Ferramenta classifica a suscetibilidade dos solos à erosão em seis níveis, de muito baixa a extremamente alta (Foto: Claudio Capeche)
A Embrapa lançou uma nova versão do mapa de erodibilidade dos solos do Brasil, que expressa a capacidade do terreno de resistir ao desgaste provocado pela água da chuva. A erosão hídrica é um dos principais fatores de degradação das terras em escala global. Estimar a sua ocorrência permite ao País, entre outras aplicações, apoiar a implementação de políticas públicas de controle do problema, com foco no desenvolvimento econômico sustentável no meio rural, por meio do fomento e da adoção de práticas de conservação de solo e água.
A erodibilidade dos solos é influenciada, exclusivamente, pelos chamados atributos intrínsecos do solo, como a composição granulométrica, estrutura, conteúdo de carbono orgânico na camada superficial, permeabilidade, profundidade efetiva do solo e a presença ou ausência de camada compactada e pedregosidade. Portanto, para a elaboração do mapa de erodibilidade dos solos do Brasil não foram considerados os fatores extrínsecos aos solos, como clima, relevo e cobertura vegetal.

Mapa Erodibilidade Brasi. Foto: Divulgação
O novo mapa está na escala 1:500.000, compatível para usos em nível estadual ou de grandes bacias hidrográficas. Nele, os solos de todo o País foram classificados, a partir de uma avaliação semiquantitativa, quanto à sua erodibilidade em seis classes: muito baixa, baixa, média, alta, muito alta e extremamente alta, sendo que cada classe está relacionada a um intervalo de valores correspondentes ao índice de erodibilidade do solo, o chamado de fator K.
“Esse novo mapa nacional de erodibilidade dos solos tem potencial para ser utilizado em diversos estudos pela comunidade acadêmica, além de apoiar a implementação de políticas públicas, especialmente na seleção de microbacias hidrográficas em nível estadual ou regional. Muitos programas estaduais de conservação de solo desenvolvidos no País levaram em consideração a suscetibilidade do solo à erosão hídrica a fim de selecionar áreas prioritárias para ações de conservação e recuperação dos solos”, explica o coordenador dos trabalhos, Maurício Rizzato.
Metodologia utilizada para construção do mapeamento
A equipe utilizou para o estudo a interpretação especialista das 8.143 unidades de mapeamento de solos (UMs) do Mapa de Solos do Brasil do IBGE, publicado na escala 1:250.000 e lançado em 2018, atribuindo valores de 1 a 6 para cada componente das UMs. “Esses valores representam a suscetibilidade dos solos à erosão hídrica, sendo que o valor 1 corresponde à classe de suscetibilidade muito baixa, e os demais valores às classes, baixa, média, alta, muito alta e extremamente alta, respectivamente. Foram avaliados até o quarto componente de cada ‘UM’, quando presentes, calculando-se a média ponderada de seus valores”, detalha Rizzato.
Para esse cálculo, segundo o pesquisador, a equipe utilizou uma estimativa de porcentagem de ocorrência de cada componente da “UM”. “Por exemplo, para uma ‘UM’ com apenas dois elementos, considerou-se que o primeiro ocupava 60% de sua área e o segundo, 40%. Após se efetuar os cálculos da média ponderada dos valores semiquantitativos de erodibilidade de cada unidade de mapeamento, os valores obtidos foram convertidos em um índice de erodibilidade – o chamado fator K da equação universal de perda de solo, baseando-se em dados de literatura que relacionam classes de solos com os seus respectivos valores de fator K”, explica.

Área do município de Gilbués afetada pela erosão hídrica. Foto: Francisco Lumbreras
Na avaliação do pesquisador Gustavo Vasques, por meio desse procedimento, concluísse que os solos do Brasil se enquadram na classe de erodibilidade média, e que as maiores áreas contínuas dominadas por solos mais suscetíveis à erosão ocorrem, sobretudo, na Região Nordeste. “Isso coincide com as áreas afetadas pelo processo da desertificação, atualmente um dos maiores problemas de degradação das terras do País”, revela,
A equipe aponta, ainda, que áreas expressivas de solos de elevada erodibilidade também ocorrem no Acre, estendendo-se para as cercanias do estado do Amazonas, em solos com elevados conteúdos de silte. Vasques explica que, para validar o mapa produzido, a equipe comparou os seus valores de erodibilidade com medidas diretas do fator K obtidas em campo e existentes na literatura, com chuva natural e simulada. Dessa forma, chegou-se à conclusão de que as medidas do fator K do novo mapa desenvolvido possuem valores centrais próximos àqueles medidos em campo.
“A conversão dos valores semiquantitativos, de 1 a 6, em valores do fator K que utilizamos foi uma estratégia simples e experimental para estimar a erodibilidade do solo para todo o território brasileiro. Assim, recomendamos aos interessados que desejam utilizar o fator K para os mais diversos fins condensar as seis classes de erodibilidade – muito baixa, baixa, média, alta, muito alta e extremamente alta – em três classes: baixa, média e alta. Esse procedimento irá facilitar as interpretações para as quais os valores do fator K forem destinados, bem como possibilitar um aumento de qualidade das modelagens, dados ou informações obtidas”, pondera Rizzato.
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As ameaças da erosão

Erosão em área do estado do Rio de Janeiro. Foto: Claudio Capeche
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) aponta que a erosão causada pela água, pelo vento ou pelo preparo inadequado do terreno é a maior ameaça à saúde do solo e aos seus serviços ecossistêmicos em diversas regiões do mundo, prejudicando a produção de alimentos, a disponibilidade futura de terras para a agricultura e a qualidade da água. Dessa maneira, a erosão afeta diretamente a saúde humana, a biodiversidade do planeta e a subsistência do meio rural.
Vários estudos apontam que em áreas agrícolas a erosão do solo reduz sua capacidade de infiltração, disponibilidade e drenagem da água, prejudica a profundidade de enraizamento das plantas e favorece a perda de água, solo, matéria orgânica, fertilizantes e nutrientes. Além disso, as partículas deslocadas dos locais erodidos levam à sedimentação e poluição de águas superficiais, bloqueio de cursos d’água e destruição de infraestruturas, causando perdas econômicas significativas para produtores e toda a sociedade.