Pontos de coleta e parcerias com cooperativas de catadores são soluções que devem ajudar na destinação correta dos materiais descartados (Foto: Divulgação)
Todos os anos, o Carnaval gera grandes quantidades de resíduos – no último ano, em São Paulo (SP), as equipes de limpeza recolheram 322,83 toneladas, dos quais 63,43 toneladas eram recicláveis; em Salvador (BA), foram 200 toneladas recolhidas e, no Rio de Janeiro (RJ), mais de 100 toneladas de resíduos.
Um volume tão elevado de descartes gera um grande desafio para a gestão pública: garantir que todo o material coletado tenha a destinação adequada. Diante desse cenário, o engenheiro de materiais, Irineu Bueno Barbosa Junior, defende que são necessárias estratégias que unam Estado, consumidores, iniciativa privada e cooperativas para uma gestão mais inteligente dos resíduos.
Ele comenta que, no Brasil, a coleta seletiva já é, por si só, um grande desafio – segundo o IBGE, 40% dos municípios brasileiros ainda não têm esse tipo de serviços, o que mostra que ainda há muito a ser feito nesse sentido. Em eventos de grande porte como o Carnaval, em que centenas de toneladas de materiais são descartados em poucos dias, há uma sobrecarga dos sistemas de coleta, por isso a contribuição de outros setores se faz necessária.

Segundo o IBGE, 40% dos municípios brasileiros ainda não têm serviços de coleta seletiva. Foto: Divulgação
“Nas festividades, é muito comum que os descartes sejam feitos de forma desatenta, fazendo com que resíduos como embalagens de PET se contaminem e deixem de ser recicláveis. Isso dificulta o trabalho de catadores, garis, recicladoras, e gera impactos ambientais bastante negativos”, afirma o especialista.
Como promover o descarte consciente
Um dos primeiros passos sugeridos é a promoção de campanhas que conscientizem os foliões a descartar corretamente as embalagens dos produtos consumidos. “É importante levar essa reflexão para o consumidor, lembrando que os resíduos gerados nos blocos de rua ou nos desfiles de escolas de samba precisarão ter uma destinação adequada. Tanto o Poder Público quanto as próprias empresas de bebidas, alimentos, filtros solares e outros itens comuns no Carnaval, devem comunicar ao público a forma correta de descartar as embalagens e garantir que os itens sigam para as recicladoras”, aponta Barbosa.
E não basta que o público esteja consciente sobre a importância do descarte correto; é fundamental que existam estruturas acessíveis para viabilizar essa prática. A instalação de Pontos de Entrega Voluntária (PEVs) em locais de grande circulação é uma estratégia eficaz para permitir que os consumidores exerçam, na prática, seu papel na gestão eficiente dos resíduos. “A participação do setor privado é essencial nesse processo. Grandes eventos e blocos de rua, por exemplo, já contam com patrocinadores que distribuem brindes durante o Carnaval. Por que não associar essas ativações à oferta de pontos de coleta para o descarte adequado dos resíduos? É uma iniciativa simples, viável e que pode gerar um impacto positivo significativo na sustentabilidade das festas”, sugere.

A instalação de Pontos de Entrega Voluntária (PEVs) em locais de grande circulação é uma estratégia eficaz para permitir que os consumidores exerçam, na prática, seu papel na gestão eficiente dos resíduos. Foto: Divulgação
Além da oferta de infraestrutura para o descarte correto, a integração com cooperativas de catadores é um passo fundamental para dar eficiência e escala à gestão dos resíduos gerados em grandes eventos. Um exemplo é o Bloco da Reciclagem, iniciativa da Associação Nacional dos Catadores (ANCAT) em parceria com a Ambev, o Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR), o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), a Unicatadores, com apoio da Novelis e da Secretaria Executiva de Limpeza Urbana (Selimp), da Prefeitura de São Paulo.
Em 2025, cerca de 250 catadores atuaram na limpeza do Parque Ibirapuera, com os resíduos coletados encaminhados à Coopamare, cooperativa responsável pela triagem e destinação adequada dos materiais recicláveis. A ação mostra como a combinação entre pontos de coleta, logística e inclusão social pode gerar resultados concretos para a cidade. “Parcerias desse tipo produzem um impacto social relevante, ao gerar renda para os catadores, e ao mesmo tempo asseguram limpeza urbana e responsabilidade ambiental durante o Carnaval. Por isso, iniciativas como essa precisam ser encaradas como modelo e ampliadas, estimulando o engajamento de mais empresas e entidades”, complementa Barbosa.
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Importância da reciclagem
Para o executivo, o debate sobre a gestão dos resíduos é fundamental não apenas pela limpeza dos espaços públicos como pela promoção da economia circular no Brasil. “O Carnaval é uma das grandes oportunidades ao longo do ano para repensarmos a forma como lidamos com os materiais recicláveis que são descartados. Há nos resíduos um grande potencial de uso, com impacto socioambiental indiscutivelmente positivo. Não podemos abrir mão desse debate”, comenta.
Em janeiro deste ano, passaram a valer as exigências do Decreto nº 12.688/2025, publicado pelo Governo Federal, que instituiu o Sistema de Logística Reversa de Embalagens de Plástico. A norma estabelece diretrizes para a logística reversa, define obrigações para as empresas do setor e, sobretudo, fixa metas claras para o uso de matéria-prima reciclada. A partir deste ano, todas as embalagens devem conter ao menos 22% de resina reciclada, percentual que será ampliado de forma progressiva até atingir 40% em 2040. “À luz desse novo marco regulatório, torna-se ainda mais relevante discutir formas de incentivar a reciclagem em grandes eventos, envolvendo de maneira coordenada os setores econômicos, o poder público e os consumidores”, afirma.

O engenheiro de materiais, Irineu Bueno Barbosa Junior. Foto: Divulgação
A reciclagem de PET, em especial, tem benefícios ambientais incontestáveis. Um estudo conduzido pela Abipet aponta que a produção de PET reciclado pode ter uma pegada de carbono 73% menor do que a da resina virgem. Isso ocorre porque o material reciclado elimina etapas intensivas em energia — como a extração e o refino de petróleo —, emitindo muito menos gases de efeito estufa (GEE). Além disso, a reciclagem gera empregos, movimenta economias locais e promove inclusão produtiva, especialmente entre cooperativas e catadores, que são a base dessa cadeia.
“Reciclar significa evitar que milhões de embalagens sejam destinadas a aterros ou se percam na natureza, significa reduzir emissões e transformar o que antes era problema em oportunidade. Se conseguirmos lidar com o alto volume de descarte gerado no Carnaval, então a gestão dos resíduos ao longo do ano tenderá a ser também mais inteligente”, finaliza Barbosa.








