Super El Niño coloca quase 400 municípios sob risco de incêndios; período seco põe medidas de prevenção à prova. Na imagem, combate ao fogo em área de Cerrado no Distrito Federal
(Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado)
Com previsão de intensificação do fenômeno, especialista da Coalizão Brasil alerta que controle do fogo depende de antecipação dos riscos e maior participação do setor produtivo
O produtor rural será peça crucial para prevenir queimadas nos próximos meses, quando a intensificação do El Niño deve elevar o risco de grandes incêndios no Centro-Oeste.
Com 399 municípios sob alerta do governo federal, especialistas defendem que propriedades rurais reforcem medidas preventivas, como manutenção de aceiros, acompanhamento das condições meteorológicas e cuidados no uso autorizado do fogo.
A preocupação aumenta com a chegada do período mais seco do ano.
“O país entra agora no período em que o risco de grandes incêndios se intensifica, sobretudo no Cerrado e na Amazônia, em razão da fase de seca, característica dos próximos meses”, observa Ane Alencar, membro da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura e diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).
O mapeamento apresentado pelo governo federal colocou sob monitoramento especial 23 cidades em alerta vermelho, 154 em laranja e 222 em amarelo no Centro-Oeste.
A região concentra áreas de Cerrado, Pantanal e Amazônia, biomas particularmente vulneráveis ao fogo durante os meses de setembro e outubro, apontados como período de pico do El Niño.
Para mitigar os efeitos do fenômeno climático, o plano federal de prevenção prevê R$ 337 milhões diretamente para ações de prevenção e combate a incêndios florestais. Outros R$ 527 milhões, por meio do Fundo Amazônia, serão destinados a equipamentos para os Corpos de Bombeiros dos estados das regiões Norte e Centro-Oeste.
Para Alencar, o reforço dos investimentos representa um avanço, mas a capacidade de controlar incêndios continuará dependendo tanto das condições climáticas quanto da consolidação de políticas públicas permanentes.
“Em 2025, a estação chuvosa foi mais prolongada, o que reduziu a janela favorável para incêndios”, explica.
O desafio, agora, será verificar se as estruturas montadas nos últimos anos conseguem manter os incêndios sob controle mesmo diante de condições meteorológicas menos favoráveis.
Prevenção passa pelas propriedades rurais
O setor produtivo ocupa posição central nessa estratégia porque grande parte das ignições registradas no país está relacionada a atividades humanas. A prevenção nas propriedades envolve desde o planejamento do uso do fogo até cuidados com áreas de vegetação nativa.
“Isso significa planejar cuidadosamente qualquer uso autorizado do fogo, respeitar períodos de proibição, manter aceiros e infraestrutura adequada, acompanhar as condições meteorológicas antes de qualquer operação de risco, proteger nascentes, matas ciliares e reservas legais e cuidar para que áreas especialmente vulneráveis fiquem longe de fontes de ignição”, ressalta a especialista.
O papel do produtor também se estende à recuperação da paisagem e à redução da vulnerabilidade das próprias áreas agrícolas.
“A recuperação de áreas degradadas também faz parte dessa agenda. Restaurar áreas degradadas e proteger a vegetação nativa aumentam a resiliência da paisagem e reduzem o risco para a própria atividade produtiva.”
A avaliação é que a política de prevenção precisa avançar para além das estruturas federais e chegar de forma mais intensa a estados, municípios e propriedades rurais.
LEIA TAMBÉM:
Governo reforça estoques de alimentos e destina R$ 1,3 bilhão para enfrentar impactos do El Niño
Mais chuva no Sul e veranicos no Centro-Norte: impactos do El Niño no agro brasileiro
Queimadas causam prejuízo de R$ 800 milhões ao setor da cana-de-açúcar, em 2024
Política do fogo será colocada à prova
Parte dessa estrutura começou a ser construída em 2024, com a instituição da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF). A iniciativa ampliou a articulação entre órgãos envolvidos na prevenção e no combate aos incêndios e ganhou relevância após as queimadas intensas registradas em 2023 e 2024.
“A política começou a ser implementada recentemente, e seus resultados dependem de ganhar escala nos estados e municípios, com orçamento, equipes e planos territoriais”.
Para que a redução dos incêndios observada em 2026 não seja apenas resultado de circunstâncias climáticas favoráveis, será necessário transformar os avanços recentes em políticas permanentes, segundo Alencar.
“Para isso, precisamos consolidar a PNMIF, garantir recursos permanentes para prevenção e brigadas, ampliar os Planos de Manejo Integrado do Fogo e levar essa capacidade para estados, municípios e propriedades rurais”.
Outra frente considerada essencial é antecipar as áreas mais vulneráveis. A proposta é identificar, antes da estação seca, os territórios com maior probabilidade de enfrentar grandes incêndios e direcionar equipes e recursos preventivamente, em vez de mobilizá-los apenas quando as chamas já começaram.
A estratégia também está ligada à redução do desmatamento e da degradação das florestas, fatores que tornam a vegetação mais suscetível ao fogo.
“Na Amazônia, uma floresta degradada, fragmentada e que já queimou anteriormente fica muito mais vulnerável a novos incêndios”, comenta Alencar.








