Ações agroambientais, por meio de técnicas de manejo de solo, podem coibir a presença de aves nas imediações e nas pistas dos aeroportos, segundo aponta estudo de dois pesquisadores da Embrapa Pecuária Sudeste. Objetivo é afastar o chamado “risco de fauna” ou “perigo aviário”, que pode causar graves acidentes aéreos

A presença de aves de todos os tipos nas proximidades de aeroportos coloca em risco o tráfego aéreo no Brasil e no mundo. O bird strike – jargão usado pelo setor para casos de colisão entre uma ave e um avião – é um tipo de acidente que pode ser fatal.

Falcões e gaviões treinados para capturar urubus, carcarás e garças – a exemplo do que já está sendo feito desde 2013, no Aeroporto Internacional Tom Jobim (o Galeão), Rio de Janeiro – vêm sendo utilizado para afastar espécies voadoras nada bem vindas.

Outros aeroportos têm preferido utilizar drones para afastar o chamado “perigo aviário”, falcões-robôs que parecem de verdade e até mesmo cães, que ajudam a manter as aves longe das pistas.

Ações agroambientais, por meio de técnicas em terra, também podem combater esse problema que vem do ar. É o que apontam cientistas da Unidade Pecuária Sudeste (SP) da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), no artigo “Cobertura vegetal em aeroportos e gerenciamento de risco de fauna: uma visão agronômica”, veiculado recentemente na Revista Conexão SIPAER, publicação científica brasileira que trata da segurança de voos.

No artigo, os engenheiros agrônomos Francisco Dübbern de Souza e Marcos Rafael Gusmão propõem o termo “agricultura de aeroporto” para definir um conjunto de técnicas de manejo de cobertura vegetal de solo, que pode reduzir a presença de aves e de outros animais em áreas próximas a pistas de aeroportos.

Esse conjunto de práticas agronômicas visa à obtenção de uma cobertura vegetal do solo em faixas de pista em aeroportos, contribuindo para a redução de acidentes provocados por fauna com aeronaves, durante as fases de aterrissagem e decolagem.

Interesse pelo estudo

Souza relata que, quando começou a pesquisar gramados na Embrapa, não imaginava a interface que o tema teria com o setor aeroviário. Tão logo a notícia do projeto se espalhou, representantes do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) – órgão vinculado ao Comando da Aeronáutica (Comaer) – e de aeroportos brasileiros concessionados o procuraram, interessados nos resultados dos estudos.

De acordo com a Embrapa Pecuária Sudeste, em setembro de 2017, o pesquisador foi convidado a ministrar uma palestra no 1º AeroFauna, evento realizado em São Paulo que debateu o gerenciamento de risco da fauna nos aeroportos do Brasil.

“Esse tema é de grande interesse de quase todos os aeroportos do mundo”, reforça Souza.

Segundo a estatal, até o momento, a abordagem adotada sobre esse tema tem dado maior importância à fauna nesses ambientes. Tanto Souza quanto Gumsão propõem um olhar agronômico para o problema.

“Sentimos falta de maior ênfase ao papel do solo na cadeia alimentar da fauna que frequenta os aeroportos. Roedores, pássaros e insetos se alimentam de plantas e de sementes que, por sua vez, dependem do solo para se desenvolver”, diz Souza.

Pesquisador Francisco Dübbern (à esquerda) tem estudado cobertura vegetal em áreas próximas a pistas de aeroportos. Foto: Divulgação Embrapa

Menos atrativos em áreas de risco

A proposta é manejar o solo de modo que a vegetação nas áreas próximas às pistas dos aeródromos reduzam as oportunidades de alimentação, tornando a área menos atrativa para a fauna.

Conforme relata Souza, a cobertura vegetal em faixas de pista em aeroportos é importante por muitas razões.

“Se essas áreas ficarem descobertas, isto é, sem vegetação, poderão gerar poeira que irá prejudicar as turbinas das aeronaves. Além disso, deixam de se beneficiar dos muitos serviços ambientais prestados pela cobertura”, afirma o engenheiro agrônomo.

Esse tipo de cobertura presta numerosos serviços ambientais pelos quais são implantados, como controle de erosão, produção de oxigênio, fixação de carbono atmosférico, facilitação da infiltração de água no solo, biodegradação de compostos orgânicos sintéticos, supressão de plantas indesejáveis, dissipação de calor, atenuação de ruídos, redução de material particulado do ar (poeira), entre outros.

Gusmão acrescenta que o acompanhamento de um profissional em agronomia na implantação e no manejo das coberturas vegetais em aeroportos é uma forma de assegurar esses benefícios.

“Afinal, trata-se de uma agricultura especializada que requer um conjunto de critérios técnicos bem fundamentados e criteriosamente selecionados”, diz.

Dieta x riscos da fauna

Para indicar o melhor manejo para manter aves afastadas dos pontos de pousos e decolagens de aeronaves, os pesquisadores buscaram informações, na literatura especializada, sobre o que atrai as aves para esse ambiente.

Eles encontraram relatos de que formigas e gafanhotos são os grupos predominantes de artrópodes em vários dos principais aeroportos brasileiros, onde constituem parte importante da dieta das aves associadas a riscos de fauna.

Afirmam também que, em locais onde há grande ocorrência de gramíneas exóticas, rústicas e agressivas, existe abundante alimentação (flores e sementes, por exemplo) às aves, aos insetos e aos roedores.

“Se não forem podadas com frequência, podem representar problemas aos aeroportos”, diz Gusmão.

A própria operação de poda de gramas pode atrair aves, porque resulta em súbita disponibilização de alimentação para várias espécies de aves, atraindo-as e aumentando riscos de colisões com aeronaves. Uma possível forma para evitar esse problema é a poda noturna, já realizada em vários aeroportos brasileiros.

Para mais informações, leia o artigo na íntegra clicando no link: http://conexaosipaer.cenipa.gov.br/index.php/sipaer/article/view/573.

Ação do governo

Em novembro de 2014, o governo federal, por meio do Ministério do Meio Ambiente (MMA), publicou uma resolução proposta pelo Ministério da Defesa, dando segurança jurídica e agilidade à elaboração e aprovação dos planos de manejo de fauna em aeródromos.

Segundo o MMA, antes disso não havia uma regra clara estabelecendo diretrizes e procedimentos para elaboração e autorização dos planos de manejo de fauna em aeroportos. Não existia, por exemplo, um procedimento para comprovar e autorizar, em caráter emergencial, o manejo, principalmente de aves, em situações inesperadas de alto risco de colisão com aeronaves.

Naquela ocasião, o Centro de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave), do Instituto Chico Mendes (ICMBio), anunciou seu retorno à pesquisa sobre o tema, com a implementação de base avançada em Brasília, com o objetivo de buscar soluções inovadoras para evitar a ocorrência de fauna nas proximidades dos aeroportos.

A medida do Conama regulamentou a Lei nº 12.725, aprovada em 2012, que tinha esse mesmo propósito. Desde então, os planos de manejo passaram a ser adotados com maior rapidez, facilitando as ações nos aeródromos.

Dados no Brasil

Acidentes aéreos no Brasil causados por colisões com aves, segundo consta no relatório de “Anuário de Risco de Fauna”. Foto: Divulgação Cenipa

Conforme o Ministério do Meio Ambiente, os choques entre aves e aeronaves afetam as operações aeroportuárias em todo o mundo. A força de impacto de uma ave de dois quilogramas de peso com uma aeronave a 300 quilômetros por hora pode chegar a sete toneladas.

Segundo o relatório “Anuário de Risco de Fauna” (2015), o mais recente publicado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), o fator que mais limita o gerenciamento eficiente de risco de fauna é a imprecisão na identificação de espécies envolvidas em cada evento.

“Dentre as colisões reportadas em 2015, somente 57% dos casos tiveram alguma identificação de fauna, mas nem sempre houve identificação ao nível de espécie. Esta condição é fundamental para o estabelecimento de medidas de controle, mesmo entre espécies-problema à aviação brasileira, que muitas vezes são consideradas iguais, como o urubu-de-cabeça-preta e o urubu-de-cabeça-vermelha”, aponta o relatório.

Ainda conforme o Cenipa, as espécies mais frequentes no entorno dos aeroportos são os quero-queros e os carcarás, respondendo, respectivamente, por 28,4% e 14,1% do total dos incidentes verificados. Os relatórios sobre risco de fauna do órgão podem ser encontrados pelo link www2.fab.mil.br/cenipa/index.php/estatisticas/risco-da-fauna.

Fontes: Embrapa Pecuária Sudeste, Todos a Bordo/UOL, Cenipa, Airway e Ministério do Meio Ambiente