A ferramenta permite diagnosticar o oídio, a traça-da-castanha e a broca-das-pontas e ensina manejo fitossanitário conforme o nível de incidência, contribuindo para prevenir infestações, reduzir perdas e diminuir custos de produção
O Monitora Caju, aplicativo desenvolvido pela Embrapa Agroindústria Tropical (CE), auxilia produtores e técnicos da extensão rural no monitoramento e diagnóstico do oídio (Pseudoidium anacardii), principal doença da cajucultura, da traça-da-castanha (Anacampsis phytomiella) e da broca-das-pontas (Anthistarcha binocularis), pragas com grande potencial de dano à cultura.
A ferramenta também orienta o manejo fitossanitário, conforme o nível de incidência identificado, o que contribui para prevenir infestações, reduzir perdas e diminuir custos de produção.
O fitopatologista Marlon Valentin, pesquisador da Embrapa e coordenador dos estudos para desenvolvimento do aplicativo, explica que o Monitora Caju foi elaborado para celular (sistemas Android e iOS) e computador e funciona sem necessidade de conexão com a internet.
Segundo ele, a ferramenta disponibiliza informações organizadas por categorias, como pragas, doenças, sintomas e monitoramento, orientando o usuário na vistoria do pomar, na identificação de problemas e no manejo fitossanitário. Além disso, reúne um amplo acervo de publicações da Embrapa com resultados de pesquisas sobre a fitossanidade do cajueiro.
“A ferramenta de Manejo Integrado de Pragas (MIP) e doenças do cajueiro indica o momento mais adequado para a tomada de decisão do produtor na gestão fitossanitária do pomar. O aplicativo permite ao usuário avaliar as condições fitossanitárias das plantas com base no que observa em campo, comparando com imagens de exemplares sadios e com sintomas de pragas ou doenças, disponíveis no banco de dados, facilitando o diagnóstico”, informa o pesquisador.

Desenvolvido para celular (Android e iOS) e computador, o aplicativo funciona sem necessidade de conexão com a internet Foto Francisco Williams/Embrapa Agroindústria Tropical/Divulgação
Fácil acesso e informações seguras
De acordo com o especialista, a tecnologia é de fácil acesso e fornece informações seguras, em linguagem simples, na palma da mão, que ajudam a manter a sanidade dos plantios. “A cajucultura é uma atividade de base familiar e carece de inovações tecnológicas e serviços de assistência técnica no campo. Contar com respostas rápidas e eficientes faz toda diferença para o produtor rural e pode fortalecer a produção de caju no Nordeste, especialmente em áreas rurais mais distantes que ainda convivem com a falta de conectividade no campo”, ressalta o fitopatologista.
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Diagnóstico em campo

Fruto do cajueiro com sintoma do oídio Foto Marlon Valentim/Embrapa Agroindústria Tropical/Divulgação
Os comandos autoexplicativos facilitam o uso do Monitora Caju e possibilitam o reconhecimento da praga ou da doença e o diagnóstico em campo. A partir de informações fornecidas em cada tela, o aplicativo calcula o índice de incidência e, de acordo com o resultado, orienta sobre as medidas de controle necessárias.
Valentim enfatiza que a maioria dos produtores de caju sabe reconhecer um ataque de oídio, da traça-da-castanha e da broca-das-pontas, por serem problemas comuns nos pomares. “Mas, como estratégia para adoção da tecnologia em larga escala, serão oferecidas capacitações para produtores e técnicos extensionistas, visando aprimorar esses conhecimentos”, afirma.
Pragas e doença do período de frutificação

Castanha furada pela Traça-da-castanha Foto Antonio_Lindemberg/Embrapa Agroindústria Tropical/Divulgação
Embora seja uma planta rústica, o cajueiro é altamente suscetível a pragas e doenças, exigindo cuidados contínuos com a sanidade do pomar, para evitar perdas na produção e prejuízos econômicos.
No Brasil existem cerca de 1.200 espécies de insetos-praga que atacam a planta em diferentes momentos do seu desenvolvimento. A traça-da-castanha e a broca-das-pontas, pequenas lagartas que danificam diferentes partes do cajueiro, estão entre as principais durante o período de frutificação.
O engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Antonio Lindemberg informa que a traça-da-castanha perfura as castanhas de caju e se alimenta das amêndoas. Já a broca-das-pontas consome a parte central de ramos florais, interrompendo o fluxo da seiva na planta e impedindo a formação de frutos.
Ele observa que, em regiões onde o produtor não faz o monitoramento, a infestação chega a 80% de castanhas furadas, ou seja, de 100 castanhas, 80 têm a amêndoa danificada. Em ataques da broca-das-pontas o nível de ramificações afetadas varia de 20% a 30%.
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Traça-da-castanha – Foto Antonio_Lindemberg/Embrapa Agroindústria Tropical/Divulgação
Praga e doença mais prejudiciais
Marlon Valentin explica ainda que, de todas as pragas do cajueiro, a mais prejudicial é a traça-da-castanha porque a infestação ocorre quando a planta já está no seu ciclo final de produção. Por atacar o fruto (a castanha) em formação ou já formado, esse inseto coloca em risco todo o investimento feito no plantio. Além disso, é uma praga silenciosa e o produtor só percebe a castanha furada quando o dano já está feito. “Fazer a identificação adequada e conhecer o comportamento das pragas, bem como a época de ocorrência, é essencial para um manejo eficaz”, complementa.
Segundo o fitopatologista, no rol de doenças da cajucultura, o oídio se destaca como a mais agressiva. “De rápida disseminação, essa infecção fúngica está presente na maioria das regiões produtoras de caju e quando não controlada pode causar danos significativos aos plantios”, alerta o pesquisador.
Ele orienta também que o oídio ataca o cajueiro em todas as fases da cultura, mas os maiores danos ocorrem durante a floração e frutificação. ”Quando atinge as inflorescências, provoca a queima e a morte das flores, impedindo a formação de frutos. É crucial monitorar os sintomas como medida preventiva. Esse cuidado possibilita o controle integrado da doença e a adoção de medidas adequadas”, pontua.

Sintomas do oídio nas flores do cajueiro Foto Marlon Valentim/Embrapa Agroindústria Tropical/Divulgação
Metodologia para o monitoramento
Estudos da Embrapa orientam que no Manejo Integrado de Pragas (MIP) o monitoramento seja realizado de forma contínua, desde a implantação da área cultivada.
Esse acompanhamento sistemático facilita o controle fitossanitário e reduz o uso de defensivos químicos, evitando equívocos e gastos desnecessários, com economia para o agricultor e benefícios para o consumidor e meio ambiente.
Lindemberg orienta que o monitoramento deve considerar os sintomas. “No caso da broca-das-pontas, é importante identificar inflorescências murchas, secas ou ramos florais quebrados, além da presença de orifícios nos ramos e de fezes das lagartas na parte superior das folhas localizadas abaixo dos ramos atacados”, ensina o especialista.
Já no caso da traça-da-castanha, de acordo com o pesquisador, é preciso verificar a presença de furo nas castanhas. Quanto ao oídio, o principal sintoma a ser observado é a ocorrência de cinza na superfície das folhas, inflorescências, frutos e ramos jovens.

Broca-das-pontas-Murcha do ramo Foto Antonio Lindemberg/Embrapa Agroindústria Tropical/Divulgação
O cientista da Embrapa destaca que a metodologia desenvolvida para o monitoramento com o aplicativo preconiza a definição da amostragem em função do tamanho da área. “Para um pomar de até cinco hectares, recomendamos uma amostra de 10 plantas e o monitoramento de cinco ramos ao redor de cada uma. Quando o controle ocorre no início do ataque da praga, o custo é menor e os riscos de perda reduzem. Por isso, orientamos iniciar o processo quando 3% a 5% dos ramos amostrados apresentarem infestação de broca-das-pontas, e 5% das castanhas tiverem furo”, aponta Lindemberg.
Ainda de acordo com o pesquisador, essa orientação possibilita otimizar o tempo na realização do monitoramento. O produtor rural necessita de métodos ágeis de manejo fitossanitário, que proporcionem rentabilidade à cajucultura e reduzam custos com defensivos.
“O aplicativo Monitora Caju fornece uma metodologia bem orientada e ainda facilita o acesso a uma gama de informações sobre fitossanidade do cajueiro, geradas pela pesquisa, e disponibilizadas em forma de publicações”, informa o agrônomo.
Segundo Lindemberg, o controle de pragas e doenças é essencial para garantir renda na cajucultura. O produtor precisa conhecer o problema, fazer o monitoramento em todas as fases da cultura e adotar as medidas adequadas. “É importante levar em consideração o custo-benefício do Manejo Integrado de Pragas, por se tratar de um processo que envolve baixo investimento e ajuda a conferir sustentabilidade a longo prazo”, afirma.
Mapas de ocorrência
O Monitora Caju também permite gerar mapas de ocorrência do oídio, da traça-da-castanha e da broca-das-pontas. O aplicativo registra todo o processo de monitoramento e possibilita que o produtor forme o seu próprio banco de dados, com informações sobre a evolução das pragas e doenças identificadas. Além disso, indica a localização geográfica das infestações, permitindo rastreá-las por localidade.
Os mapas gerados podem subsidiar a formulação de políticas públicas de controle fitossanitário e o fortalecimento da cajucultura brasileira. “Precisamos de políticas públicas baseadas em informações reais do campo. Ter um panorama da ocorrência de pragas e doenças e dos níveis de incidência também pode direcionar novas pesquisas científicas e contribuir para a geração de conhecimentos inéditos sobre a cajucultura”, pondera Valentim.
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Apoio na adoção da tecnologia
A cajucultura gera trabalho e renda para centenas de famílias da região Nordeste. Os estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí respondem por 95% da produção nacional de castanha-de-caju, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
De acordo com o último Censo do Instituto, 143.173 estabelecimentos rurais cultivam o cajueiro no País. Desse total, 62,8% possuem pomares com menos de 50 plantas, o que caracteriza a cajucultura como uma atividade de base familiar. O conhecimento sobre pragas e doenças, o monitoramento contínuo do pomar e a proatividade no controle fitossanitário são primordiais para a obtenção de pomares sadios e produtivos.,

Tela do aplicativo Monitora Caju Foto Francisco Williams/Embrapa Agroindústria Tropical/Divulgação
Para o supervisor de fruticutura da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural no Ceará (Senar/CE), Marcelo Colaço, o Monitora Caju é uma tecnologia inovadora, com grande potencial de alcance na agricultura familiar.
Em sua visão, há um contingente expressivo de pequenos e médios produtores de caju que não têm acesso a tecnologias e contar com uma ferramenta para uso no celular, com a vantagem de não depender de rede de internet, é um diferencial, que pode trazer mudanças significativas no campo, por meio de melhores resultados na produção e na geração de renda.
“Temos uma equipe de técnicos extensionistas que atende cerca de 600 cajucultores do Ceará e pode apoiar e expandir a adoção do Monitora Caju junto a essas famílias, como ferramenta de controle fitossanitário. Além de diagnóstico rápido, o produtor saberá como controlar o problema. A agilidade na identificação de pragas ou doenças do cajueiro e a adoção imediata de medidas de controle torna o processo mais eficaz, seguro e econômico”, avalia o gestor.








