A entrada em vigor no Brasil do acordo entre Mercosul e União Europeia, na última sexta (01/05), já provoca mudanças concretas dentro das agroindústrias brasileiras, e não apenas no campo tarifário.
Antes mesmo de os benefícios comerciais se materializarem, empresas do setor intensificam investimentos em rastreabilidade, integração de dados e controle operacional para atender a um mercado externo mais rigoroso.
O acordocriando uma das maiores zonas de livre comércio do mundo e insere o Brasil em um mercado de mais de 700 milhões de consumidores, em um bloco que reúne economias com PIB combinado de cerca de US$ 22 trilhões.
A avaliação do especialista em gestão e diretor na Senior Sistemas, Fernando Silva, é que, nos mercados europeus, a competitividade deixou de depender apenas de escala, eficiência e qualidade.
Segundo ele, a capacidade de comprovar, com precisão, a origem da matéria-prima e o histórico completo do produto — da fazenda ao destino final — passa a ser determinante para fechar contratos e evitar perdas financeiras.
“Mais do que criar uma exigência nova, o acordo Mercosul-União Europeia acelera uma agenda que já vinha ganhando força no agro. O que muda, na prática, é que não basta mais dizer que a operação segue boas práticas. Será cada vez mais necessário comprovar isso com rastreabilidade, dados confiáveis e evidências ao longo de toda a cadeia”, afirma Silva.
Pressão começa na origem e se estende à logística
A exigência por comprovação não se limita às etapas internas das agroindústrias. Ela alcança toda a cadeia produtiva, incluindo originação, recebimento, processamento, armazenagem, expedição e transporte.
Nesse contexto, falhas pontuais, como mistura de lotes ou inconsistências no registro de origem, podem comprometer a rastreabilidade de todo o produto.
A tendência, segundo especialistas, é que a pressão regulatória e comercial recaia primeiro sobre os pontos mais sensíveis da operação.
A originação ganha protagonismo por concentrar dados sobre procedência e fornecedores, enquanto a logística deixa de ser apenas suporte e passa a influenciar diretamente a confiabilidade das informações.
Setor avança, mas em ritmos desiguais
Parte do agronegócio brasileiro já iniciou esse processo de adaptação. Cadeias como a do algodão, por exemplo, operam com níveis mais avançados de rastreabilidade para atender mercados externos. Ainda assim, o setor como um todo apresenta maturidade desigual.
O desafio, no entanto, está na disparidade entre empresas que já estruturaram processos digitais e aquelas que ainda dependem de planilhas e controles manuais.
Em muitas empresas, os dados existem, mas estão dispersos entre diferentes áreas, sistemas e registros informais.
Esse cenário se torna evidente em auditorias ou exigências contratuais, quando é necessário reconstruir rapidamente o histórico de uma operação. O resultado costuma ser retrabalho, lentidão e aumento da exposição a riscos fiscais, logísticos e comerciais.
“Quando surge a exigência de comprovar uma informação, a resposta não pode depender de buscas em diferentes áreas nem de esforço manual para reunir dados. Sem informação consolidada e validada, a empresa perde agilidade, aumenta custos e enfraquece sua capacidade de resposta”, diz Silva.
O impacto financeiro pode ser significativo. De acordo com estimativas do setor, os ganhos tarifários proporcionados pelo acordo podem variar entre 2% e 5% do faturamento, dependendo do produto e das condições comerciais.
Em contrapartida, falhas documentais , especialmente na comprovação de origem, podem gerar prejuízos milionários, incluindo custos adicionais com demurrage, perda de benefícios tarifários e capital imobilizado ao longo da operação.
“Em determinados contextos, esses efeitos podem atingir uma faixa estimada entre US$ 2 milhões e US$ 5 milhões por operação, considerando diferentes variáveis envolvidas e o tamanho da empresa, o que ilustra como a gestão documental pode influenciar diretamente a eficiência financeira das exportações”, aponta o especialista.
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Nova régua de competitividade
Diante desse cenário, o nível de preparo das agroindústrias passa a ser medido por critérios mais objetivos: capacidade de rastrear lotes, localizar documentos, consolidar evidências e responder rapidamente às exigências de clientes e reguladores.
A integração entre sistemas e áreas deixa de ser diferencial e se torna condição básica para operar em mercados mais exigentes. Sem isso, empresas até coletam dados, mas não conseguem transformá-los em informação útil no momento em que ela é necessária.
“Nesse novo cenário, maturidade operacional é reduzir o tempo entre a pergunta e a prova. Quanto mais rápida e consistente for a capacidade de reunir evidências, maior tende a ser a preparação da agroindústria para competir em mercados mais exigentes”, conclui o executivo..








