Reportagem da importante revista britânica afirma que Brasil “construiu a indústria de biocombustíveis mais sofisticada do mundo” ao longo dos últimos 50 anos (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)
A tradicional revista britânica The Economist colocou o Brasil no centro do debate energético global ao classificar os biocombustíveis como uma espécie de “arma secreta” do país para enfrentar choques nos preços do petróleo.
Em reportagem publicada na seção The Americas, a publicação analisa como a combinação entre agronegócio e política energética permitiu ao Brasil amortecer os efeitos recentes da escalada internacional provocada pela guerra envolvendo Israel, Estados Unidos e Irã.
Logo na abertura, a revista ressalta o diferencial brasileiro.
“Poucos países estavam preparados para o choque do petróleo causado pela guerra entre Israel e Estados Unidos contra o Irã. O Brasil estava”.
Segundo a publicação, essa resiliência é fruto de um trabalho de décadas, que transformou o país em uma potência em bioenergia.
A The Economist destaca que o Brasil “construiu a indústria de biocombustíveis mais sofisticada do mundo” ao longo dos últimos 50 anos.
Hoje, o país é o segundo maior produtor global de etanol e o terceiro de biodiesel, além de manter níveis de mistura obrigatória entre os mais altos do planeta. A flexibilidade também aparece como trunfo.

Revista destaca que a alta presença dos biocombustíveis no transporte brasileiro reduz a dependência do país de combustíveis fósseis estrangeiros e protege contra mercados inflacionados. Imagem: Reprodução/Site The Economist
Menor dependência aos combustíveis fósseis
“Três quartos dos veículos leves no Brasil têm tecnologia que permite rodar com qualquer proporção, de gasolina pura a etanol 100%”, diz a revista.
Na avaliação da respeitada publicação britânica, essa estrutura ajuda a explicar por que os aumentos nos preços dos combustíveis foram mais moderados no Brasil do que em outras economias.
“Isso reduz a dependência do Brasil de combustíveis fósseis estrangeiros e protege contra mercados inflacionados”, afirma o texto.
Ainda que gasolina e diesel tenham subido desde o início do conflito, os reajustes ficaram abaixo dos registrados nos Estados Unidos.
A publicação reconhece o papel da Petrobras na contenção de preços, mas ressalta que “a competitividade da bioenergia brasileira também está ajudando”.
Dados citados indicam que “o custo médio do biodiesel caiu abaixo do diesel importado pela primeira vez desde 2023”, enquanto “os preços do etanol no varejo subiram apenas 2%”.
Diante desse cenário, o governo brasileiro avalia ampliar ainda mais o uso desses combustíveis. A revista aponta que há discussões para elevar a mistura de etanol na gasolina para 32% e conceder incentivos ao biodiesel, além de estudos técnicos para percentuais ainda mais altos.
Iniciativas locais também ganham espaço, como em Passo Fundo (RS), onde “testes estão sendo realizados com um novo biocombustível para substituir o diesel em veículos municipais”.
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Ao contextualizar historicamente o tema, a The Economist relembra que a aposta brasileira em biocombustíveis surgiu como resposta a crises energéticas.
“A ideia original era proteger a independência energética”, destaca o texto ao mencionar o Proálcool, criado após o choque do petróleo de 1973.
À época, “o Brasil importava 80% de seu combustível” e precisava reagir rapidamente.
A solução veio da cana-de-açúcar.“Processar o excesso de caldo de cana em etanol era uma escolha óbvia”.
O modelo evoluiu ao longo das décadas, com a introdução dos veículos flex e do biodiesel, majoritariamente derivado da soja. A publicação observa que essa trajetória contou com apoio consistente de diferentes governos e segue sendo prioridade na atual gestão.
Segundo a revista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vê nos biocombustíveis uma resposta a dois desafios: reforçar a soberania energética e reduzir emissões sem gerar atritos com o agronegócio.
Apesar do tom positivo, a reportagem pondera que os biocombustíveis não eliminam completamente os impactos da alta do petróleo.
“Eles não podem apagar os custos impostos pela disparada dos preços”, alerta a publicação. Fatores como o aumento da demanda por etanol e o encarecimento de fertilizantes podem pressionar o setor.
Por outro lado, o momento também traz oportunidades.
“Os produtores de biocombustíveis têm muito a ganhar com o caos no Oriente Médio”, afirma a revista, destacando a sazonalidade favorável das safras brasileiras. Com a colheita de soja já em andamento e as de cana e milho prestes a começar, a expectativa é de aumento expressivo na oferta.
“As safras devem atingir níveis recordes, colocando ainda mais pressão para baixo nos preços”, diz o texto.








