Chatbots já sugerem cardápios, analisam refeições e ajudam a organizar hábitos. Quando entram em cena exames, histórico clínico e condições de saúde, porém, o acompanhamento de um nutricionista continua indispensável
(Foto: Julio Bazanini/USP Imagens)
A inteligência artificial está mudando a maneira como as pessoas buscam orientações sobre alimentação. Em vez de recorrer apenas a livros, sites ou profissionais, parte da população já pede a ferramentas de IA que montem dietas, calculem nutrientes, avaliem refeições e sugiram substituições no cardápio.
No Brasil, 57% dos consumidores afirmam que se sentiriam confortáveis em utilizar inteligência artificial generativa para criar planos personalizados de dieta e nutrição. O dado faz parte da pesquisa Voz do Consumidor 2025, realizada pela PwC com 1.002 brasileiros.
A possibilidade de obter respostas em poucos segundos amplia o acesso a informações sobre alimentação. Ao mesmo tempo, levanta uma questão essencial: até onde a IA pode ajudar sem transformar uma sugestão genérica em uma orientação de saúde potencialmente inadequada?
Para Bruna Makluf, nutricionista, mestre em Saúde e diretora em uma healthtech brasileira especializada em saúde personalizada e nutrição de precisão, a tecnologia pode apoiar o cuidado nutricional, mas não deve ser confundida com uma avaliação clínica.
“A inteligência artificial pode organizar informações, reconhecer padrões e facilitar escolhas durante a rotina, mas não substitui o conhecimento do nutricionista. É o profissional quem consegue cruzar exames, histórico clínico, medicamentos, comportamento alimentar e objetivos para entender o que aquela pessoa realmente precisa”, afirma Bruna.
Na plataforma que ela integra, por exemplo, os protocolos levam em consideração informações como genética, microbiota intestinal, exames, hábitos e objetivos de cada paciente.
São elementos que dificilmente podem ser avaliados de maneira segura apenas por meio de uma conversa com um chatbot.
Informação não é diagnóstico
O uso crescente de inteligência artificial para orientar escolhas alimentares vem acompanhado de alertas de especialistas.
Recomendações produzidas por essas ferramentas podem ignorar doenças preexistentes, necessidades nutricionais específicas, medicamentos em uso e resultados de exames laboratoriais.
Uma resposta pode parecer personalizada por mencionar peso, idade, altura ou objetivo do usuário.
Esses dados, entretanto, representam apenas uma parcela da condição individual. Pessoas com características aparentemente semelhantes podem reagir de formas completamente diferentes à mesma estratégia alimentar.
“A diferença está no tipo de pergunta feita à ferramenta. Uma resposta pode parecer personalizada porque considera peso, idade e objetivo, mas isso representa apenas uma pequena parte do paciente. Duas pessoas com características semelhantes podem responder de maneiras completamente diferentes à mesma estratégia”, diz a especialista.
“A IA reúne dados. O nutricionista interpreta o que esses dados significam dentro de uma história clínica”, ressalta.
Esse limite se torna ainda mais importante quando há diabetes, hipertensão, alterações renais, doenças gastrointestinais, transtornos alimentares, alergias ou uso contínuo de medicamentos.
Também exige atenção a indicações de suplementos, dietas muito restritivas e mudanças bruscas no consumo de calorias ou nutrientes.
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A IA nos serviços de saúde
A inteligência artificial também vem conquistando espaço dentro das instituições de saúde.
A pesquisa TIC Saúde 2025, elaborada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil e pelo Cetic.br, aponta que 18% dos estabelecimentos de saúde brasileiros utilizavam inteligência artificial. Entre os que adotavam a tecnologia, 76% faziam uso de modelos generativos de linguagem.
No campo da nutrição, essas ferramentas podem acelerar tarefas, organizar grandes volumes de informação e ampliar a frequência do acompanhamento. A responsabilidade pela interpretação dos dados e pelas decisões relacionadas à saúde, contudo, permanece com o profissional.
Onde a inteligência artificial pode ajudar
Uma das aplicações mais simples é a organização da alimentação. Ferramentas digitais podem registrar refeições, reunir informações sobre a rotina, estruturar horários e sugerir preparações a partir dos ingredientes disponíveis em casa.
Alguns sistemas também conseguem analisar fotografias de pratos. A partir da imagem, estimam os alimentos presentes e a possível composição da refeição, incluindo fontes de carboidratos, proteínas e gorduras.
Embora o resultado não tenha a precisão de uma análise profissional, pode servir como registro e ponto de partida para ajustes.
Outra utilidade está na identificação de padrões. Registros frequentes sobre alimentação, sono, atividade física e disposição podem revelar comportamentos que passariam despercebidos no intervalo entre as consultas. A IA também pode explicar características dos alimentos, sugerir substituições e responder dúvidas cotidianas.
O limite aparece quando é necessário interpretar o paciente. Avaliação nutricional, leitura de exames, prescrição de suplementos, definição de estratégias alimentares e análise de riscos exigem formação técnica e conhecimento do histórico individual.
Sono, metabolismo, saúde intestinal, comportamento alimentar, medicamentos e alterações laboratoriais também interferem na maneira como o organismo responde a uma dieta. Por isso, duas pessoas que consomem cardápios semelhantes podem apresentar evoluções muito diferentes.
“A inteligência artificial consegue reunir informações em uma velocidade e frequência que seriam difíceis de reproduzir manualmente. Isso pode tornar o acompanhamento mais completo, mas alguém precisa avaliar o que é relevante, identificar riscos e decidir o que deve ou não mudar. A tecnologia amplia o trabalho do nutricionista, não substitui seu conhecimento”, destaca a nutricionista.
O novo papel do nutricionista
A popularização das ferramentas generativas também modifica a relação dos pacientes com os profissionais. Muitas pessoas já chegam à consulta com cardápios, cálculos, dúvidas e recomendações obtidas em aplicativos ou chatbots.
Nesse cenário, o trabalho do nutricionista passa a incluir a avaliação crítica desse conteúdo. Cabe ao profissional separar informações úteis de recomendações sem fundamento, esclarecer os riscos e adaptar as possibilidades à realidade clínica, social e alimentar de cada paciente.
A tecnologia também pode liberar tempo antes gasto na organização manual de registros, permitindo que o atendimento se concentre em aspectos mais complexos, como adesão ao tratamento, comportamento alimentar, interpretação de exames e definição de estratégias de longo prazo.
A discussão, portanto, deixa de ser simplesmente se a inteligência artificial deve ou não fazer parte dos cuidados com a alimentação. O ponto central passa a ser como utilizá-la com responsabilidade.








