que leva a esse comportamento é a falta de estímulos de realização adequada. “Práticas como a separação do filho da vaca e a alimentação com leite restrito a determinados momentos limitam o comportamento natural do bezerro mamar em sua mãe e aumentam a regularidade da sucção cruzada. Assim, o acesso a um bico artificial nos bebedouros, para a oferta de água, é uma prática interessante, pois reduz a mamada cruzada e permite aos animais satisfazer à necessidade natural de sugar ao longo do dia”, explica.
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Estratégia
Matheus Deniz, professor do Departamento de Produção Animal e Medicina Veterinária Preventiva da Unesp, ressalta que em sistemas a pasto, um ambiente mais natural e enriquecido, essa estratégia é ainda mais relevante, pois aproxima o animal da experiência que teria junto com a mãe.
“No estudo, observamos que os bezerros usaram o bebedouro com bico incluído durante a noite. Ao proporcionarmos oportunidades para que satisfaçam o instinto de sucção, além de reduzirmos práticas indesejáveis como a mamada cruzada, promovemos melhores níveis de bem-estar sem comprometer o desempenho zootécnico dos bezerros”, observa o professor.
A pesquisadora da Embrapa complementa que a interação social melhorou o desenvolvimento e o crescimento dos bezerros, ao mesmo tempo que fortalece a capacidade de lidar com mudanças de ambiente e situações de estresse, comuns na fase de desmame. “Quando optamos por um sistema coletivo de criação de bezerros, estamos pensando em criá-los dentro da estrutura para a qual ele foi desenvolvido. Os bovinos são animais gregários, vivem em comunidade. Quando estão em conjunto, aprendem e se socializam”, afirma.
Facilidade de manejo
Nos experimentos, foi observado que os filhotes que utilizaram os baldes abertos para ingestão de água direcionaram a extração cruzada para o umbigo de outro animal com frequência duas vezes maior do que os bezerros no outro tratamento. A mamada cruzada direcionada ao escroto ou à base do úbere foi observada apenas nesses bezerros que tomavam água dos baldes.
Outra vantagem observada na pesquisa e no dia a dia da fazenda, de acordo com informação de Teres Alves, foi a facilidade de manejo quando os animais estão em grupos. “Os bezerros são mais dóceis e a lida é facilitada. Dessa forma, o tempo gasto para tratar um grupo de animais é o mesmo que se gastaria tratando-os individualmente, otimizando a força de trabalho”, detalha a veterinária.
Frequência de sucção cruzada
A pesquisadora da Embrapa revela ainda que, nos experimentos, vou observado que a frequência de sucção cruzada foi de cinco vezes ao dia em grupos que usavam bebedouros com bico. “Já a periodicidade dessa prática onde o bebedouro era aberto foi de cerca de nove vezes ao dia”, afirma a especialista.
Em relação à duração desses eventos, de acordo com Teresa, não houve diferença. “O comportamento foi apresentado geralmente após a amamentação com leite”, enfatiza.
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O uso dos bebedouros com bico não alterou o consumo de leite, a ingestão de ração nem o crescimento dos bezerros Embrapa Pecuária Sudeste/Divulgação
Mais resultados do experimento
A cientista da Embrapa conta ainda que as visitas ao bebedouro também foram semelhantes. Contudo, os animais dos tratamentos com bico adaptado mais tempo no local. Ao usar o bico, o filhote bebe devagar, passando mais tempo no bebedouro. “O bico obriga o bezerro a fazer mais força para ingerir a água, estimulando a salivação, a saciedade e a vontade de mamar”, explica.
Segundo a veterinária, o consumo de água não foi significativamente diferente. Os animais que estavam nos grupos com bebedouros com bico beberam cinco litros de água à noite e quatro durante o dia. Os que ficaram com os baldes abertos, 5,5 litros à noite e cinco litros no período diurno.
Em sua avaliação, apesar do método de disponibilização de água não ter influenciado significativamente o consumo, os bezerros que utilizaram os bebedouros com bico beberam mais água à noite.
Os pesquisadores acreditam que esses animais têm seu comportamento de beber ajustado para satisfazer suas necessidades naturais de sucção, possivelmente como uma resposta compensatória aos horários fixos da alimentação com leite. “O simples acréscimo de um bico nos bebedouros se mostra uma alternativa de baixo custo e fácil adoção, especialmente relevante para propriedades que buscam produtividade aliada ao bem-estar animal”, defende a veterinária.
O estudo demonstrou também que não houve efeito do método de fornecimento de água na ingestão de leite, nem na frequência de visitas ao cocho de ração ou na duração da ingestão de ração. O crescimento dos bezerros não foi afetado, diminuindo o fato de o bebedouro com bico atender às necessidades de ingestão de água e apoiar o crescimento esperado.
A especialista conclui que os resultados destacam que fornecer acesso à água por meio de bicos apoia a necessidade de sucção ao longo do dia sem levar a uma ingestão excessiva que possa impactar qualidades ou crescimento.
Fonte: Embrapa Pecuária Sudeste
Foto abertura: Os bebedouros com bico reduziram a frequência de mamada cruzada de nove para cinco vezes ao dia Foto Embrapa Pecuária Sudeste/Divulgação
O problema da mamada cruzada
Teresa Alves destaca que a transmissão cruzada em áreas sensíveis devido às implicações para a saúde e o bem-estar dos animais, como riscos de carga umbilical, formação de bolas de pelo e, mais tarde, danos ao úbere e maior suscetibilidade à mastite. “A região da barriga é o mesmo local procurado pelo bezerro ao mamar na vaca. É uma região propensa a riscos à saúde quando ocorre esse tipo de conduta em momento inadequado, fora do tempo da amamentação. O ato de o bezerro pegar a glândula mamária e ficar succionando pode até mesmo causar a perda dessa parte do corpo, além de outras implicações graves”, alerta a veterinária.
A especialista relata que a mamada cruzada acontece quando bezerros passam a sugar uns aos outros, principalmente após a alimentação com leite. “O comportamento surge porque o animal mantém o instinto natural de sucção, mas encontra poucas oportunidades para exercê-lo ao longo do dia”, explica.
Segundo ela, os resultados da pesquisa mostram a importância de estratégias de manejo que atendam às necessidades naturais de atração dos bezerros, especialmente em ambientes enriquecidos capazes de promover interações sociais e desenvolvimento comportamental.
Experimento
Participaram 24 mil bezerros do sistema de produção de leite da Embrapa Pecuária Sudeste. Os bebedouros com bicos foram adaptados pela equipe de pesquisa a partir de baldes coletivos para fornecimento de leite já existentes no mercado. Para melhorar o equipamento, foram fixadas boias para o abastecimento automático de água.
Os animais foram divididos em grupos com acesso livre a pasto, ração inicial e sombra. Duas vezes ao dia, foram oferecidos três litros de leite em baldes com bico para os bezerros nos dois tratamentos: grupos com o uso de bebedouros de água com bico e grupos com o bebedouro aberto tradicional.
As observações comportamentais e tendências de crescimento foram realizadas semanalmente desde o nascimento até o desmame. O consumo de água foi registrado duas vezes ao dia, nos períodos diurno e noturno. A ração foi fornecida uma vez ao dia, após a alimentação matinal com leite.
O pasto onde os bezerros planejados tem uma área total de 770 metros quadrados (m²), composta por capim Cynodon, dividida em 12 piquetes de 64 m², com sombra artificial.








