Seja nas sementes ou no controle de pragas, a ciência nuclear vem ajudando a redesenhar a forma como os alimentos são produzido (Foto: IAEA)
A ideia de que a energia nuclear está presente no campo pode soar improvável à primeira vista. Mais associada a usinas, debates geopolíticos ou acidentes históricos, ela parece distante da rotina de quem planta, colhe e produz alimentos.
Mas essa percepção não poderia estar mais equivocada. Há décadas, técnicas nucleares vêm sendo incorporadas à agricultura em diferentes partes do mundo — inclusive no Brasil — como ferramentas sofisticadas para aumentar a produtividade, economizar recursos naturais e enfrentar os desafios climáticos.
De forma quase invisível, o átomo se tornou um aliado estratégico do agro.
Marcadores invisíveis no solo
Muito além da geração de eletricidade, o principal papel da energia nuclear na agricultura está no uso de isótopos — versões de elementos químicos que funcionam como marcadores.
Aplicados em quantidades seguras, eles permitem rastrear o caminho da água e dos nutrientes no solo e nas plantas.
É como se cientistas conseguissem enxergar, em detalhes, aquilo que normalmente é invisível: quanto fertilizante uma planta realmente absorve, quanta água se perde por evaporação ou infiltração, e onde estão os gargalos da produtividade.
Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), essas técnicas ajudam a otimizar o uso de insumos, reduzindo custos e impactos ambientais ao mesmo tempo.
Em um cenário de mudanças climáticas e eventos extremos mais frequentes, entender como a água se comporta no solo pode fazer toda a diferença. Técnicas isotópicas permitem identificar a origem da água utilizada pelas plantas, medir a eficiência da irrigação e ajustar sistemas para evitar desperdícios.
Dados da IAEA em parceria com a FAO indicam que esse tipo de abordagem pode aumentar significativamente a eficiência hídrica, um fator decisivo em regiões sujeitas à seca.
Melhoramento de variedades
O alcance da tecnologia nuclear no campo vai além do manejo de recursos. Ela também está presente no desenvolvimento de novas variedades de plantas.
De acordo com a FAO, mais de 3.400 variedades agrícolas já foram desenvolvidas dessa forma no mundo, incluindo culturas essenciais como arroz, trigo e cevada.
Um dos métodos mais utilizados é a chamada mutação induzida: sementes são expostas a níveis controlados de radiação, o que acelera a ocorrência de mutações naturais.
A partir daí, pesquisadores selecionam aquelas que apresentam características desejáveis, como maior resistência à seca, a pragas ou maior produtividade.
Diferentemente dos transgênicos, esse processo não envolve a inserção de genes de outras espécies.
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A proteção das lavouras também ganhou um reforço nuclear.
A chamada Técnica do Inseto Estéril (SIT, na sigla em inglês) utiliza radiação para esterilizar machos de determinadas espécies de pragas, que são então liberados no ambiente.
Ao se reproduzirem sem gerar descendentes, ajudam a reduzir drasticamente a população ao longo do tempo. Segundo a IAEA, trata-se de uma alternativa eficaz e ambientalmente segura, capaz de reduzir a dependência de pesticidas químicos.
O método já foi aplicado com sucesso no combate à mosca-da-fruta e à mosca tsé-tsé, entre outras pragas de impacto econômico relevante.
Depois da colheita, o uso continua
Até mesmo depois da colheita, a energia nuclear continua presente.
A irradiação de alimentos, técnica reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), é utilizada para eliminar microrganismos, aumentar a durabilidade e reduzir perdas.
Apesar da resistência inicial de parte do público, trata-se de um processo seguro, que não torna os alimentos radioativos.
Ovos recém-postos podem adquirir microrganismos como salmonela e E. coli do ambiente da galinha. Esses microrganismos permanecem na casca, contaminando outros alimentos e entrando no ovo com o tempo.
Uma nova tecnologia de radiação está sendo utilizada para desinfetar ovos com feixes de elétrons de baixa energia, contribuindo para tornar esse alimento básico mais seguro e facilitar seu comércio em todo o mundo
Em um mundo onde cerca de um terço da produção global de alimentos é desperdiçada, segundo a FAO, tecnologias como essa ganham relevância crescente.








