Combinando cultivo agrícola, espécies florestais e criação de animais em uma mesma área, o modelo tem permitido recuperar áreas degradadas, diversificar a produção e, sobretudo, aumentar significativamente a renda de famílias (Foto: Igor Nogueira/Empaer-MT)
O uso de sistemas agroflorestais está mudando a realidade de agricultores familiares e comunidades indígenas no noroeste de Mato Grosso.
Combinando cultivo agrícola, espécies florestais e criação de animais em uma mesma área, o modelo tem permitido recuperar áreas degradadas, diversificar a produção e, sobretudo, aumentar significativamente a renda de famílias que antes enfrentavam dificuldades para se manter exclusivamente da atividade rural.
A transformação foi constatada durante uma visita técnica realizada pela Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer) em propriedades do município de Aripuanã que participam, há cerca de um ano, do projeto “Sistemas Agroflorestais manejados participativamente com tecnologias agroecológicas”.
A iniciativa é desenvolvida em parceria com a Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (Seaf), a prefeitura municipal e conta com apoio do Programa REM.
Ao longo do período, os produtores receberam galinheiros agroecológicos, tanques de geomembrana para armazenamento de água, sistemas de fertirrigação e mudas de banana, mamão e cacau.
Os resultados já começam a aparecer na forma de colheitas e comercialização da produção para escolas, creches e mercados locais.
Inclusão dos jovens

Miguel, filho do casal Aline e Marcos, no galinheiro agroecológico da propriedade Foto: Empaer
Segundo o coordenador de Assistência Técnica e Extensão Rural da Empaer e responsável pelo projeto, o engenheiro agrônomo Fabrício Tomaz Ramos, a proposta vai além do aumento da produtividade.
“Isso tudo de forma que uma atividade traz benefício para outra. O objetivo é mostrar que os SAFs geram renda, beneficiam o meio ambiente e incluem os jovens rurais e, isso, pode ser referência no Estado”, afirma.
Durante a visita, técnicos avaliaram a evolução das propriedades e o impacto das tecnologias implementadas. Para Ramos, o acompanhamento contínuo permite verificar na prática os resultados obtidos.
“É a oportunidade de ver o antes e o depois nas propriedades, identificar se os produtores seguiram as orientações, como as culturas se desenvolveram ao longo de quase um ano, além de saber se os investimentos aplicados estão fazendo a diferença na vida dessas famílias”.
Um dos exemplos mais emblemáticos é o do casal Marcos dos Santos Tizziani e Aline Gomes Leite Tizziani, ambos de 25 anos. Proprietários do Sítio Estrela Celeste, eles já comercializam banana e mamão produzidos em apenas um hectare de área. O desempenho econômico surpreendeu até os próprios agricultores.

Mapeamento participativo para identificar outras demandas nas propriedades/ Foto: Empaer
“É preciso muito trabalho e dedicação. Comprei o sítio Estrela Celeste dos meus pais. Já tinha desistido da vida do campo, mas como sempre gostei, decidi apostar e, quando fui convidado para participar do projeto, aceitei de pronto e estou muito satisfeito. O projeto mudou a minha vida e hoje não preciso trabalhar fora da propriedade e tenho mais tempo para minha família”, relata Marcos.
Antes da adesão ao projeto, a renda familiar não ultrapassava R$ 2 mil mensais. Hoje, segundo o produtor, a receita chega a R$ 10 mil por mês.
Aline lembra que o casal enfrentou dificuldades financeiras e chegou a cogitar outros caminhos para sustentar a família. Com a chegada do filho Miguel, a necessidade de aumentar a renda se tornou ainda mais urgente.
“O nosso segredo é o amor que temos na nossa família e a persistência. Ter uma propriedade requer cuidado, dedicação e muito trabalho. Acordar antes das 4h da manhã é preciso e faz parte do nosso dia a dia. Hoje, nossa propriedade dá lucro, compramos um carro e começamos a reformar nossa casa. Agora vamos continuar trabalhando para aumentar a produção e contamos com a ajuda da Empaer”, conta.
Comunidades indígenas

Equipe durante a visita na Aldeia Porto Foto: Empaer
O impacto do projeto também alcançou comunidades indígenas. Na Aldeia Porto, o cacique Raimundo Vela Arara, conhecido como Mazinho, afirma que a iniciativa abriu novas perspectivas para sua família e para a comunidade.
“Antes conhecia a Empaer só pelo nome. Quando fui procurado se tinha interesse em participar, acreditei e abri a aldeia para os meninos da empresa, que não mediram esforços em ajudar. Graças a eles hoje posso ter certeza que a renda da minha família irá melhorar e muito”, diz.
Entre os participantes está ainda o agricultor Julielton Ribeiro de Souza, de 30 anos, que recebeu apoio para implantação de um viveiro de mudas de café clonal. A estrutura servirá não apenas para ampliar a produção da propriedade, mas também para difundir práticas agroecológicas na região.
“Meu objetivo é investir na agroecologia e mostrar para alunos e moradores da região as práticas de sistemas agrícolas que incorporam as questões sociais, políticas, culturais, ambientais e éticas”, afirma.
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A experiência tem despertado o interesse de outras famílias rurais.
No Sítio Raio de Luz, os produtores Aparecido Joaquim da Cruz e Zilda Ribeiro dos Santos comemoram os primeiros resultados da produção de banana, mamão e cacau. Já na comunidade do Lontra, a família de Leonardo Samuel de Oliveira Campos e seus avós, Genivaldo e Ivanete Campos, destaca que a comercialização dos frutos trouxe uma nova perspectiva para quem sempre viveu da terra.
“Sempre vivemos da terra, mas com muita dificuldade. Hoje, ver o nosso trabalho duro proporcionar uma renda justa é muito bom e vem para mostrar que conseguimos sim viver do que produzimos”, afirma Ivanete.
Importância da assistência técnica

O tanque de geomembrana pode ser instalado em um dia e é uma bom exemplo de iniciativas de bom custo -beneficio difundidas pela assistência técnica. Foto: Empaer
Para a Empaer, os resultados reforçam a importância da assistência técnica como ferramenta de desenvolvimento rural.
O presidente da empresa, Renaldo Loffi, avalia que a combinação entre orientação técnica, tecnologias adequadas e investimentos direcionados tem sido decisiva para os avanços observados nas propriedades.
“O projeto vem ao encontro com as necessidades da região, que está em pleno desenvolvimento e precisando de produtos da agricultura familiar”, afirma.
Além da geração de renda, o projeto busca consolidar as propriedades participantes como unidades demonstrativas de tecnologias agroecológicas, estimulando a adoção de modelos produtivos de baixo impacto ambiental.
A expectativa é que a experiência se torne referência para outros agricultores da região e contribua para a permanência dos jovens no campo, mostrando que a produção sustentável pode ser também um bom negócio.








