Veterinários do Conselho Regional de Medicina Veterinária e voluntários de ONGs se mobilizam para resgatar animais atingidos pelo rompimento da barragem em Brumadinho (MG), após desastre causado pela mineradora Vale. Governo do Estado aciona instituições – como Epamig, Emater, IMA e Embrapa –, para calcular prejuízos para a agropecuária

Desde a última sexta-feira, 25 de janeiro, o Brasil está sensibilizado com o desastre ocorrido no município de Brumadinho, Minas Gerais, após o rompimento da barragem do Córrego do Feijão na área de atuação da empresa mineradora Vale. Até a tarde do dia 28, foram encontrados 60 corpos, mas o número pode aumentar, considerando que 292 pessoas ainda estão desaparecidas.

O governo do Estado de Minas Gerais, além das perdas humanas e de animais, já está calculando os prejuízos causados aos produtores rurais da região, que vivem da agropecuária. Para buscar corpos das vítimas e resgatar bichos presos à lama, os bombeiros também estão usando cães farejadores (assim como mostra a foto acima, do fotógrafo Ricardo Stuckert, disponível gratuitamente no site Fotos Públicas).

Até o momento, segundo relato da organização não governamental Proteção Animal Mundial (World Animal Protection, em inglês), não há informações sobre o impacto na vida (ou morte) de animais que vivem no local. Uma equipe da ONG internacional, que também atua no Brasil, foi deslocada para a cidade onde permanecerá à disposição das autoridades da região. O intuito é ajudar a garantir o resgate e atendimento dos animais atingidos, considerando que a instituição estima que milhares deles foram impactados pelo desastre ambiental.

“Estamos arrasados ​​ao saber que muitas pessoas e animais perderam a vida. Agora, nosso objetivo prioritário em Brumadinho é garantir que todas as necessidades dos animais afetados pelo desastre sejam asseguradas”, diz Helena Pavese, diretora executiva da Proteção Animal Mundial.

Ela acrescenta que “o fato de os animais não estarem nos planos de contingência, muito nos preocupa, pois a recuperação da comunidade afetada é mais lenta e dolorosa; e, além da perda humana, eles precisam se restabelecer economicamente”.

Avaliando as perdas

Liderada pela gerente de Programas Veterinários da ONG, Rosângela Ribeiro, a equipe da Proteção Animal Mundial está em Minas Gerais desde domingo, 27 de janeiro. Em um primeiro momento, a organização irá avaliar as perdas e danos causados aos animais pelo rompimento da barragem; trabalhar com o Conselho de Medicina Veterinária de Minas Gerais em estratégias de redução de riscos; e apoiar as equipes de resgate no que for necessário para o salvamento dos animais que ainda estão na área afetada.

Segundo destaca a ONG, Brumadinho é uma cidade rural com muito animais domésticos, como cães e gatos que vivem na localidade. A área também é um local de produção agrícola, composto por pequenos agricultores que criam principalmente gado, vacas leiteiras, galinhas e porcos para atender a demanda de Belo Horizonte.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que aproximadamente 15 mil bovinos, 3 mil vacas leiteiras e 10 mil suínos são criados (agora, eram criados) na área. Além disso, a parte florestal da região abriga milhares de animais silvestres, como mamíferos, répteis e peixes.

Expectativa dos veterinários

Veterinária da Brigada Animal do CRMV-MG, Carla Sassi sobrevoa sobre área atingida por rompimento de barragem em Brumadinho em busca de animais meio à lama. Foto: Divulgação Site Fato Real

De acordo com reportagem do jornal Estado de Minas, desde a tarde de sexta-feira (25), pouco depois do rompimento da barragem do Córrego do Feijão, um grupo de veterinários está em Brumadinho, aguardando liberação do Corpo de Bombeiros para tentar salvar animais atingidos pelo derramamento de rejeitos de minérios.

Até o fechamento da reportagem do EM (em 26 de janeiro, sábado passado), a Brigada Animal, vinculada ao Conselho Regional de Medicina Veterinária de Minas Gerais (CRMV-MG), contava com oito veterinários e quatro auxiliares – todos trabalhando voluntariamente.

“Tem muitos animais para serem resgatados, mas o foco agora são humanos, que estão sendo resgatados e levados para os hospitais. Assim que o Corpo de Bombeiros autorizar, começaremos nosso trabalho”, conta a veterinária Carla Sassi, da coordenação de campo da Comissão de Desastres do CRMV-MG.

Ela acrescenta que alguns animais foram resgatados da lama pelos militares, sendo a maioria de pequeno porte. “Os moradores também perderam galinhas, cães, vacas e bois”, contabiliza Carla.

A Brigada Animal do Conselho Regional de Medicina Veterinária de Minas Gerais se reúne desde 2011, em Nova Friburgo, tendo atuado em desastres ambientais no Estado do Acre e no rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, em novembro de 2015.

Ordem judicial para salvamento

Outra reportagem do Estado de Minas relata que a justiça de Minas Gerais determinou que a Vale também providencie o salvamento de animais atingidos por tragédia em Brumadinho. Segundo a publicação, o poder judiciário determinou que a empresa tome medidas para resgatar e tratar os bichos agonizantes presos em meio ao material, sob pena de pagamento de multa de R$ 50 mil por dia, além de responder pelo crime de desobediência.

A decisão foi da juíza plantonista Perla Saliba Brito, da comarca de Brumadinho. A magistrada determinou que a Vale contrate ou forneça equipes capacitadas para o acolhimento e tratamento dos animais agonizantes. Além disso, deverá dispor de medicamentos, alimentos, maquinários e todo qualquer meio adequado para o resgate.

Em sua determinação, a juíza deixou claro que, apesar da ordem para salvamento e tratamento dos animais atingidos pelo desastre causado pela Vale, em hipótese alguma, esse trabalho deve prejudicar a atuação dos bombeiros no resgate das vítimas humanas.

Na mesma reportagem (do dia 28 de janeiro), o EM divulgou que, oficialmente, as buscas pelos animais atingidos pelo rompimento da barragem do Córrego do Feijão começaram nesta segunda-feira. De acordo com a veterinária Carla Sassi, os bombeiros fizeram um voo pela manhã, para ajudar a localizar possíveis animais na lama ou ilhados.

Ainda segundo ela, há quatro equipes em campo buscando pelos animais atingidos pela lama. Carla também contou que foi preciso sacrificar uma vaca no domingo (27/1), pois, com a demora para a autorização para buscá-la, ela entrou em sofrimento. A morte foi acompanhada por médicos veterinários.

Multa já aplicada

Vista aérea de Brumadinho, após rompimento de barragem da Vale. Foto: Isac Nóbrega/Divulgação Presidência da República/Agência Brasil-EBC

O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) multou a mineradora Vale no sábado, 26 de janeiro, em R$ 250 milhões. A companhia é responsável pela barragem de rejeitos que se rompeu na região metropolitana de Belo Horizonte.

“A mineradora Vale, responsável pela catástrofe socioambiental ocorrida na tarde de ontem (25), em Brumadinho (MG), foi multada pelo Ibama neste sábado (26/1) em R$ 250 milhões”, diz nota do órgão.

Conforme publicação do dia 26 de janeiro da Agência Brasil, vinculado à Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) do governo federal, o valor da multa acumula cinco autos de infração no valor de R$ 50 milhões cada – o máximo previsto na Lei de Crimes Ambientais. Os autos foram aplicados com base no Decreto nº 6514/2008.

Ainda segundo a Agência Brasil, “a Vale está sendo multada por causar poluição que possa resultar em danos à saúde humana; tornar área urbana ou rural imprópria para a ocupação humana; causar poluição hídrica que torne necessária a interrupção do abastecimento de água; provocar, pela emissão de efluentes ou carregamento de materiais, o perecimento de espécimes da biodiversidade e por lançar rejeitos de mineração em recursos hídricos”.

“Os danos são decorrentes do rompimento de barragens da mina Córrego do Feijão. Ainda não foi inventariada a área atingida e os efeitos sobre a fauna e flora da região.”

Conforme nota do Ibama, também em publicação da Agência Brasil, agentes do instituto enviados a Brumadinho “monitoram o avanço dos rejeitos, avaliam os danos ambientais e atuam na busca por desaparecidos e no resgate de pessoas e animais que ficaram isolados em razão do desastre”.

Outros autos de infração e multas relacionados ao licenciamento das atividades de mineração poderão ser aplicadas pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam).

Prejuízos da agropecuária

Secretária de Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Estado de Minas Gerais, Ana Valentini se reúne com técnicos  da Emater-MG, IMA e Epamig. Foto: Divulgação Emater-MG

O governo do Estado de Minas Gerais já está fazendo um levantamento sobre o número de produtores rurais e das áreas de atividades agropecuárias prejudicados pelo rompimento da barragem de Feijão, em Brumadinho. Nesta segunda-feira (28/1), a secretária de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Ana Valentini, se reuniu com diretores e técnicos da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-MG), do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) e da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) para planejar as ações que serão implementadas.

O trabalho será feito em Brumadinho e nos municípios que ficam no trecho onde os rejeitos da barragem possam atingir a água do rio Paraopeba: Betim, Cachoeira da Prata, Caetanópolis, Curvelo, Esmeraldas, Felixlândia, Florestal, Igarapé, Inhaúma, Juatuba, Maravilhas, Mário Campos, Papagaios, Pará de Minas, Paraopeba, Pequi, Pompeu, São Joaquim de Bicas e São José da Varginha.

Conforme notícia publicada no site da Agência Minas, vinculada ao governo de Minas Gerais, técnicos da Emater-MG e do IMA farão um cruzamento de dados para identificar a produção agropecuária dos municípios prejudicados. No caso de Brumadinho, dados preliminares indicam que as áreas atingidas pela lama são principalmente de plantio de hortaliças.

“Em Brumadinho, como os técnicos ainda não tiveram acesso aos locais atingidos, estamos trabalhando com dados cadastrais e de georreferenciamento de produção. Já os produtores que ficam nos municípios a jusante e às margens do rio Paraopeba também irão receber visitas e orientação sobre a impossibilidade de irrigação. Vamos buscar os dados de análise de água do rio feita pela Copasa para que possamos orientar os produtores sobre a qualidade desta água”, explica Ana Valentini.

Água para o gado

Outra ação desenvolvida é o levantamento de demandas nas propriedades rurais às margens do rio Paraopeba, onde a água é usada pelos animais, principalmente pelo gado bovino.

“No caso dos animais, onde não for possível o consumo da água do rio, uma alternativa seria levar água em caminhões-pipa para estes locais e, onde isso não der para atender à propriedade, poderia ser estudada até a remoção destes animais para outras áreas”, afirma a secretária.

A Emater-MG também ará um levantamento dos produtores atingidos que obtiveram crédito rural junto a agentes financeiros. Se necessário, a Secretaria de Agricultura poderá solicitar aos bancos uma prorrogação do pagamento pelos produtores rurais. Num outro momento, será elaborado um plano de retomada da atividade agropecuária da região atingida.

A Epamig irá propor, para esse fim, um trabalho de análise de solo junto à Unidade de Solos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Fontes: ONG World Animal Protection, Jornal Estado de Minas, Agência Brasil/EBC e Agência Minas