Pesquisa indica que sistemas de manejo conservacionistas, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), na imagem, têm potencial para mitigar emissões e transformar o solo agrícola em reservatório de carbono (Foto: Breno Lobato/Embrapa)
A conversão de vegetação nativa em áreas agrícolas no Brasil deixou, ao longo das últimas décadas, um passivo ambiental expressivo: a chamada “dívida de carbono” nos solos. Mas esse déficit não é irreversível.
Um estudo publicado na revista Nature Communications mostra que, com o uso de práticas sustentáveis, a agricultura brasileira pode recuperar parte significativa do carbono perdido e assumir um papel estratégico no combate às mudanças climáticas.
Intitulada Soil Carbon Debt from Land Use Change in Brazil, a pesquisa foi conduzida por cientistas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), da Embrapa Agricultura Digital e do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical da Universidade de São Paulo (CCARBON/USP), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela FAPESP.
O trabalho indica que sistemas de manejo conservacionistas têm potencial não apenas para mitigar emissões, mas também para transformar o solo agrícola em um importante reservatório de carbono.
Para chegar a essa conclusão, foram comparadas áreas agrícolas e remanescentes naturais na Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Pantanal.
A análise considerou ainda como diferentes sistemas de manejo, a formação dos solos e as condições climáticas regionais influenciam a perda, a manutenção ou a recuperação do carbono ao longo do tempo.
Potencial de recarbonização

Exemplo de recuperação de pastagens degradadas com nabo forrageiro. Foto: Luiz Henrique Magnante/Embrapa
Biomas como a Mata Atlântica, por exemplo, apresentam altos estoques de carbono no solo, impulsionados pela elevada produtividade vegetal.
Já na Amazônia, apesar do grande aporte de matéria orgânica, o clima quente e úmido favorece a decomposição, limitando a estocagem. No Cerrado e na Caatinga, a dinâmica do carbono resulta de combinações específicas entre clima, textura do solo e histórico de uso da terra.
Apesar de escancarar um passivo ambiental relevante, o estudo traz uma mensagem considerada otimista pelos pesquisadores.
Os resultados indicam que a área agrícola brasileira concentra elevado potencial de recarbonização.
A recuperação de pastagens degradadas, por exemplo, pode recompor entre 14% e 23% dos estoques de carbono orgânico perdidos.
Sistemas mais diversificados, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), além do uso de plantas de cobertura e do plantio direto, mostraram-se capazes de aumentar o aporte de resíduos vegetais e favorecer o acúmulo de carbono no solo.
De acordo com as estimativas, recuperar cerca de um terço do potencial total identificado já seria suficiente para que o Brasil alcançasse a meta de redução de 59% a 67% das emissões de gases de efeito estufa até 2035, prevista em sua nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC).
Na prática, isso poderia ser atingido com o aproveitamento de aproximadamente 40% a 45% do potencial de recuperação da Mata Atlântica e do Cerrado, equivalente a 3,8 Pg de CO₂.
“A principal contribuição do estudo foi revelar a oportunidade que existe na agricultura. Ao quantificar a dívida de carbono dos solos, conseguimos enxergar com mais clareza o potencial de recarbonização dos biomas brasileiros e as possibilidades reais de recuperação de áreas degradadas, mostrando que práticas sustentáveis podem transformar o solo em um aliado da produção e da mitigação climática”, afirma Maurício Roberto Cherubin, diretor de pesquisa do CCARBON/USP.
O potencial ganha ainda mais peso quando se considera a dimensão da agropecuária nacional.
Dados do MapBiomas indicam que cerca de 282,5 milhões de hectares — aproximadamente um terço do território brasileiro — são destinados atualmente à agricultura e à pecuária.
Segundo o estudo, a adoção de práticas sustentáveis nessas áreas já convertidas permitiria avançar simultaneamente na produção de alimentos, na recuperação dos solos e no cumprimento dos compromissos climáticos, sem a necessidade de novos desmatamentos.
“Quando a gente mapeia a lacuna de carbono no solo, fica mais fácil fortalecer programas como o ABC+, hoje RenovAgro. A informação ajuda a dar mais credibilidade aos créditos de carbono baseados no solo e identificar onde estão as melhores oportunidades de sequestro e restauração. Isso conecta a ciência às políticas públicas e ao mercado, e coloca o solo no centro da ação climática”, destaca Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, diretor do CCARBON/USP.
Dívida de carbono
A base do estudo é uma ampla metanálise que reuniu 4.290 registros sobre estoques de carbono orgânico do solo nos seis biomas brasileiros.
A partir desse conjunto de dados, os pesquisadores estimaram que a conversão de áreas naturais para a agricultura resultou em uma perda acumulada de 1,40 ± 0,1 petagrama de carbono (Pg C) na camada superficial do solo, entre 0 e 30 centímetros. Esse volume representa a quantidade de carbono que deixou de ser armazenada no solo após a retirada da vegetação nativa.
Um dos pontos centrais do trabalho é a explicação de como essa dívida se forma.
Segundo os autores, o clima e as características pedogenéticas são determinantes. Solos naturalmente mais ricos em carbono — comuns em regiões mais frias, úmidas ou com maior teor de argila e minerais capazes de proteger a matéria orgânica — tendem a sofrer perdas mais intensas quando convertidos para uso agrícola.
Isso ocorre, principalmente, quando práticas como aragem e gradagem rompem os agregados do solo que protegiam o carbono. Com a quebra dessas estruturas, o oxigênio penetra nas camadas internas, acelerando a oxidação da matéria orgânica por microrganismos. O resultado é a liberação rápida de carbono para a atmosfera.
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O fator tempo também se mostrou decisivo. Os primeiros 15 anos após a conversão da vegetação nativa são os mais críticos, concentrando as perdas mais intensas e aceleradas de carbono no solo.
Embora já existissem estimativas sobre a dívida de carbono associada à conversão de ecossistemas naturais no Brasil, o diferencial deste estudo foi a análise individualizada por bioma. Essa abordagem revelou que o passivo não se distribui de forma homogênea pelo território nacional, refletindo a diversidade de solos, climas e formações vegetais do país.
“O estudo teve como principal contribuição a estimativa da dívida de carbono no solo, interpretada como o potencial teórico de recarbonização dos solos agrícolas e como um indicativo do potencial para o mercado de carbono, além do estabelecimento da linha de base dos estoques de carbono orgânico em áreas nativas e agrícolas”, afirma João Marcos Villela, primeiro autor do estudo.
Com base na elaboração de um banco de dados inédito sobre carbono orgânico no solo nos seis biomas brasileiros, o trabalho também evidenciou o potencial de práticas conservacionistas na recomposição do carbono perdido.
“Espera-se que esses resultados subsidiem a formulação de políticas públicas de mitigação climática no Brasil e orientem ações do setor privado, contribuindo para o direcionamento de estratégias de intervenção adaptadas às realidades regionais e para o cumprimento das metas climáticas do setor agropecuário”, diz Villela.








