A chegada da mosca Drosophila suzukii coloca em risco culturas de alto valor agregado no Cerrado, com destaque para o mirtilo, que corre o risco de se tornar economicamente inviável (karikdickinson/Pixabay)
O Distrito Federal vive um paradoxo fitossanitário que pode frear uma das mais promissoras e atuais fronteiras da fruticultura brasileira. Se, por um lado, a vigilância rigorosa confirma que o DF é uma “área livre” de temidas pragas quarentenárias, como a mosca-da-carambola, por outro, os pomares locais enfrentam uma explosão populacional de espécies nativas e a chegada de uma nova invasora agressiva, a Drosophila suzukii.
O cenário é crítico para culturas sensíveis e de alto valor agregado, como o mirtilo, que corre o risco de se tornar economicamente inviável na região antes mesmo de consolidar sua recente expansão no Cerrado brasileiro. O alerta é resultado de um projeto de pesquisa e de monitoramento iniciado em 2023 pelos pesquisadores Elisângela Fidelis e Marcelo Lopes, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em parceria estratégica com a Secretaria de Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural do Distrito Federal (Seagri). Os dados levantados por Fidelis e Lopes revelam que a infestação atual é seis vezes superior ao limite tolerável para o mercado comercial, criando uma barreira invisível para a exportação e prejuízos para o produtor.
Cenário

Segundo a entomologista Elisangela Fidelis (foto), os cultivos de goiaba têm números alarmantes de infestação: 2,5 e 3,0 m. Foto: Claudio Bezerra
A ciência utiliza uma métrica rigorosa para medir o perigo nos pomares: o índice Mosca/Armadilha/Dia (MAD). Trata-se de um indicativo técnico que determina o momento exato em que o produtor precisa intervir. Para que uma produção seja considerada segura, lucrativa e de alta qualidade, o índice deve permanecer abaixo de 0,5 moscas capturadas por dia em cada armadilha.
Entretanto, o levantamento da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia em cultivos de goiaba do Distrito Federal encontrou números alarmantes, chegando a 2,5 e 3,0 moscas capturadas por dia em cada armadilha. “A diversidade de espécies não aumentou drasticamente desde a década de 1990, mas a quantidade de indivíduos cresceu muito”, afirma Lopes.
Esse excedente populacional gera um ciclo vicioso de destruição. As fêmeas depositam os ovos dentro dos frutos, as larvas crescem consumindo a polpa e provocam a queda prematura da produção. “Se o produtor deixar a fruta no chão, ele está mantendo um berçário para a praga. O fruto cai, a larva sai dele, entra no solo para virar pupa e depois emerge como uma nova mosca pronta para atacar o restante da plantação”, detalha.
Barreiras internacionais e a “área livre”
Além do prejuízo direto na colheita, a superpopulação de moscas é o principal entrave à produção local chegar a mercados fora do DF, inclusive para produtores de maior porte que pretendem chegar a compradores além das fronteiras do Brasil. Isso porque países da União Europeia, Estados Unidos, China e Japão impõem restrições severas à importação de frutas oriundas de áreas com alta infestação. O temor desses países é que os frutos levem larvas “escondidas” que, ao chegarem ao destino, possam infestar seus próprios territórios.
Apesar desse desafio interno, Elisângela aponta um dado que é positivo e estratégico para o país: o Distrito Federal permanece livre de pragas quarentenárias, como a mosca-da-carambola (Bactrocera carambolae) e a mosca-oriental (Bactrocera dorsalis). Atualmente, a mosca-da-carambola está restrita a estados do Norte, como Amapá, Amazonas, Pará e Roraima, sob um rígido programa de erradicação do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
“O trânsito de pessoas e mercadorias em áreas urbanas é o maior risco para a introdução dessas pragas no Distrito Federal”, alerta Elisângela. Ela explica que o transporte informal de frutas em bagagens de viajantes é a principal via de dispersão. Uma única fruta infestada trazida de uma viagem pode destruir o status sanitário de toda uma região produtora em poucos dias.
Invasora indesejada

Como as larvas crescem protegidas dentro do fruto, o uso isolado de defensivos químicos muitas vezes é ineficaz. Foto: mrskirk72/Pixabay
A grande novidade negativa para a fruticultura do Cerrado é a detecção da Drosophila suzukii. Diferente das moscas-das-frutas comuns, que geralmente atacam frutos já feridos, podres ou caídos, esta espécie possui uma característica devastadora: ela consegue perfurar a casca de frutas intactas e de pele fina enquanto elas ainda estão no pé.
Para culturas como a do mirtilo, que exige padrão visual impecável para o mercado premium, essa praga representa um risco. “Diferente das outras moscas que conhecemos, a suzukii consegue perfurar a casca de frutos perfeitamente sadios”, explica Lopes. Segundo ele, a entrada dessa espécie exige uma mudança drástica de postura. “Se quisermos aumentar a produção e introduzir novas espécies de fruteiras como o mirtilo, o monitoramento e o manejo são vitais, ou a produção não será economicamente viável”, alerta.
A preocupação do pesquisador é compartilhada com Elisangela. Ambos observam que o mirtilo e o morango são apostas de diversificação para o pequeno e médio produtor do Distrito Federal e entorno. Eles enfatizam que, sem um controle rigoroso, o valor comercial dessas frutas pode ser reduzido a zero, já que a presença de uma única larva inviabiliza a venda para grandes redes e mercados externos.
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Mitigação de riscos
Para manter o monitoramento em dia e garantir a detecção precoce de qualquer invasora, os pesquisadores instalaram armadilhas em pontos estratégicos de circulação, como as Centrais de Abastecimento (Ceasa), feiras permanentes e propriedades rurais. Estas armadilhas contêm paraferomônios como o metil-eugenol, substância que atrai os machos das espécies para uma base colante, permitindo que os cientistas identifiquem rapidamente o que está circulando no ambiente.
“O objetivo é transformar o conhecimento científico gerado nos laboratórios da Estação Quarentenária de Germoplasma Vegetal da Embrapa em práticas cotidianas para o agricultor”, afirma Lopes. Isso inclui a capacitação intensiva de técnicos da extensão rural e de fiscais agropecuários do DF.
A entomologista observa que a tecnologia sozinha não resolve o problema. Como as larvas crescem protegidas dentro do fruto, o uso isolado de defensivos químicos muitas vezes é ineficaz. A solução real passa pela educação sanitária e pela criação de uma “rede de proteção” que integre o campo e a cidade.

A viabilidade de culturas rentáveis, como o mirtilo, depende, atualmente, de uma conscientização coletiva. Foto: nil-foto/Pixabay
Os pesquisadores são enfáticos: a consolidação dos dados levantados no projeto de monitoramento das moscas-das-frutas é como um alerta às autoridades, produtores e à própria sociedade. Segundo eles, é possível reduzir os índices de infestação para que o polo de fruticultura do Distrito Federal não seja apenas produtivo, mas também competitivo em nível global.
A viabilidade de culturas rentáveis, como o mirtilo, depende hoje dessa conscientização coletiva, observa Lopes. O sucesso dos pomares não termina na colheita, mas começa no manejo do pomar e na responsabilidade de cada agricultor e cidadão em não transportar frutos de uma região para outra. Proteger o patrimônio agrícola do País, como defendem Lopes e Fidelis, é uma tarefa que exige muita pesquisa e disciplina rigorosa no campo.








