Novos métodos de processamento e o cultivo de variedades tardias estão ampliando a janela de comercialização da fruta e reduzindo perdas, permitindo chegar a novos mercados consumidores (Foto: Atul Somani/Pixabay)
Além de corações, a lichia produzida no interior de São Paulo vem ganhando a atenção de novos mercados. O que antes era presença quase exclusiva nas mesas de fim de ano começa a ocupar espaço permanente nas gôndolas e nas exportações, impulsionada por tecnologia de conservação, diversificação de variedades e estratégias de agregação de valor.
Na região de Avaré, a fruta deixou de ser um símbolo sazonal para se tornar protagonista de uma cadeia produtiva moderna.
Novos métodos de processamento e o cultivo de variedades tardias ampliam a janela de comercialização e reduzem a dependência do frescor imediato — um gargalo histórico para produtores brasileiros.
No pomar da Britchis, em Itaí, a lichia milenar ganha escala e tecnologia. A empresa de agricultura familiar, apoiada pela Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, dedica 114 de seus 194 hectares ao cultivo da fruta.
A tradicional variedade Bengal divide espaço com outras sete: fogo, ouro, tutti-frutti, crocante, laranja, gigante e coração.
A diversidade não é apenas estética. Enquanto uma lichia clássica pesa cerca de 20 gramas, a variedade Gigante pode atingir o dobro.
Já a Coração chama atenção pela facilidade com que a casca se rompe sob leve pressão, característica valorizada no consumo in natura. A estratégia de diferenciação também se estende ao mercado externo.
Em 2025, o produtor Ricardo Pinto, ao lado da esposa Adriana e dos filhos, respondeu por quase metade das exportações brasileiras destinadas à Europa.
Desafios superados
A internacionalização trouxe um desafio típico das cadeias hortifrutícolas que é o descarte de frutos com pequenas imperfeições visuais, rejeitados por compradores estrangeiros mesmo estando aptos ao consumo.
A resposta veio com o investimento em processamento. A polpa descascada e descaroçada passou a ser ultracongelada, permitindo vendas ao longo de todo o ano. Parte da produção é liofilizada, transformando-se em snack crocante que preserva os açúcares naturais da fruta.
A versatilidade ampliou o portfólio, com o lançamento de aguardente de lichia, “passa” de lichia para geleias e a chamada lichiada, que passaram a compor a estratégia de valor agregado.
O movimento também fortalece a Cadeia Produtiva Local (CPL), que reúne 18 municípios do sudeste paulista e recebeu, em 2025, recursos do governo estadual para impulsionar pequenos produtores.
Segundo o engenheiro agrônomo Euvaldo Neves Pereira Junior, chefe da CATI Regional Avaré, “a região possui vocação natural para a fruticultura e se beneficia de uma vantagem competitiva estratégica. A produção ocorre fora do pico de oferta de outros países, permitindo ao Brasil acessar nichos de mercado com menor concorrência”.

Produtores rurais de lichia no interior de São Paulo. Foto: APTA
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A fruta do amor
Se no Brasil a lichia ainda remete às festas de fim de ano, em sua terra natal, a China, ela carrega um simbolismo muito mais profundo.
O título de “fruta do amor” remonta à Dinastia Tang, no século VIII. A tradição atribui ao imperador Tang Minghuang a prática de enviar mensageiros a cavalo por longas distâncias para entregar lichias frescas à sua concubina favorita, Yang Yuhuan — gesto que transformou a fruta em símbolo de paixão, sorte e devoção.

Árvore de lichia carregada. Foto: APTA
Fonte: APTA








